Crónicas de jogos

Vai mesmo haver uma equipa da II Liga na Europa: Casa Pia salva-se no play-off e impede a subida do Torreense

Ao intervalo, o Casa Pia já estava em vantagem. Na segunda parte, geriu o resultado meticulosamente
Ao intervalo, o Casa Pia já estava em vantagem. Na segunda parte, geriu o resultado meticulosamente
CARLOS BARROSO
O Torrense falhou a dobradinha disfarçada e não conseguiu juntar à conquista da Taça de Portugal a subida à I Liga. Após o empate a zero na primeira mão do play-off de promoção/manutenção, o Casa Pia venceu (2-0) o segundo jogo garantindo a quinta presença consecutiva no principal escalão. Com a continuidade na II Liga, a equipa azul-grená vai-se juntar a um lote restrito de equipas que participou em competições europeias mesmo estando nas divisões secundárias dos respetivos países

A resistência emocional é um músculo. Quanto mais vezes se passa pelos desesperantes momentos de decisão, mais desenvolvida fica a capacidade de lidar com tamanha caldeirada de sentimentos.

De repente, o Torreense viu-se envolto num calendário assoberbante, com dias de manifesta importância a surgirem demasiado rápido para aquilo a que o clube está habituado. Convenhamos, ao longo da sua humilde história, foram episódicas as situações em que a equipa azul-grená foi convidada para tão relevantes cenários, logo estava aqui uma oportunidade de fazer a triagem à capacidade de sofrimento.

Se os jogadores do Torreense se tivessem apresentado em Rio Maior ainda a cheirar a festa, só portadores de discalculia incapazes de perceber a dimensão do recente feito os podiam julgar. Uma equipa da II Liga que ganha a Taça de Portugal, contra o Sporting, merece brindes em abundância.

Na segunda mão do play-off, estava em causa a tentativa de uma dobradinha disfarçada composta pela Prova Rainha e pela subida à I Liga. O Casa Pia era o interveniente meio morto da decisão, uma equipa em desvantagem anímica que caiu do trapézio para esta rede, uma vez que ficou em 16º lugar no escalão máximo.

O tal músculo que, quando desenvolvido, permite uma maior tolerância à pressão não está tão trabalhado assim e o Torreense, saturado com tantos acontecimentos prestigiantes, mostrou um sorriso amarelo para tentar esconder a exaustão. Assim sendo, acabou por falhar a subida à I Liga, algo que causa uma situação peculiar.

Na próxima época, mesmo assim, o SCUT vai participar na Liga Europa e juntar-se ao conjunto de clubes que jogaram competições europeias mesmo estando inseridas nas competições secundárias dos seus países. Dois desses casos são o Beira-Mar (1999/00) e o Leixões (2002/03). Lá fora, existem clubes de renome que estiveram na mesma condição. Cardiff (1967/68), Sunderland (1973/74), Atalanta (1987/88), Hannover (1992/93), Union Berlin (2001/02), Millwall (2004/05), Birmingham (2011/12) ou Wigan (2013/14) são apenas alguns casos.

As diferenças estatutárias entre Torreense e Casa Pia esbateram-se, o que diz muito sobre o quão merecedor de exposição é o hipnotizante pé esquerdo de Javi Vázquez. O principal impulsionador do Torreense foi expedito a rematar ainda antes do meio-campo, assunto para o longilíneo Patrick Sequeira resolver. Não havia 1,90m que salvasse o guarda-redes do Casa Pia quando o lateral espanhol, em boa articulação com Dany Jean, cruzou para um Musa Drammeh a quem faltaram centímetros para fazer o desvio.

Dany Jean tentou acelerar o jogo a favor da equipa de Torres Vedras
CARLOS BARROSO

Os gansos usaram uma roupagem semelhante àquela com que terminaram o primeiro jogo, um empate a zero que delegou as decisões para altura posterior. O selvagem Larrazabal foi extremo num figurino de largura imensa e Dailon Livramento gerou enfoque no ataque.

A equipa de Álvaro Pacheco manteve a política de risco zero e concentrou-se na demonstração de processos simples. A movimentação imposta ao nível do jogo exterior levou a cenários que possibilitaram a Dailon Livramento ser servido para finalizações obrigatoriamente reativas. Quando teve espaço para ele próprio conduzir, atirou à barra perante a impotência do colega de seleção, Stopira.

A amplitude dos casapianos teve impacto quando o Torreense se entornou todo para a esquerda, na perseguição a Kevin Prieto. Foi aí que o uruguaio encontrou a movimentação de Larrazabal, que, com o golo, puxou o cordão do play-off.

Com a manutenção virtualmente na sua posse, o Casa Pia fez tudo para não se expor aos velocistas do SCUT. Estacionados no meio-campo defensivo, os gansos renderam-se ao pragmatismo. O Torreense aproximou-se da baliza de Patrick Sequeira, o que resultou num acumular de bolas paradas. Alejandro Alfaro e Javi Vázquez, em remates tortos, protagonizaram as tentativas mais convincentes.

O Torreense tentou reagir à desvantagem com bolas bombeadas
CARLOS BARROSO

A abordagem mais intensa do conjunto azul-grená levou a que o setor defensivo suspendesse a atividade durante vários minutos consecutivos. Tal cenário fez com que o Torreense tivesse dificuldade para reagir ao renovado ataque do Casa Pia. Korede Osundina caiu, levantou-se e prosseguiu um lance que parecia perdido. Lawrence Ofori acompanhou a jogada para garantir que o esforço do colega era compensado com o 2-0. Nem o remate à barra de Dany Jean, numa altura em que Luís Tralhão já tinha dois avançados em campo, motivou uma reação que pudesse reverter as circunstâncias a favor do conjunto de Torres Vedras.

As alterações no elenco da I Liga ficam-se pela subida do Marítimo e do Académico de Viseu e com a descida do AVS e do Tondela. Pela quinta época consecutiva, o Casa Pia vai disputar o escalão primodivisionário. Foi por pouco...

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