O sabor amargo do primeiro ponto da história do Canadá em Mundiais
A Bósnia marcou primeiro, o Canadá empatou depois
Anadolu
Pela primeira vez, os canadianos não perderam um jogo no maior torneio do planeta. Mas o duro, agressivo e bem disputado 1-1 contra a Bósnia não terá deixado ninguém plenamente satisfeito: os co-anfitriões falharam várias ocasiões para o triunfo, os europeus desperdiçaram a vantagem que transportaram até aos 78'
Um encontro com aroma a campeonato do mundo é isto. Seleções de geografias completamente diferentes, que de outra forma não se cruzariam, medindo forças num desafio tenso, com a sensação de que há muito em jogo, renhido, lutando por cada palmo de terreno. O nível pode não ser estratosférico, não sairá daqui o conjunto sucessor da Argentina no trono do futebol, mas boa parte dos ingredientes — os nervos, a emoção, os adeptos, o colorido, um certo exotismo — estavam lá.
No final, Cyle Larin deu um passo em frente para ser herói canadiano. Ele até andava divorciado do golo pela equipa nacional, mas saltou do banco aos 76', fez o empate aos 78', quase firmou a reviravolta. Os precendentes históricos do formação da América do Norte em Mundiais mostravam seis jogos disputados, seis derrotas somadas. O primeiro ponto não é um mau começo, segue-se um compromisso com o Catar que, em caso de triunfo, pode valer passagem de ronda, mas os co-anfitriões levam um sabor algo amargo desta tarde. A primeira vitória chegou a parecer estar ali, pronta a ser agarrada.
No Catar, no passado Mundial, o Canadá foi a seleção divertida, que perdeu fazendo os outros desfrutar. Atacando, descomplexada, mas permissiva, pouco sólida. Pecados semelhantes aconteceram nesta estreia, permitindo que a Bósnia se adiantasse e não aproveitando o ascendente na contenda. Precisam de muita produção para obter relativamente pouco, os energéticos de Marsch.
Havia quem se referisse a esta ocasião como um dos grandes dias da história do desporto canadiano, o que, para um país que já acolheu Jogos Olímpicos de verão e de inverno, é colocar a fasquia bastante alta. Este grupo de jogadores concentra grandes expetativas, a longa preparação até esta estreia foi intensificando a ambição, há a real noção de que um grande Mundial poderia alavancar o futebol no país.
Larin festeja o 1-1
Charlotte Wilson
Larin festeja o 1-1
Charlotte Wilson
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Toronto vestiu-se de vermelho para a ocasião. Apesar de 17 mil lugares terem sido provisoriamente adicionados ao primeiro estádio especialmente construído no Canadá para o futebol, este continua a ser o menor recinto do Mundial, aqui feito de enormes massas de gente com as cores da casa, interrompidas por pequenas, mas ferverosas, manchas de bósnios.
Alphonso Davies, o mais famoso dos futebolistas canadianos e único homem do país que sabe o que é marcar no. grande palco planetário, foi baixa de peso por lesão. Na Bósnia, o quarentão Dzeko, a grande estrela do país, não saiu do banco. Stephen Eustáquio assumiu a braçadeira de capitão nos co-anfitriões, símbolo do que Jesse Marsch, o técnico made in Red Bull desta seleção, descreveu como um conjunto “fortalecido pelas diferenças e diversidade cultural”, com filhos de imigração portuguesa, francesa, jamaicana, colombiana, etíope ou escocesa.
Durante boa parte da tarde de sol em Ontario, o Canadá foi tentando tocar a mesma música. Velocidade, força, jogo pelos corredores, pouca pausa, muita insistência, como se quissesse marcar derrubando um muro. Foi faltando precisão, como se viu com as más finalizações de Jonathan David, aos 16', e de Tani Oluwaseyi, já com os locais em desvantagem.
A Bósnia tentou uma estratégia anti-climática. Arrefecer ânimos, gerir ritmos, esperar por ter a melhor mão, ou não fosse Sergej Barbarez, o treinador com zero jogos de experiências antes de assumir a Bósnia, um homem com passado no póquer profissional, vida que abraçou depois de pendurar as botas.
Ezra Shaw - FIFA
Ezra Shaw - FIFA
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Fiel ao futebol de 2026, foi a bola parada a desbloquear. Os bósnios bateram um canto da direita, viajando a bola para a área, onde beneficiaram da passividade canadiana, ali empenhada em mostrar todas os seus defeitos, uma seleção macia, ingénua, quase dando vontade de escrever que são demasiado boas pessoas para competir. Kolasinac, que de macio e ingénuo tem nada, ganhou ao primeiro poste, Jovo Lukic impôs-se depois para empurrar para o 1-0.
Os visitantes cedo se agarraram à vantagem, esforçando-se para levar três pontos que significariam uma enorme percentagem de uma eventual passagem aos 16 avos de final. Até à conclusão do desafio, só uma vez, num lance em que Demirovic quase se isolou perante Crépeau, esteve a Bósnia próxima do 2-0. Acabariam a pagar a timidez.
O Canadá, com o decorrer do segundo tempo, foi intensificando a pressão. Com o dinamismo de Eustáquio comandando o meio-campo, Laryea isolou-se, mas Vasilj defendeu, Kolasinac enviou a bola para a própria barra e o marcador manteve-se. O talento que alguns futebolistas dos europeus possuem foi-se vendo cada vez menos, com a Bósnia a parecer encolher-se no relvado à medida que a sombra ia comendo porções cada vez maiores do relvado.
Jesse Marsch foi mexendo o banco. Ali Ahmed deu algum critério na posse, deixando o Canadá de se limitar a atacar pela força e insistência. Jacob Shaffelburg cruzou para Tani Oluwaseyi, o símbolo da falta de eficácia dos de vermelho, ver Katic roubar-lhe o golo. Seria outro suplente a dar a clarividência que faltava.
Aos 78', Larin fez o que os seus colegas não estavam a conseguir. Recebeu e, com esse mesmo toque, rodou, um gesto de classe e sentido de baliza. O remate foi desviado, a fortuna acompanhou-o, 1-1. Os minutos que restaram foram de muita luta e um último lance canadiano para o 2-1, com Larin a ser negado pela barreira dos duros bósnios, quase sempre logrando meter mais um corpo no caminho da bola. O grupo B, onde também moram Suíça e Catar, arranca com o aguardado tom de equilíbrio. O Canadá já sabe o que é não perder, falta ganhar.