Cabo Verde travou a Espanha num dia de tolerância de ponto que vai virar feriado
Oyarzabal desperdiçou a última grande oportunidade do encontro
Patrick Smith - FIFA
Para ter a verdadeira sensação do que é participar num Mundial, Cabo Verde estreou-se contra a Espanha. Os campeões da Europa subvalorizaram os estreantes e só perto do final lançaram alguns dos principais protagonistas. Com solidariedade, os Tubarões Azuis protegeram a baliza ao máximo. Não marcaram o primeiro golo, mas levaram o primeiro ponto de sempre (0-0)
O governo de Cabo Verde foi compreensivo. A partir das 13h locais, toda a gente abandonou o trabalho. Assim ficou estabelecido no documento que confirmou a tolerância de ponto no país. Com a estreia da seleção no Mundial, a produtividade ia ser baixa de qualquer das formas. Assim, houve um refúgio legal que permitiu ver o jogo sem reprimendas dos patrões.
A medida abrangeu apenas os cerca de 550.000 cabo-verdianos que vivem no país. Depois, existem os restantes 1,5 milhões espalhados pelo mundo, 11.111 dos quais em Portugal e 3.196 nos Estados Unidos, que não usufruíram da dispensa.
Cabo Verde é um país disforme. O território está estilhaçado em dez ilhas e as suas gentes encontram-se dispersas, motivo que ajuda à promoção da festa. É a vivacidade da celebração que impede a vulgarização de um feito como a presença num Mundial, fenómeno que assola nações que lá vão com frequência.
“A qualificação para o Mundial é mais do que desportiva, é cultural, é musical, é tudo. Queremos mostrar o nosso país ao mundo.” O patriotismo saudável de Bubista, o selecionador, dançou-se em todas as rodas, pintou-se em todas as caras, vestiu-se em todas as camisolas. “Não podemos deixar que nenhum outro povo festeje o campeonato do mundo mais do que nós.” A missão foi mais do que cumprida. Depois do empate contra a Espanha (0-0), Cabo Verde publicitou-se melhor do que nunca.
Obrigado, cara Espanha. Agradecemos a paciência que demonstrou enquanto falávamos da 67ª melhor seleção do mundo.
Por si só, o estatuto foi pouco útil à equipa de Luis de la Fuente. Tudo aquilo que fez de La Roja campeã da Europa ficou no baú, desde logo, os extremos vertiginosos. Lamine Yamal só se estreou em Mundiais, com surreais 18 anos, aos 71’. Nico Williams entrou a três minutos dos 90’. A Espanha subestimou Cabo Verde e o pouco uso da sua melhor versão assim o prova.
Se fosse perguntado a uma sala cheia de pessoas se já tinham visto Jovane Cabral a fazer um carrinho junto da própria linha de fundo, como aquele que lançou sobre Marcos Llorente, todos ignorariam. Foi este tipo de abnegação que se tornou viral entre os Tubarões Azuis e que dificultou o acesso à baliza de Vozinha.
Nem toda a seleção espanhola acompanhou a paciência de Pedri
NurPhoto
A consciência defensiva não bloqueou a ilusão. Tanta foi a liberdade de pensamento que Dailon Livramento tentou um golo do meio-campo. Em modo mais sério, Sidny Cabral mostrou ser dos mais rápidos a transitar, empurrando Jovane para a zona central. O jogador formado no Sporting arriscou a felicidade num movimento diagonal que finalizou rematando por cima.
Perante tão poucas brechas, a Espanha abusou da única que encontrou. Marc Cucurella passou a surgir com frequência nas costas da linha defensiva e foi de lá que assistiu Ferran Torres para um remate à barra.
No início do Mundial 2026, existiam sete quarentões listados para a competição, quatro deles guarda-redes. O mais novo da brigada é Vozinha. A baliza do GD Chaves pertenceu-lhe nas últimas duas épocas. O fenecer da carreira proporcionou-lhe um momento de protagonismo máximo. Alguém que apenas tenha acesso a este jogo talvez lhe ofereça um contrato para uma das melhores ligas.
Vozinha estava em condições de se apresentar como um felino a quem, ao ver a sua majestosa exibição, o quisesse conhecer. Os jogadores de La Roja vergaram-se perante o monumento da II Liga. Uma das muitas defesas que pode juntar ao portfólio que vai montar com o jogo da sua vida foi a que fez perante Aymeric Laporte, a cabecear num pontapé de canto.
Seguro entre os postes, Vozinha deu um contributo relevante para a manutenção do nulo
Soccrates Images
A Espanha perdeu a paciência e começou a disparar remates. Fabián Ruiz, em particular, procurou abreviar a partir da entrada da grande área. Pedri resistiu mais à perda de compostura. Cabo Verde remeteu-se à fase defensiva – superava-se Diney – e demorava nas reposições, forçando o árbitro a fazer a contagem dos segundos restantes para se efetuar o lançamento sem penalização.
Quando os Tubarões Azuis já não tinham força, a Espanha compôs a frente de ataque com Lamine Yamal, Nico Williams e Dani Olmo. Nos momentos em que não houve energia, houve coração. Pico Lopes, recrutado para a seleção através do LinkedIn, atravessou-se à frente de Oyarzabal e garantiu o empate.
Para lá dos 90’, Cabo Verde fez o único remate enquadrado com a baliza. Num raro canto, o tempo parou durante a impulsão de Kevin Pina. Unai Simón evitou alguns ataques cardíacos. O primeiro golo fica para uma próxima ocasião – talvez contra o Uruguai ou a Arábia Saudita –, mas o primeiro ponto de sempre não foge.