Crónicas de jogos

Sevilla, Villarreal, Aston Villa: a Liga Europa é outra vez de Unai Emery, carrasco da viagem inesperada do Friburgo

A festa dos jogadores do Villa
A festa dos jogadores do Villa
Harry Murphy - AVFC

Pela quinta vez na carreira, o obsessivo espanhol triunfa na divisão de prata do futebol continental, com o seu Aston Villa a derrotar contundentemente (3-0) o Friburgo. Os alemães lograram uma campanha histórica para um emblema modesto, mas foram impotentes perante a superior valia de um adversário de outra dimensão

Sevilla, Villarreal, Aston Villa: a Liga Europa é outra vez de Unai Emery, carrasco da viagem inesperada do Friburgo

Pedro Barata

Jornalista

Diz quem já foi orientado por Unai Emery que o treinador só relaxa nas horas seguintes a uma vitória importante, a erguer um título, por exemplo. No resto do tempo, o basco, vindo do maior viveiro de técnicos de elite do mundo, é um carrancudo trabalhador, minucioso, detalhista, até cansativo.

Nos tempos da aura e do carisma postiços, Emery é o oposto disso. Nem se esforça em demasia para encantar pela imagem. Mas trabalha, trabalha muito, trabalha bem.

Numa noite de maio em Istambul, Unai voltou a cruzar o seu destino com o da Liga Europa. Sempre com uma certa continuidade sonora: Sevilla, Villarreal, Aston Villa. Três vezes com os andaluzes, uma vez com os de amarelo, a quinta a chegar com os ingleses. Uma mão-cheia de conquistas, uma mão-cheia de horas em que terá relaxado.

O 3-0 com que o Aston Villa derrotou o Friburgo começou suave, até difícil, sem que os alemães vergassem. Encontraria, entre o fim do primeiro tempo e o arranque do segundo, as vantagens, os buracos, até as facilidades. Terminaria em procissão, dando tempo para apreciar o momento, parar, celebrar antes do apito final.

Passados 44 anos do título europeu contra o Bayern, o Villa volta a ganhar um torneio continental. Nas bancadas, vibrando com a equipa de Emery, estava o príncipe William, o mais famoso adepto do clube.

Emery levado em ombros
Alex Livesey - AVFC

Seria sempre possível olhar para esta final através de duas lentes. Uma mais romântica, outra mais pragmática. Pelo olhar mais idealista, que não é de menor importância no futebol, tratava-se de um embate entre um campeão europeu a reerguer-se, um clube cheio de tradição que ainda em 2019 estava na segunda divisão e agora está de volta às grandes noites internacionais, e um emblema comunitário, orgulhosamente pequeno, que antes desta temporada jamais estivera, sequer, nos quartos de final de um torneio da UEFA.

A visão mais fria lembrava que estamos perante um confronto desigual. De um lado um clube rico, da rica Premier League, 14.º na lista de Deloitte Football Money League, vindo de um campeonato que, através da força financeira, vai criando vencedores de competições europeias, do West Ham ao Tottenham, do Chelsea ao Aston Villa, com o Crystal Palace e o Arsenal à espreita. Do outro, a um mundo de dinheiro de distância, o bem mais modesto Friburgo, condenado a ter os bolsos menos fundos.

Ainda assim, o primeiro tempo deu-nos um marcador mentiroso. Morgan Rodgers, que recebe a bola e pensa logo em golos de fora da área, ameaçou a baliza adversária duas vezes na dezena de minutos inicial, mas o Friburgo controlou bem o adversário. Empurrado pelos seus entusiastas adeptos, a equipa alemã concedeu pouco aos de Birmingham e até ameaçou Dibu Martínez em duas ocasiões, uma por Hofler, a despedir-se das chuteiras, outra por Manzambi, pérola suíça que não ficará muito tempo no Friburgo.

Os alemães são uma ilha no instável futebol moderno. Habituaram-se a grandes dinastias no banco, com Julian Schuster a suceder a Christian Streich, que esteve ligado ao conjunto de Baden-Württemberg durante quase 30 anos, 12 deles como técnico. Schuster, após toda uma carreira de jogador no Friburgo, passou, primeiro, para técnico adjunto, indo na segunda campanha como principal. Sete dos 11 titulares estão há mais de cinco anos na equipa, com muita gente da formação e casos como Hofler, estreado em 2013, Kubler, chegado em 2016, ou Lienhart, em 2017.

Esta forma de expressão comunitária, esta continuidade, viveu uma fenomenal viagem até esbarrar contra a superior qualidade dos villans. Em cima do descanso, uma grande expressão desse talento levou ao 1-0. E com toque da seleção nacional.

O barbudo Austin MacPhee é o treinador de bolas paradas do Villa, função que também possui com Portugal, sob o comando de Roberto Martínez. Um bem trabalhado desenho na sequência de um canto levou a bola a voar para Tielemans, especialista em remates, que abriu o marcador.

O remate de Tielemans para o 1-0
Adam Davy - PA Images

O 2-0, uma pedra em cima do sonho do Friburgo, surgiria ainda em período de dscontos. Buendía, aproveitando uma descoordenação da defesa adverária depois de nova bola parada, atirou de pé esquerdo, desenhando um arco que cruzou os céus de Istambul, terá viajado por todo o continente e aterrado em Birmingham, no coração dos adeptos.

Se a primeira parte sugeria que seria difícil alterar o vencedor, o arranque da segunda confirmá-lo-ia. Com o Friburgo algo ausente da discusão, fora da luta, Morgan Rodgers aproveitou o bom trabalho de Buendía para o definitivo 3-0. Há mais de 50 anos, desde o Bayern contra o Leeds em 1975, que alemães não batem ingleses em finais europeias. O jejum prolongou-se.

Houve tempo para meia-hora em que, basicamente, se cumpriu calendário. O Villa foi começando a festejar, colocando até em campo Tyrone Mings, ele que, tal como John McGinn, foi titular na final do play-off de subida à Premier League, em 2019, saboreando toda a extensão desta viagem.

No banco, Unai Emery, camisa branca, gravata preta, mas sem fato, era ladeado pelo nome português neste triunfo. É Arnaldo Abrantes, antigo velocista, olímpico em Pequim 2008 e Londres 2012, agora chefe da equipa médica do Aston Villa.

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