Crónicas de jogos

O último ensaio de Portugal antes do Campeonato do Mundo foi uma sessão de 'jogging' com a Nigéria para passar o tempo

O selecionador fez nove substituições ao intervalo e Francisco Conceição entrou na segunda parte
O selecionador fez nove substituições ao intervalo e Francisco Conceição entrou na segunda parte
Carlos Rodrigues

Depois do Portugal-Nigéria (2-1), sabe-se o mesmo de antes. Num ambiente pouco competitivo, a seleção não esteve perto de mostrar a versão exigida no Mundial. Roberto Martínez foi distribuindo minutos sem grande preocupação com um resultado marcado pelo laivo de irreverência de Francisco Conceição. Quanto ao que se pode esperar na estreia frente à República Democrática do Congo, vai ser preciso esperar para ver

A seleção reúne-se com intervalos de meses. Nem sempre os jogos se realizam em território nacional. Quando isso acontece, o estádio que recebe as partidas varia, alheando alguns do acesso aos encontros. Desta vez, Portugal foi até Leiria, cidade onde a caravana nem sempre para, oferecendo a muitas pessoas a oportunidade rara de assistirem ao vivo à partida. Nem por isso a circunstância responsabilizou imenso os jogadores.

Quem quiser ver avançados a fazer carrinhos aos centrais em amigáveis que vá apoiar a Argentina. Contra a Nigéria, Portugal procurou evitar grandes embates que causassem alguma amolgadela enquanto praticava jogging com uma bola. Tão perto de um Mundial, para azar de muitos, nunca é de se esperar um grande show num jogo que vale o mesmo que um saco de vento.

No ensaio geral, houve um Portugal a duas velocidades. Para atacar, como é um processo que enche o ego, existiu predisposição. Obviamente, defender implica sujar um pouco mais os equipamentos novinhos e não é tão atrativo. A falta de brio provocou várias situações embaraçosas de vantagem numérica para a equipa africana. Um penso rápido de talento superior lá deixou a equipa seguir em frente com a moral em alta (2-1).

Trincão, um dos jogadores com algo a provar na seleção, deu boa conta de si
PAULO CUNHA

Roberto Martínez também colaborou pouco com a apresentação de um onze inicial que não deixasse nada por dar ao espetáculo ou até que permitisse desfazer dúvidas para a estreia no Mundial 2026, contra a República Democrática do Congo. Ainda assim, Nélson Semedo, Rúben Dias, Bruno Fernandes e Cristiano Ronaldo repetiram a titularidade do jogo contra o Chile. Os únicos que não jogaram foram os três guarda-redes suplentes e Gonçalo Guedes.

Diga-se que a seleção até teve momentos relevantes de saída a partir de trás – Vitinha desbloqueia qualquer aperto – antes de lançar os laterais, Nélson Semedo e Diogo Dalot, no muito espaço ao dispor. Isto porque a Nigéria resolveu pressionar alto. Ora, o sucesso perante este cenário é enganador, pois todo o Mundial deve saber que Portugal tem dificuldades a jogar contra blocos baixos e, por isso, ninguém deve ter preparada uma estratégia semelhante à de Éric Chelle.

Num estilo de toque-e-foge, sem grande afinco, Portugal acionou Nélson Semedo. Tem sido difícil para Cristiano Ronaldo encontrar o timing de desmarcação. Neste caso, servido pelo lateral, correu bem a movimentação entre o segundo central e o lateral. O remate ao lado é que podia ter sido menos caricato. O capitão teve algumas dessas abordagens desconchavadas, o que não convém muito na medida em que tem bolas paradas desenhadas só para si.

Francisco Trincão é um dos elementos com algo a provar e teve um admirável momento de personalidade ao lançar Diogo Dalot, que ganhou de novo o corredor. Aguardando, surgiu uma linha de passe para Pedro Neto rematar para o golo.

A nula firmeza defensiva condenou os centrais a uma exposição aproveitada pela Nigéria. Gonçalo Inácio virou folha de papel durante os confrontos físicos com Akor Adams. O avançado do Sevilha desperdiçou à primeira, mas corrigiu a finalização na segunda chance que teve. A partir de um pontapé de baliza, os nigerianos superiorizaram-se à marcação homem a homem feita pela seleção nacional.

Cristiano Ronaldo foi facilmente abafado pelos defesas da Nigéria
PAULO CUNHA

Roberto Martínez deve ter olhado para a folha de Excel antes de fazer substituições com base nos minutos já realizados por cada jogador desde o início do estágio. João Félix, um dos nove que entraram, agitou a situação com um remate à barra. O ressalto ficou junto à linha de bola.

No meio deste sossego, Francisco Conceição teve um laivo de proatividade. Encarou Zaidu e desenvencilhou-se do lateral do FC Porto. Trazendo a bola para a zona interior, finalizou com sucesso.

Apesar de não se ter aprendido nada, surgiu um motivo para preocupação. Nuno Mendes entrou no início da segunda parte e saiu aos 79 minutos. Não pareceu propriamente que Roberto Martínez tenha feito um favor a Matheus Nunes. Uma lesão nesta fase vinha muito pouco a calhar.

Portugal foi sacudindo as pernas. Não se ficou a saber grande coisa sobre o figurino que vai ser usado no Mundial e o encontro não serviu para os jogadores se adaptarem ao contexto norte-americano. O único verdadeiro teste foi à bola, essa sim, igual à que vai ser usada no torneio.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: fsmartins@expresso.impresa.pt