Se a 1ª parte gritou problemas, a 2ª berrou potência: frente ao Senegal, França apresentou o seu programa de candidatura ao título mundial
A ligação Olise-Mbappé valeu uma 2ª parte de luxo para França
Ian MacNicol
Depois de uns primeiros minutos em que as preciosas peças que tem no ataque não encaixaram, França encontrou-se após o intervalo, quando Olise se tornou mais vagabundo entre linhas. Vitória clara dos gauleses por 3-1 frente ao Senegal - que foi melhor na 1ª parte -, num jogo em que Mbappé bisou e já só está a dois golos de Miroslav Klose na lista de melhores marcadores em Mundiais
Ainda está bem fresco na minha memória. O jogo na televisão do Clube de Francês da minha escola, o primeiro daquele Mundial de 2002, e uma surpresa de proporções épicas, pelo que significou e significaria dias depois: a França, a campeã mundial e europeia em título, arrastando-se, esgotada física e geracionalmente, tombada por uma seleção que se estreava em Campeonatos do Mundo. El Hadji Diouf apresentando-se rebeldemente ao planeta, como rebeldemente viveria uma carreira que nunca foi o que aquela noite em Seul prometeu. A França dando um primeiro para uma saída apressada do primeiro Mundial disputado no Extremo Oriente.
Por momentos, aquele França-Senegal, aquela derrota espantosa, porque sísmica, o primeiro vexame inexplicável a entrar no meu museu das memórias de Mundiais, pairou em East Rutherford, com os arranha-céus de Nova Iorque lá ao longe.
Acontece que a França de 2026 não é a equipa exausta de tanto ganhar de 2002. É uma equipa esfomeada e que pode juntar Dembélé, Olise, Doué e Mbappé na frente, mesmo que nem sempre tanto talento encontre a sintonia. Ou ela demore a aparecer. Na 1ª parte da reedição do traumático encontro de 2002 (para a França, histórico para o Senegal), esteve na imensa confusão de papeis - porque todos parecem ter qualidade para fazer tudo - um dos problemas de França, que saiu por baixo para o intervalo, face a um adversário que juntou a coesão defensiva aos processos simples a lançar o ataque.
Tudo mudaria a seguir ao intervalo e face a 2002 só existiu uma semelhança: a presença de um El Hadji Diouf no onze do Senegal.
Nicolas Jackson teve nos pés alguns dos lances mais perigosos da 1ª parte
Al Bello
Mas até lá houve uma França lenta, com o meio-campo desligado e uma frente de ataque sem sintonia, com gente a jogar talvez em pontos equivocados. E um Senegal que, na 1ª parte, esteve sempre mais perto do golo. Primeiro por Nicolas Jackson, após bola perdida por Mbappé que foi rapidamente lançada para o avançado do Bayern Munique, que a enviou à barra. Já perto do intervalo, El Hadji Diouf, o lateral do West Ham e não o retirado ex-Liverpool, combinou com Mané para desguarnecer as costas de Koundé e encontrar Sarr na área. O remate saiu enrolado e por cima. Era uma oportunidade que não podia ser perdida.
Para os segundos 45 minutos, Didier Deschamps não mudou homens, mas mudou posicionamentos. Dembélé, antes encafuado entre a linha defensiva, recuou, Olise saiu da ala para se tornar mais vagabundo, para encontrar mais espaços entre linhas, Mbappé tornou-se no avançado centro. Com o jogador do Real Madrid livre desses trabalhos, a pressão francesa afinou-se.
Os resultados foram quase imediatos. Olise apareceu finalmente no jogo, com pausa e aceleração, a ligar o que antes parecia descarnado. Mendy ainda salvou o Senegal, primeiro com a coxa, depois com a canela, com manchas perfeitas primeiro a Olise, depois a Mbappé, ambos na meia-esquerda do ataque.
Michael Olise foi, na 2ª parte, a ligação que faltou a França no início do jogo
MB Media
Um passe mágico de Olise aos 64’, a rasgar, daria o mote para as geometrias que o ataque gaulês se preparava para começar a desenhar. Aí, Mbappé não conseguiu dominar, mas não demoraria a marcar. Dois minutos depois, novo passe de Olise, numa diagonal agora a partir da direita, encontrou a fuga de Mbappé na área a Koulibaly e um toque desviou a bola de Mendy.
De uma só vez, Mbappé igualava os 57 golos de Olivier Giroud, máximo da seleção francesa, os 13 de Just Fontaine, máximo goleador gaulês em Mundiais e igualava Lionel Messi como melhores marcadores no ativo em Mundiais.
O golo confirmava um certo amainamento da força do Senegal, ainda que os Leões de Teranga tivessem empatado logo de seguida, mas com Nicolas Jackson adiantado. Pape Thiaw demorava a mexer numa equipa a desmoralizar e fez as primeiras trocas a apenas 15 minutos do fim, demasiado tarde.
Deschamps deixava também correr a recém-adquirida harmonia entre os seus homens da frente, abdicando de Dembélé, o mais apagado dos da frente, logo de seguida. Barcola, que o rendeu, marcaria dois minutos depois de entrar, a surgir com espaço para recolher um passe de rutura de Rabiot (muito melhor na 2ª parte), em campo aberto, com uma diagonal espantosa do jogador do Paris Saint-Germain, que depois picou a bola com classe por cima de Mendy.
Barcola entrou e quase de imediato fez o segundo golo de França
Jam Media
Já com o jogo na mão, França permitiu um golo ao Senegal, num final doido, num lance individual de Mbaye, que sentou Theo Hernandez antes de alvejar com toda a força disponível a baliza de Maignan, que não saiu bem do lance. Estávamos já bem dentro dos descontos, mas ainda com tempo para uma mudança de guião, não fosse Mbappé não estar para grandes tremeliques. Olise, mais uma vez Olise, ganhou o lance a dois adversários e deu no espaço para o jogador do Real Madrid rematar certeiro à entrada da área.
E de uma só vez, Mbappé ultrapassava os 57 golos de Olivier Giroud, máximo da seleção francesa, ultrapassava os 13 de Just Fontaine, máximo goleador gaulês em Mundiais e ultrapassava Lionel Messi como melhor marcador no ativo em Mundiais. Fica a meros dois golos dos 16 de Miroslav Klose.
Se a 1ª parte de França gritou problemas, a 2ª berrou qualidade, gestão de tempos, capacidade ofensiva. Carburando junta e não como vários solitas a tocar cada um para seu lado na orquestra, será difícil bater esta França. A candidatura está mais do que lançada.