Crónicas de jogos

A segunda dinastia dos reis da Europa: Paris Saint-Germain volta a conquistar a Liga dos Campeões

Os jogadores do Paris Saint-Germain levantaram a orelhuda pela segunda época consecutiva
Os jogadores do Paris Saint-Germain levantaram a orelhuda pela segunda época consecutiva
Catherine Ivill - AMA
O Arsenal rasteirou o Paris Saint-Germain logo no começo da final de Budapeste e agarrou-se com tudo a uma vantagem mínima. Desprezando a posse de bola, os gunners acabaram por conceder o empate (1-1). Os franceses, respeitando os campeões da Premier League, optaram por não correr riscos. Sem outra forma de resolver a questão, os penáltis (4-3) decidiram a favor do PSG

É impressionante como, por vezes, conversas triviais têm o condão de enviar o debate para um pântano de argumentos sem verificação possível que servem convenientemente a tese que se está a querer defender. Nesse momento, ficamos sem saber no que acreditar ou se há sequer uma posição certa e outra que contradiz a realidade.

Antes de ser um jogo, o futebol é uma imagem acústica, uma projeção mental ou, como muitos dizem, um sonho. Cruzam-se expectativas, hipóteses e tenta-se delinear um plano em função dos cálculos. Não obstante, basta um ponto sair mal para o tricô ter todo ele que ser desfeito.

Ganhar uma Liga dos Campeões, dado o sacrifício exigido, implica sempre uma motivação superior à dos comuns mortais. Paris Saint-Germain e Arsenal entraram numa discussão sem fim sobre quem teria mais fogo para conquistar o troféu: aqueles que, por já o terem vencido uma vez, se viciaram na sensação ou os que nunca tocaram na taça e, devido a tal fome, ansiavam alcançá-la. Afinal, nasceu primeiro o ovo ou a galinha?

O que se passou em Budapeste também pareceu sempre areia movediça de ideias trocadas sem que se chegasse a uma conclusão proveitosa para aquilo que era suposto decidir-se. A espiral só foi interrompida nas últimas consequências e, no que toca a atribuir o troféu, jogou-se pelo seguro: quem já tinha o título, continuou a tê-lo.

Marquinhos consola Gabriel Magalhães, central do Arsenal que desperdiçou a grande penalidade decisiva
picture alliance

A final da Liga dos Campeões foi também ela um protesto com respetiva contramanifestação. De um lado, os estrategas. Do outro, os impositores de uma ideia solidificada ao longo do tempo. Enquanto o PSG ainda estava a olhar para o que o Arsenal lhe propunha, como alguém a analisar um cubo mágico antes de o resolver, os franceses acabrunharam-se.

Vitinha olhava, pisava a bola e jogava pelo seguro. O portão de dois jogadores que os gunners montavam no corredor central, com Kai Havertz e Martin Ødegaard, só não queria que a bola entrasse no antro da equipa inglesa. Os médios do PSG começaram a sentir-se tentados a recuar em excesso para pegarem na bola, facilitando a tarefa ao Arsenal.

A equipa de Mikel Arteta não deu tempo ao adversário para uma completa adaptação. Atarantada, a defesa parisiense ressentiu-se com a equivocada entrada. Marquinhos aliviou a bola contra Leandro Trossard e o ressalto sobrou para Kai Havertz. Willian Pacho acompanhou-o com o olhar e o Paris Saint-Germain foi surpreendido por um golpe de baixo para cima, de ângulo apertado. O alemão marcou na final da Liga dos Campeões pela segunda vez na carreira. Em 2021, no Porto, a vitória do Chelsea ficou por conta do avançado.

Os londrinos assemelhavam-se aos assistentes de sala que direcionam as pessoas para o lugar onde vão assistir ao espetáculo. O trabalho da primeira linha defensiva facilitava o trabalho da última. Porém, a opção de não defender os primeiros construtores do PSG encafuou o Arsenal junto da própria área, formando um molho inextricável de camisolas vermelhas rudimentares, mas eficazes na resolução dos problemas.

A contumácia defensiva era quantificável. Com meros 26% de posse de bola, Arteta era um descendente de Guardiola a jogar à Simeone. Fazendo máximo proveito dos poucos momentos no meio-campo contrário, num bom envolvimento coletivo, Kai Havertz apareceu a jeito de rematar. Desta vez, Marquinhos foi mais firme no corte.

