O cometa Kika Nazareth resolve os pequenos problemas de Portugal contra a Letónia
O festejo de Kika
FPF
Uma grande exibição da jogadora do Barcelona, autora de dois golos fantásticos, abrilhantou o triunfo (5-0) da seleção nacional contra a Letónia. Portugal só marcou no segundo tempo, mas mantém-se totalmente vitoriosa no seu grupo da Liga das Nações
Num certo sentido, Kika Nazareth não pertence a este Portugal-Letónia. É de outro mundo, de outro patamar, de outro nível. Esteve no António Coimbra da Mota, de passagem, como quem visita os pais a meio de um notável trabalho por outras paragens.
Não que Portugal necessitasse de tamanho brilhantismo para derrotar uma Letónia muito inferior, mas o cometa Kika passou pelo Estoril e tornou o que poderia ser um desafio burocrático em algo mais belo. Só na segunda parte surgiram os golos, mas não se pode dizer que, em momento algum, o fantasma de uma enorme surpresa tenha pairado sobre o relvado.
Um triunfo por 4-0, manutenção do registo totalmente vitorioso nesta divisão B da Liga das Nações. Cinco triunfos em cinco encontros, com 16 golos marcados e somente um sofrido. Claro que o grande objetivo está mais distante, reside no Mundial 2027 e numa ida ao Brasil que dê sequência à viagem de 2023 à Nova Zelândia.
Com o fim de tarde em cima do Atlântico a abençoar o jogo, Portugal cedo se apercebeu que o guião seguiria o esperado monólogo. A seleção nacional a atacar, a Letónia, a frágil Letónia, defendendo-se como podia. O precedente do 3-0 em Riga evidenciava as diferenças entre um conjunto que se vai habituando a habitar as fases finais e outro com um pobre registo recente: são agora cinco derrotas seguidas e nove encontros consecutivos sem vencer para as do Báltico.
Kika Nazareth fez magia com uma receção orientada na primeira vez que tocou na bola, brincou com uma adversária com um túnel na segunda, isolou Ana Capeta pouco depois. A criativa do Barcelona jogou segundo o seu estatuto, chamando a si a responsabilidade, fazendo de desbloqueadora da muralha adversária, um passe picado aqui, uma assistência a rasgar ali. Até defensivamente Kika, que vive numa galáxia futebolística distante deste jogo, se destacou, travando várias tímidas tentativas de saídas rápidas das opositoras.
Nesterova, a pouco seguro mas até dado momento estranhamente eficaz guarda-redes da Letónia, travou Capeta na primeira grande chance das locais. Portugal chegou várias vezes a zonas de finalização até ao descanso, mas perdia-se entre escassa pontaria, como quando Carolina Santiago atingiu o poste, ou alguma falta de instinto, como Andreia Faria em dois lances.
Carolina Santiago festeja o 1-0
Andre Sanano/FPF
A Letónia teve momentos quase de apanhados, um conjunto impreparado para o mais alto nível a dar o melhor de si no Estoril. Até lançamentos laterais foram mal executadao pelas esforçadas letãs, que várias vezes se limitavam a tentar afastar o perigo como alguém cheio de boa vontade na cozinha, mas incapaz, sequer, de fazer o mais simples arroz branco, confundindo técnicas e ingredientes. Deu para chegar com 0-0 à segunda parte.
Seria num raro momento de entusiasmo visitante, de equipa subida, que chegaria o 1-0. A bola chegou aos piores pés na ótica letã, com Kika a conduzir um ataque quase em igualdade numérica, servindo Carolina Santiago. A avançada do Sporting, uma das notas de renovação que Francisco Neto vai tentando colocar numa seleção que mantém há muito a mesma base, apontou o quarto golo pela seleção A.
O 1-0 chegou aos 47' e aos 63' já estava 4-0. Primeiro foi Ana Capeta, servido por Nelly Rodrigues, em estreia a titular, a dobrar a vantagem. E depois vieram os tiros de Kika, duas grandes finalizações, uma de pé direito e outra de pé esquerdo. Se Nazareth desde cedo foi craque, aqui foi uma craque decisiva, com impacto brutal no marcador, impondo-se às circunstâncias, ao contexto, ao mundo, a tudo. Sairia pouco depois, aplaudida de pé, sentando-se no banco entre piadas e sorrisos, ao seu estilo.
Para recordar que ainda estamos na era das que revolucionaram a equipa nacional, o 5-0 teve um momento de classe de Dolores Silva, 34 anos, 183.º partida pela seleção. Um livre suave, certeiro, um ponto final quando o fim de tarde no Estoril já era noite. Falta a deslocação à Finlândia para selar o regresso à Liga A e olhar para o Brasil 2027.