Crónicas de jogos

O pesadelo do Sporting é a epopeia do Torreense, o mais inesperado e incrível vencedor da história da Taça de Portugal

A festa do Torreense
A festa do Torreense
TIAGO PETINGA

Pela primeira vez na competição criada em 1938/39, o troféu é erguido por uma equipa que não está na primeira divisão. O Torreense conseguiu a proeza, batendo (2-1), no Jamor, um adversário que realizou uma péssima exibição. O veterano Stopira, de penálti no prolongamento, apontou o golo decisivo

O pesadelo do Sporting é a epopeia do Torreense, o mais inesperado e incrível vencedor da história da Taça de Portugal

Pedro Barata

Jornalista

É um dia de inédito, de choque, de impossível feito realidade, do inalcançável que está diante dos nossos olhos. De glória suprema para uns, de terror para outros, uma tarde para a eternidade do futebol nacional.

Criada ainda antes do começo da Segunda Guerra Mundial, em 1938/39, a Taça de Portugal atravessou décadas, criou mitos, supervisionou lendas, construiu heróis. Nunca, jamais, se vira isto: uma equipa de fora do principal campeonato a ganhar. É o Torreense, da II Liga, triunfador da Taça de Portugal 2025/26.

Na final, o 2-1 contra o Sporting cai com estrondo para o emblema de Alvalade. O Jamor poderia ser a salvação da época, agora fica como a condenação, crime, pecado, mancha difícil de tirar do registo de Rui Borges e da equipa.

O 1-0 do Torreense, apontado por Zohi aos 4', foi o golo mais madrugador numa final da Taça desde Marinho, em 2012. Alguém falou em fantasmas? Mencionaram-se traumas? Pois bem, Académica 2012, Aves 2018, tudo isso é menor perante esta monumental surpresa.

Foi um Sporting de distintas versões no Jamor. Todas negativas. Arrancou nervoso, passou para o displicente, concluiu parecendo em pânico.

O reverso da medalha veio do Oeste. Escrever-se-ão livros, haverá documentários, far-se-á uma série, mil e uma formas de contar esta epopeia. O Torreense 2025/26 é peça de museu, tendo ainda a hipótese da subida à I Liga viva.

A celebração no Jamor
Soccrates Images

A tarde quente de Maio, abafada mas sem céu limpo, recebeu uma final que, pela sétima vez, contou com uma equipa fora da primeira divisão nacional. A cerimónia de abertura foi uma mixórdia de temas e conceito, um pouco de tradição, uma pitada de Bárbara Bandeira, um pedaço de tudo, nada para a memória.

Os minutos iniciais, como habitual no velhinho Jamor, tiveram como pano de fundo a entrada tardia de adeptos. Ainda muitos não se haviam sentado e já o David feria o Golias. O entusiasmado e agressivo Torreense bateu um canto da esquerda, com Leo Silva a ganhar a bola no primeiro poste, causando o pânico na defensiva à frente de Rui Silva. Morita, no último desafio pelos lisboetas, parecia ter a situação controlada, podendo cortar o perigo, mas a situação passou-lhe à frente, como se o japonês se tivesse evaporado. Zohi agradeceu e apontou o 1-0 quase sem querer.

O Sporting arrancou nervoso, com várias jogadas típicas dos últimos minutos de uma final, não dos primeiros, apressado, ansioso. Kevin Zohi, com um olho aberto, outro quase fechado, ia sendo uma dor de cabeça para Quaresma e Inácio, forçando um amarelo para o canhoto com a sua velocidade. Do lado de fora, Rui Borges, com uma camisa de manga curta com cores à Torreense, curiosa opção de indumentária, mostrava apreensão. Lá em cima, António José Seguro presidia ao seu primeiro Jamor enquanto inquilino do Palácio de Belém. Ficará para a história.

Os vice-campeões nacionais até chegavam recorrentemente perto da baliza do seu adversário do escalão secundário, mas raramente com critério na meia-hora inicial. Eram ofensivas desconexas, como quem foge à forca, evitando o descalabro, não perseguindo a glória. Com o acercar do descanso, os de verde e branco melhoraram, sendo capazes de encontrar espaço, mas sem sucesso. Pote, após assistência feita com visão de pássaro, como quem olha o relvado de lá de cima, de Morita, atirou por cima, antes do mesmo Pedro Gonçalves, quem sabe em despedida do clube que o tem como um dos mais decisivos futebolistas das últimas décadas, acertar no poste. Sempre com o número oito em evidência, Pote serviu Suárez, que não logrou superar Lucas Paes.

