O céu e a terra estão ligados por uma ponte chamada Lionel Messi
Messi chegou aos 18 golos em Mundiais contra a Áustria
Chris Brunskill/Fantasista
Passaram-se 40 anos desde que Maradona marcou com a mão. Lionel Messi, que se divide entre o Olimpo ao qual já pertence e a vida terrena, celebrou a efeméride com um bis contra a Áustria (2-0). O pequeno génio ultrapassou Miroslav Klose e tornou-se no melhor marcador de sempre em Mundiais (18 golos). Prestes a celebrar 39 anos, os defesas ainda entram em pânico quando o veem e não há dúvidas de que na Argentina, qualificada para a fase eliminar, é a figura principal
Até 1986, Deus foi, na prática, uma figura platónica, espiritual, etérea. Impressionante que uma nuvem disforme, mesmo sem características físicas, não perca credibilidade junto dos crentes. A partir desse ano, ganhou um argumento para convencer os céticos menos exploradores do território transcendente. Foi la mano de Maradona, o sinal corpóreo da presença do todo-poderoso entre nós.
El diez bisou contra a Inglaterra, no Estádio Azteca, há exatamente 40 anos. Uma memorável exibição encomendada pelo criador com um toque da sua influência para que aquele golo ilegal passasse despercebido. Um indivíduo mais emotivo podia antecipar que algo grandioso acontecesse quatro décadas depois. Essa pessoa não é supersticiosa, é apenas um argentino.
Considerando a parcialidade na concessão de milagres, Deus só pode ser albiceleste. Sobre Lionel Messi recaem benefícios religiosos de que mais ninguém usufrui, recompensa por tão bem fazer a ponte entre a terra e o céu, onde estará Maradona a fazer-lhe uma vénia.
Leo já mora na eternidade há muito. Agora, simplesmente vai decorando as paredes à sua maneira com recordações da passagem pelo mundo dos mortais. Se quiser mandar fazer uma moldura que assinale o estatuto de melhor marcador em Mundiais, está à vontade. É seu.
Tudo começou com um momento de humanização. A Áustria foi colocada sob pressão desde início. Não restavam grandes dúvidas de que Lautaro Martínez tinha sofrido penálti, restava saber quem o tinha cometido. Xaver Schlager e Stefan Posch dividiram as culpas expostas pelo escrutínio do VAR. O árbitro desatou na perorata a que os membros da classe estão obrigados sempre que espreitam um lance no ecrã. O parlapié foi o habitual, mas na cabeça dos adeptos argentinos o anúncio foi diferente.
Após revisão, Lionel Messi pode, de grande penalidade, tornar-se no melhor marcador de sempre em Mundiais.
O estádio rugiu e o sistema nervoso do camisola dez também parecia uma centrifugadora. Messi foi complacente e rematou devagar para o lado. A pulga ficou abatida. Não é emocionalmente frágil, é sentir tudo a dobrar (outra característica da sua nacionalidade).
Messi falhou um penálti que o podia ter ajudado a marcar um hat-trick pelo segundo jogo seguido
Chris Brunskill/Fantasista
Não é que tenha desmesuradamente e sem nexo começado a tentar remediar o erro, mas o universo continuava a colocar-lhe oportunidades nos pés. Kevin Danso chegou a parecer preferir marcar na própria baliza do que deixar a bola correr para o oito vezes Bola de Ouro. O defesa esteve à beira de um autogolo, evitado pelo desafiador guarda-redes, Alexander Schlager.
A Áustria estava a fazer uma exibição composta. A seleção argentina não se conseguia livrar do atrito causado pelos cruzamentos feitos nos bicos da grande área. Marcel Sabitzer ia sendo oportuno nas aproximações. De qualquer modo, a albiceleste impunha-se, massacrando Michael Gregoritsch.
A vantagem de trabalhar em equipa é a clareza com que cada jogador cumpre o papel que lhe é atribuído. Quando se soltavam, os argentinos ocupavam todas as vias de aceleração do campo e, em poucos toques, estavam a rematar com espontaneidade.
A Argentina continuou à procura do golo e a glória continuou à procura de Messi. Facundo Medina cruzou atrasado, Thiago Almada deixou passar a bola entre as pernas percebendo que vinha lá um pequeno génio que ajeitaria para o fundo da baliza. 17 golos em Mundiais, mais um do que o alemão Miroslav Klose.
Messi, uma ponte entre a terra e o céu
Elizabeth Kreutz/ISI Photos
Num jogo em que uma das seleções é sul-americana, a Áustria conseguiu ser a mais viril. Stefan Posch, a usar uma proteção a pender para a máscara do vilão Bane, ajudou à proeza. A equipa de Ralf Rangnick não demonstrou particular fineza na zona ofensiva. Foi de livre que Marcel Sabitzer tentou contornar as dificuldades sem sucesso devido à defesa de Emiliano Martínez.
Nico González acentuou as hipóteses da Argentina alargar a vantagem. De canto, fez um desvio passar pouco ao lado da baliza e, em transição, teve também a chance de espalhar um efeito tranquilizante.
O jogador prestes a fazer 39 anos quis equiparar a exibição ao recorde alcançado e entrou naquele modo em que ninguém o desarma nem por nada, revelando uma fonte confiável de rendimento, apesar da veterania. Mesmo nesta idade, as defesas continuam a entrar em pânico quando por ele são abordadas.
Entre Messi e a baliza existiam cinco austríacos. Diante da anarquia, acrescentou uma gota de elegância e bisou perante as ruínas da linha defensiva. A Argentina até já assegurou a passagem à fase a eliminar, mas aquilo de que todos se vão lembrar é do dia em que um colosso chegou aos 18 golos em Mundiais.