O Sporting está às apalpadelas em busca do autoconhecimento. Frente ao Estrasburgo, deu mais um passo nesse caminho
Doumbia começou à esquerda do ataque e acabou no meio-campo
Gualter Fatia
Os reforços do Sporting foram protagonistas na goleada frente ao Estrasburgo (7-0). Enquanto as caras novas se dão a conhecer aos adeptos, Rui Borges também fica a saber um pouco melhor com o que pode contar, sobretudo vindo daqueles que ocupam várias posições. O processo parece seguir no caminho certo e, sobretudo, os leões cheiram a fresco
Vinha sendo um desígnio do Sporting dosear a saída das principais figuras. Apesar da política que elevou o patamar - nacional e internacionalmente - nos últimos tempos, no mesmo mercado, os leões perderam Morten Hjulmand, Francisco Trincão e também Pedro Gonçalves pode rumar a outras paragens.
Rui Borges tem muita gente para conhecer e conexões para testar. Ocasiões para o fazer não têm faltado, visto que antes de vencer o Estrasburgo por 7-0 já tinha batido o Portimonense por 1-0, durante a manhã. O amigável disputado à vista de todos e que terminou em goleada expôs alguns enquadramentos que não resultaram e outros que são para continuar a investir.
Ao intervalo, o Sporting já vencia por 2-0 com golos dos reforços Issa Doumbia e Sergi Altimira. Hugo Oliveira, o treinador português que orienta o Estrasburgo, fez dez alterações para a segunda parte e foi aí que os franceses se vergaram. Silas Andersen e Rodrigo Zalazar foram caras novas que também contribuíram. Maxi Araújo, Geny Catamo e Fotis Ioannidis compuseram ainda mais o marcador.
Com jogadores multifacetados, o Sporting está às apalpadelas para tentar perceber qual a maneira de os encaixar sem prejudicar a equipa nem as individualidades. Mais do que o resultado, que pouco ou nada indicia, fica sobretudo o cheiro a fresco.
😍 Convence-me se puderes
As saídas deixaram lacunas em várias posições. A de Pedro Gonçalves, que nunca foi exatamente um extremo, é particularmente significativa. Issa Doumbia apresentou-se como uma alternativa para, a espaços ou a tempo inteiro, ser aposta sobre a esquerda do ataque. Tem sentido tático - apetência para fechar por dentro e acompanhar laterais -, mas precisará de limar algumas pausas que faz com bola ainda pensando como um médio mais recuado e até evitar alguns recuos desnecessários que retiram espaço à circulação. Acabou mesmo a atuar na posição oito.
É típico que todos os emparelhamentos transmitam a ideia de que estão a viver um primeiro encontro. Sergi Altimira e Silas Andersen formaram uma dupla de meio-campo que muitas vezes se atropelou. O espanhol tem minúcia no toque para construir e um sentido tático apurado, algo que o parceiro deixou por demonstrar. Ao ex-BK Hacken faltou-lhe conforto para ligar, tarefa que o posicionamento mais adiantado lhe exigia. Parecem cromos repetidos.
A vantagem da mobilidade interna é o conhecimento que se tem da cultura da empresa. Rodrigo Zalazar está mais do que familiarizado com o futebol português. Assim, não foi de estranhar o impacto imediato que teve quando, aos 60 minutos, se estreou pelo novo clube após deixar o SC Braga. Mal entrou partiu para um lance que fez lembrar a arrancada que realizou contra o Benfica na meia-final da Taça da Liga. A jogar como terceiro médio, conseguiu uma grande penalidade que ele próprio converteu. O uruguaio surgiu na derradeira versão do Sporting que contou com Jesse Derry à esquerda.
Altimira está bem colocado para ser o sucessor de Hjulmand
Gualter Fatia
🐣 Saídos da casca
Se dependesse de Rui Borges, a figura do número dez nunca tinha entrado em vias de extinção. As equipas que tem treinado ao longo da carreira reservam sempre um espaço para alguém jogar de pantufas perto do avançado. Flávio Gonçalves preenche essa vaga. Depois de ter sido um dos destaques da equipa B na época passada, tem sido a grande aposta da pré-época do Sporting. Irreverência para tomar decisões tem que sobra e genica para surgir em espaços variados também. As bolas paradas foram todas dele. Chris Grombahi teve singelos minutos para se mostrar sobre a direita.
🪨 A dureza do núcleo
Não são reforços, mas têm algo para acrescentar. As mudanças no plantel do Sporting reorganizaram a hierarquia. Jogadores como Maxi Araújo, Daniel Bragança ou Geny Catamo serão obrigados a ser mais do que um complemento aos cabecilhas. O uruguaio sobe automaticamente para o topo dos melhores jogadores à disposição de Rui Borges, estatuto conquistado com as aguerridas prestações da época passada. Dada a necessidade de diversificar perfis no meio-campo, Bragança merecerá um reforço de confiança, apesar de não ter jogado contra a equipa francesa. Considerando o peso das saídas no ataque, o desejável era que os números de Catamo se aproximassem dos de Trincão e de Pedro Gonçalves.
🖼️ Estado da arte
A vitória contra o oitavo classificado da última edição da Ligue 1 vai rapidamente cair no esquecimento. É difícil que muito do que se viu possa ser considerado vinculativo para a época do Sporting. Os desfalques na defesa - Ousmane Diomande, Zeno Debast, Gonçalo Inácio - são exemplificativos. Eduardo Felicíssimo, um surgimento precoce na transição Ruben Amorim-João Pereira-Rui Borges, só fará dupla com Eduardo Quaresma numa situação de urgência máxima. O Sporting ainda se está a conhecer e tem muito bonding para fazer, assim como de consolidar figuras em posições cruciais.