O foco não era ganhar ao Chile, mas, num jogo que foram dois, Portugal ganhou na mesma
Bruno Fernandes a apontar para Gonçalo Guedes: foram os dois marcadores dos golos portugueses
JOSE SENA GOULAO
O primeiro jogo de preparação da seleção nacional para o Mundial dividiu-se, na prática, em dois: houve um até Rafael Leão ser expulso, já quase no intervalo, devido a uma zaragata entre jogadores; houve depois outro, num contexto de 10 contra 10, que deu cabo de algumas experiências. Portugal foi buscar a vitória (2-1) contra o Chile, um adversário frágil, na segunda parte em que mudou a forma como defendeu e atacou
Roberto Martínez toma o seu tempo. Eis-nos por isso aqui, no Jamor, com uns amenos 22 graus aquando do primeiro pontapé na bola. A temperatura é prima afastada dos tórridos trinta e muitos de Houston ou de Miami, nos EUA, para onde a seleção só irá a 12 de junho, tomadora do seu tempo à semelhança do selecionador, de quem sorve a “experiência que já” traz “de três Mundiais”. Palavras de Roberto Martínez, apologista da ideia de viajar “o mais tarde possível” para o outro lado do charco.
Enquanto não vão, enche-se o Estádio Nacional de gente, grita o speaker pelo microfone, saem canções dos altifalantes, cobre-se o relvado com o escudo das armas e a esfera armilar, pede-se a Sara Correia que cante o hino nacional. O “foco não é ganhar ao Chile”, é experimentar e afinar, sem desafinanço numa certeza aparecida desde cedo no jogo: a bola fica com Bernardo Silva, cérebro canhoto posto no meio-campo para ditar o início de todas as jogadas de Portugal contra um frágil adversário.
Convidados da festa em início de processo de rejuvenescimento, sem bilhete para o Mundial e já a pensar em 2030, os permeáveis sul-americanos são fatiados ao primeiro canto. Passe curto, mais outros três para a bola chegar a João Cancelo, no lado oposto, que aproveita a ratoeira criada e cruza para as costas dos defesas que saíam da área. A cabeçada de Rúben Dias arrancou uma defesa vigorosa ao guarda-redes de apelido apropriado, Vigouroux. Pouco tardou a Rafael Leão, num segundo mole, noutro a arrancar velozmente após tabelar com um toque de calcanhar de Cristiano Ronaldo, a entrar na área e rematar rasteiro ao poste.
Não estava calor no Jamor, soprava uma brisa, a seleção quase fazia o que queria do permeável Chile, retraído a defender junto à sua área quando a esburacada pressão que timidamente aplicava na saída de bola portuguesa era desmontada ao primeiro passe posto num dos médios. Pela esquerda Portugal ameaçaria de novo, com o lateral Cancelo a sair de lá para jogar como um médio e por lá a equipa encontrou Ronaldo, na área, vidrado em ser ele a finalizar a jogada, sem ver o isolado Francisco Conceição a seu lado. Não testou o passe, a perna esticada de Lawrence Vigouroux parou o seu remate.
A seleção inclinou bastante os seus ataques para Rafael Leão aproveitar situações de um contra um
FILIPE AMORIM
Quando se testou a pausa para hidratação, tal e qual será no Mundial, com 25 minutos feitos e uns insuportáveis 21 graus, os chilenos tinham pouco antes rondado a área portuguesa pela primeira vez. Extraíram um canto dessa aproximaçao. Portugal roubava bolas a preceito pouco após as perder, perto da outra baliza, a pressão imediata funcionava, também a intenção de atrair o adversário em zonas mais à direita para depois acelerar um passe em Rafael Leão, provocando à esquerda um momento de um contra um habitual no jogo da seleção com Martínez.
O único proveito da insistência em forçar situações vantajosas para o 17 era, até então, o remate que fez ricochete no poste. Nas outras quatro ultrapassagens ao infeliz Felipe Faúndez, bucha fácil para o lanche de Leão, defesa sem reação pronta, nem velocidade de ponta ou ajuda perto de outro chileno, houve cruzamentos de mira torta do atacante que joga a sorrir. Retirado o adversário da equação, a bola de Leão não era eficaz. O jogo também podia ser um teste à diversificação.
E pouca havia. O esforçado Samu Costa, incansável a correr, teve uma ou outra desmarcação área dentro, no espaço entre central e lateral, quando a seleção mastigava a bola num lado no toca-e-vai entre vários jogadores. ‘Chico’ Conceição não merecia, à direita, um terço da inclinação com que os ataques de Portugal pendiam para a esquerda. Pelo centro a míngua acentuava-se, Portugal não furava o bloco chileno, mantendo Bruno Fernandes à margem das jogadas.