O intervalo chegou com a hipótese da surpresa a pairar sobre o Estádio Nacional, como uma sombra que se vai alargando, alastrando a todo o relvado, a toda a bancada, a toda a mata, a todo o país. Luís Tralhão olhava tranquilo para o jogo, de polo do Torreense, publicidade incluída, zeloso dos compromissos comerciais do clube. O plano do David estava a sair perfeito, os adeptos do Golias brindavam-no com alguns assobios.

A desilusão de Luis Suárez
Sports Press Photo

O fantasma Académica, o medo de um novo Marinho, criava pesadelos em plena luz do dia ao Sporting. Mas eis que, subitamente, boas notícias para os leões: o Aston Villa terminou em quarto na Premier League, dando acesso direto aos de Alvalade à próxima Liga dos Campeões. Minutos depois da conclusão do campeonato inglês, chegou o 1-1.

Maxi Araujo apresentou-se no Jamor com um look difícil de descrever. Talvez assustado com o cabelo do uruguaio, Mohamed Ali-Diadié, aos 54', tardou a desfazer um lance, chutando contra Maxi, ressaltando a bola para a zona perigosa. Luis Suárez só precisou de uma nesga para rodar e rematar para o 1-1, no 42.º festejo do colombiano na campanha, somando Sporting e seleção.

Poderia imaginar-se que o favorito ficaria aliviado pelo golo, partindo para a reviravolta, beneficiando do encolher do menos poderoso adversário. O Torreense, é bom recordar, está a meio de outro embate histórico, o play-off de subida à I Liga contra o Casa Pia, podendo ascender à elite pela primeira vez desde 1991/92. Mas o resto do segundo tempo não mostrou um Sporting a sufocar, bem pelo contrário.

Os homens de Rui Borges foram embarcando numa toada morta, até desconexa, lenta. À medida que o sol ia descendo, a final foi tendo mais paragens, menos fio de jogo. O Torreense usava a experiência de Stopira, David Bruno ou Costinha, veteranos de mil batalhas, para ir respirando. Poucas situações houve para evitar o prolongamento. Hjulmand atirou para boa intervenção de Paes, enquanto André Simões roçou o golo da vitória para os do Oeste num lance caricato, em que um corte do médio quase surpreendeu Rui Silva.

Stopira atira para o 2-1
TIAGO PETINGA

O tempo extra chegou com um coro de assobios dos adeptos leoninos à sua equipa. Num certo sentido, o Sporting já era o derrotado da final, ao não conseguir vencer em 90 minutos. Ainda pioraria.

Para abrir os 30 minutos acrescentados à decisão, Ali-Diadié bateu Rui Silva. Estava fora de jogo, mas o Torreense acreditava, o Sporting temia, o inesperado parecia, mesmo, possível.

Rui Borges foi tentando mexer. Primeiro Luís Guilherme e Diomande, depois Quenda e Bragança, finalmente Nel, apostando em duas referências na frente. As substituições não melhoraram o nível do Sporting, que nunca correspondeu em campo ao estatuto que possui. Luis Suarez teve o 2-1 nos pés, mas um dos grandes momentos da tarde, um dos instantes fundamentais da história da Taça de Portugal, chegaria no segundo tempo do prolongamento, já com o sol ausente do relvado.

Uma sucessão de erros em cadeia teve Gonçalo Inácio, protagonista de uma final de pesadelo, a perder o duelo perante Seidy. Maxi Araujo, no desespero, travou o atacante. Penálti e cartão vermelho para o uruguaio. Stopira, veterano cabo-verdiano, líder espiritual deste coletivo para a eternidade, bateu Rui Silva.

Até final, o Torreense defendeu-se como quem protege um tesouro, uma relíquia de panteão. O Sporting, no desespero, foi atacando sem grande ordem, até dando espaço e tempo para que Ismaïl Seydi corresse dezenas e dezenas de metros, sem Rui Silva na baliza. Falharia, de baliza aberta, atirando ao lado.

O apito final consagrou o Torreense. Para o Sporting a tarde era de despedidas, umas confirmadas como a de Morita, outras com fortes suspeitas, como Pote e Hjulmand. Veremos como ficará Rui Borges depois disto, uma daquelas derrotas que faz feridas, ainda para mais antes de um longo verão, longas semanas para debater a desgraça, o desastre, para começar 2026/27 altamente fragilizado.

A epopeia vem do Oeste. Décadas e décadas de mística, de cultura de Taça, de festa no Jamor. Jamais se vira isto. Torreense 2025/26, o mais incrível e inesperado vencedor da história da Taça de Portugal.

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