Kai Havertz marcou pela segunda vez na final da Liga dos Campeões
David Price

É louvável a predisposição de Nuno Mendes para ser impactante em jogos decisivos. Sempre que foi necessário, demos por ele foragido na lateral que usa como autoestrada. Em simultâneo, assim que Bukayo Saka julgava estar um passo à frente, o português recuperava terreno para o anular.

Apesar das dúvidas, Cristhian Mosquera acabou por ser titular no Arsenal. Foi-lhe entregue um desafio exigente. Kvaratskhelia e Nuno Mendes alternavam o posicionamento exterior e perturbavam o lateral-direito. O penso que o georgiano tinha na perna para proteger mazelas anteriores descolou-se. A pungente ferida não significava que estivesse limitado, tal como se viu na combinação com Ousmane Dembélé, através da qual arrancou uma grande penalidade. Substituindo-o Arteta poupou Mosquera à angustiante tarefa. Nessa altura, a conversão certeira de Dembélé já tinha deixado tudo empatado.

O Arsenal, em níveis nulos de relação com Portugal entre os titulares, lançou Viktor Gyökeres, o máximo que podia fazer para rivalizar com João Neves, Vitinha e Nuno Mendes. Com muitos metros para poder correr, o sueco tinha diante de si circunstâncias perfeitas para arcar com as responsabilidades, o que não se proporcionou.

Numa situação de maior risco provocada pela alteração no marcador, o Arsenal deixou escapar Kvaratskhelia, que colocou a bola no poste. O extremo bateu Saliba e só o ferro impediu a reviravolta.

Foi difícil para o Arsenal controlar Kvaratskhelia
Richard Heathcote

As competições internacionais também são um termo de comparação interessante para as diferentes maneiras como se experiencia um jogo de futebol. Os adeptos franceses são dos cânticos e da pirotecnia. As tochas estavam acesas atrás da baliza de David Raya, sinalizando o local onde Vitinha tinha que acertar. O remate de fora da grande área saiu ligeiramente por cima.

A final seguiu para o prolongamento, mas os 90 minutos estiveram perto de acabar de forma dramática. Em nova escapadela em velocidade pela esquerda, Bradley Barcola acertou na malha lateral.

Não havia razão para o jogo esmorecer. Barcola (83’), Gonçalo Ramos (90+6’), Warren Zaïre-Emery (95’), Lucas Beraldo (106’) e Illia Zabarnyi (106’) foram as substituições tardias do Paris Saint-Germain. O Arsenal colocou Gabriel Martinelli (83’), Noni Madueke (83’), Martin Zubimendi (91’) e Eberechi Eze (91’).

A frescura de Madueke quase deixava Nuno Mendes em apuros. A embrulhada que foi criada dentro da grande área levou a protestos por parte do Arsenal. Era o extremo quem tentava acicatar os ânimos, dirigindo-se para a bancada a pedir apoio. Infelizmente, nem todos demonstraram a mesma disposição. Por força das circunstâncias, o PSG desconfigurou-se. Com três centrais, limitou-se a adormecer o encontro, circulando lentamente a bola.

No pequeno interregno que antecedeu as grandes penalidades, David Raya tinha ao redor um massagista para tratar cada perna, o treinador de guarda-redes dos gunners e o seu suplente, Kepa Arrizabalaga. Decorria uma sessão de estudo. O espanhol olhava para o papel atentamente e tentava memorizar as tendências dos jogadores do Paris Saint-Germain.

Raya defendeu a grande penalidade de Nuno Mendes
David Ramos

Só na meninez é que é fácil parar diante da bola e imaginar que aquele é o penálti decisivo da Liga dos Campeões. Na realidade, a pressão é bem maior. Gabriel Magalhães errou quando não podia, num momento que certamente lhe passou pela cabeça em criança e que agora virou pesadelo. Também Eze falhou do lado dos ingleses. Na oposição, só Nuno Mendes, travado pelo bem preparado Raya, vacilou.

O segundo título consecutivo do PSG exigiu mais empenho e em momento algum antes do apito final do árbitro foi uma garantia. A goleada ao Inter (5-0), na época passada, em nada se compara com a angústia pela qual a equipa de Luis Enrique teve que passar esta temporada. É assim que nascem as dinastias: ganhando em qualquer circunstância. Estava-se mesmo a ver que este Paris Saint-Germain não foi feito para vencer apenas uma vez.

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