No par de vezes em que o encontrou, o médio do Manchester United lançou uma correria de Cristiano nas costas dos defesas, desaguada em golo mas cancelada por fora-de-jogo; e, iminente um remate seu, provocou a falta transformada em livre com a baliza bem a jeito. Deu em mais uma tentativa de Ronaldo contra a barreira, tradicional como a sua camisola de manga comprida, faça calor ou frio. A seleção murchara desde a pausa para beber água, decaíndo até à zaragata entre Cancelo e um adversário à qual Rafael Leão acorreu, furibundo.
No molho de empurrões e safanões, os que trocou com Iván Román valeram a expulsão a ambos.
Cristiano Ronaldo, que jogou de manga comprida, a aproveitar a pausa para hidratação no Estádio Nacional
JOSE SENA GOULAO
A segunda parte foi outro jogo, era inevitável.
Haver menos dois jogadores em campo abriu mais espaços e o Chile, por fim, conseguiu jogar um pouco enquanto Portugal, sem o seu foco de todos os ataques, demorou a assentar nos apalpões ao terreno em que se demorou após as cinco substituições de Martínez ao intervalo. Cancelo rumou à direita da defesa para Dalot ser o lateral esquerdo, com Gonçalo Inácio perto, Rúben Neves fez o meio-campo com Bruno, a bombordo do ataque ficou Pedro Neto e para avançado entrou Gonçalo Guedes.
No ritmo vagaroso, tornado o relvado do Jamor em pastagem tal a lentidão dos corpos a mexerem-se, seria o ponta de lança improvisado a pôr de pé quem estava nas bancadas. Dentro da passividade do bloco chileno, Rúben Neves viu Guedes num buraco entre defesas, deu um passe tenso e atacante desviou a bola com a ponta da chuteira para um golo (58’) simples, prático, e sobretudo necessário.
Porque assim o jogo espevitou e um teste que, na lentidão, testava pouco no meio de uma raridade - quantas vezes, no Mundial, haverá de estar a seleção a jogar com 10 contra 10? - encontrou aceleração na urgência do Chile. Posto a perder, foi pressionar a saída de bola de Portugal, chateá-lo junto à área, mordiscar os calcanhares dos centrais e dos médios. Esticando a sua pressão, os espaços engordaram, mostrando à seleção por onde e como atacar.
Ao defender com o seu bloco mais recuado no campo, a seleção nacional optou por mais vertigem e menos passes, usando as gazelas frescas que tinha. Pedro Neto cavalgou sozinho por metade do campo, levando no pé um contra-ataque que o próprio finalizou, ao pedir a Conceição que lhe devolvesse uma tabela. Noutro contra-ataque rápido, Dalot foi libertado para correr e lançar o mesmo Neto, na área. O Chile era avisado por repelões, já não por jogadas tão longas, Portugal preferia a ataques que durassem poucos segundos.
Gonçalo Guedes a festejar o golo que marcou ao Chile na segunda parte do jogo de preparação para o Mundial
FILIPE AMORIM
Deste modo aproveitava a catapulta lançadora de ataques que mora no pé de Bruno Fernandes, sem expor a sua fragilidade a defender numa dupla de meio-campo, poupando energia ao capitão com braçadeira desde o intervalo - ainda sem o quarteto do Paris Saint-Germain, não havia mais médios no banco da seleção. Calhou bem: numa tentativa de saída rápida chilena, Bruno descortinou a léguas a intenção de Gabriel Suazo, colheu o passe, lançou Guedes na área, a jogada reciclou-se de volta a si e o seu fulminante remate (75’) aninhou-se dentro da baliza.
Valeu como cume da exibição em rame-rame de Portugal desde a expulsão de Rafael Leão. Houve contexto para juntar a equipa, defender em bloco mais baixo e testar as saídas rápidas, provado ficou que ter Pedro Neto nas trasições colherá frutos. Mas, na segunda como na primeira parte, faltou rasgo a Portugal com a bola e sobrou passividade sem ela quando era batida a sua primeira pressão. O golo do Chile, já nos descontos, ao ser-lhe permitido trocar passes à beira da área antes de Lucas Cepeda rematar, evidenciou uma certa letargia portuguesa.
Foi a nota mais desanimadora, a dar companhia a interrogações coletivas que ficam, à maior a escassa produção de desequilíbrios pelo centro do campo ou a dependência mostrada em inclinar os ataques para isolar Rafael Leão na esquerda - valerá a insistência perante o que ele dá em troca? E, na lupa individual, Cancelo funcionou à esquerda, como lateral que ataca por dentro, mascarando-se de médio, o mesmo não calhando a Diogo Dalot, experimentado nesse papel com as aptidões que tem e não assentam bem na função, e mais: sem Vitinha, ser Bernardo o volante das jogadas, desde o início, será para manter?
Mas isto são dúvidas de 19 graus e fria aragem, quando as bancadas já se despiam com a noite a fechar a persiana sobre o Jamor onde ganhar não era o foco, que é como quem diz a prioridade, mas Portugal ganhou na mesma. A 10 de junho haverá outro teste, contra a Nigéria, o último para se limar as arestas da seleção. Será em Leiria, porque a seleção prefere ter tempo por cá antes de rumar aos EUA.