Crónicas de jogos

O primeiro Clássico nunca se esquece: frente ao FC Porto, o Benfica confirmou o favoritismo e venceu a Taça de Portugal feminina

Encarnadas ganharam a Taça de Portugal pela 3ª vez
Encarnadas ganharam a Taça de Portugal pela 3ª vez
JOSÉ SENA GOULÃO

Frente as azuis e brancas, campeãs da II divisão e que no próximo ano estarão pela primeira vez no escalão principal, o Benfica conquistou a sua 3ª Taça de Portugal (2-0) e uma doce dobradinha, perante um Jamor bem composto e onde adeptos das duas equipas se sentaram lado a lado

Aproveitemos o momento, com carinho, porque pode ser curto. Porque em muito poucas ocasiões será possível assistir a um cenário como o que o Jamor recebeu na tarde deste domingo. Vermelho e azul, Benfica e FC Porto, rivais sentados lado a lado num jogo carregado de simbolismo: nunca antes as duas equipas femininas principais destes adversários figadais se tinham enfrentado, num Clássico inédito e histórico, e logo com o Estádio Nacional, não menos especial, como pano de fundo.

A final da Taça de Portugal de 2026 jogou-se, por isso mesmo, em circunstâncias também elas pouco vistas. O Benfica, há muito uma potência, em busca da dobradinha depois de ter garantido o hexacampeonato nacional. E do outro lado um FC Porto que, mesmo rejeitando a linha rápida para chegar ao topo, mesmo apostando num projeto sustentado, com tempo, conseguiu rapidamente chegar às decisões. Em três anos, subiu duas vezes, no próximo ano estará na Liga BPI. E logo ao segundo ano, ainda a jogar no segundo escalão, chegou à final da Taça.

Se o peso do símbolo é semelhante, as armas são, para já, desiguais. A vitória do Benfica, que conquistou assim a sua terceira Taça de Portugal, não se deu numa passadeira escarlate, mas escrever-se-ia com a pena da inevitabilidade. Era a equipa mais experiente, com mais soluções, fisicamente mais preparada, perante um FC Porto a tentar dar um melhor num jogo que não é o seu: na segunda divisão, em 21 jogos, as azuis e brancas perderam apenas um encontro, estão habituadas a serem donas da bola. A final da Taça, frente ao Benfica, seria um desafio novo.

Foi assim normal ver um Benfica a dominar a posse, quase sempre confortável com bola. Mostrou respeito pelo adversário, pressionando alto nos primeiros minutos, com bom ritmo de parte a parte, o FC Porto a tentar esticar o jogo nas transições, o Benfica com a obrigatória paciência de quem era favorito.

Mas mesmo sendo superior, só a bola parada definiu o jogo para as encarnadas. Logo aos 5’, num lance de insistência após livre lateral, Caroline Møller aproveitou a confusão - e a incapacidade das jogadoras do FC Porto para limpar o lance - para desviar para a baliza.

O primeiro golo das águias marcou definitivamente a imposição da sua superioridade, mas a melhor oportunidade nos minutos seguintes seria do FC Porto, com a atacante Lily Bryant a surgir isolada em frente a Lena Pauels, mas a rematar contra a guardiã alemã, afoita na saída. Do outro lado, a norte-americana Cora Brendle dava também boa conta de si na baliza, opondo-se com coragem quando Nycole Raysla surgiu, pouco depois, em boa posição para marcar.

Caroline Møller faz a emenda para o primeiro golo
JOSÉ SENA GOULÃO

O FC Porto ia subindo no terreno quase exclusivamente através de combinações no seu lado direito, mas raramente com perigo. Mas ao Benfica, mesmo superior, faltava a criatividade para criar mais oportunidades. Seria novamente a bola parada a engordar o resultado, após um canto, com Diana Silva a saltar bem para ganhar a primeira bola e Caroline Møller, de novo, bem a atacar o espaço (com pouca oposição também) para fazer a emenda.

Um jogo tornar-se-ia mais partido e desinteressante na 2ª parte, com os índices físicos do FC Porto a baixarem, sem que o Benfica conseguisse aproveitar. Podia dar-se ao luxo de gerir a equipa encarnada, com tudo a seu favor. Nas bancadas, 22.258 pessoas batiam o recorde em finais da Taça feminina no Jamor. Lá dentro, em campo, o espectáculo piorava. O FC Porto só conseguia ferir o Benfica com bolas longas, Eliza Turner, com autorização para calcorrear vários terrenos, era um derradeiro foco de energia e aos 56’ obrigou Lena Pauels a defesa apertada após lance individual, onde bateu Diana Gomes.

O jogo seguiria lânguido até final, com momentos de perigo a surgirem apenas no caos. Para o Benfica, uma vitória natural, mas nunca fácil. Para o FC Porto, uma primeira aparição no palco mais desejado, uma experiência tremenda para o que aí vem, para um futuro em que, finalmente, os três grandes vão competir lado a lado na primeira divisão. Houve lágrimas nas jogadoras azuis e brancas no final, sinal da responsabilidade que já sentem. Toda a gente ganhará.

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