O exame cardíaco padrão de uma época contempla um pico de batimentos lá mais para diante, quando os títulos se decidem. Foi detetada no Benfica uma inversão dessa tendência. Ainda vamos no dealbar da temporada e já as pulsações estão a um ritmo elevado.
Não é um indicador de boa saúde que a 2ª pré-eliminatória da Liga Europa, contra o St. Gallen, tenha mexido com as emoções encarnadas. Para um Benfica na plenitude das capacidades, este casting não devia passar de um registo gratuito na fase seguinte. Como essa não parece ser a condição da equipa de Marco Silva, a gaveta dos sentimentos foi remexida.
O treinador já conhecia o Estádio da Luz como adversário. Nessas circunstâncias deve-se ter sentido mais confortável do que nos instantes iniciais do jogo de estreia no ninho encarnado. Nos primeiros cinco minutos do primeiro jogo da época em casa, o Benfica já estava a ser assobiado.
Na memória dos adeptos estava a exibição desconectada das águias na 1ª mão, situação que deixou o Benfica na ânsia de reverter uma desvantagem de 2-1. A calmaria na circulação de bola não era, no entender da bancada, consentânea com o sentido de urgência que precisava de ser aplicado.
Apesar de tudo, na 2ª mão, o Benfica esteve num nível digno e a vitória por 5-0, que permitiu inverter a eliminatória, assim o indica. Coloquemos os números de parte: Pavlidis transmite desde o primeiro dia da pré-época 2024/25, quando chegou a Portugal, um nível de confiança condizente com alguém a quem poderíamos entregar os nossos bens mais valiosos. Num momento de intranquilidade para os encarnados, surgiu o Sr. Fiabilidade.
O St. Gallen estava assanhado e Trubin funcionava como tubo de escape da troca de passes. Ninguém se metia com o guarda-redes, mas também era quando a bola chegava aos pés do ucraniano que a movimentação emperrava para desagrado das almas revoltas.
Por sorte, Pavlidis cedo colocou um pano ensopado com água morna na cabeça de quem estava a perder as estribeiras. O serviço de concha de Rafa, com o pé debaixo da bola, deixou o avançado grego nas melhores condições para marcar. O Estádio da Luz aliviou a pressão.
Quer Rafa, quer Bah, vilipendiaram o corredor esquerdo dos suíços para tirarem cruzamentos que nem sempre foram acompanhados pela devida agressividade de quem os atacava. A pré-eliminatória estava igualada, mas apenas isso, quando o St. Gallen rematou ao poste. Foi para aproveitar o adiantamento da linha defensiva que Aliou Baldé foi deixado lá na frente. A compostura de Trubin, que muitas vezes esteve perto de se desfazer, sobreviveu a mais um sopro.
O aguerrido Leandro Barreiro roubou a titularidade a Miguel Figueiredo e diluiu-se no Benfica para espalhar o efeito da sua genica. Faltou-lhe, ainda assim, delicadeza nos pés para ser recompensado com um golo. Foi uma coincidência carregada de um ensinamento para o médio que, no mesmo lance, Pavlidis tenha bisado com mais uma finalização aprimorada. Que seja reconhecido o mérito de António Silva, que se inspirou em David Luiz para fazer progressões de vastos metros, por conta de quem ficou um relevante passe interior. Aquele que parece ter sido o último jogo de águia ao peito, foi de um nível que gostaria de ter sempre apresentado.
O dominado St. Gallen, de vez em quando, lá espreitava. Teria sido fatal para o Benfica se Lenglet e António Silva não se tivessem atravessado em frente de Leon Frokaj para impedir a resposta dos helvéticos. Nos instantes finais, o mesmo Frokaj voltou a ter uma grande oportunidade para marcar, expondo debilidades defensivas que não devem ser ignoradas por Marco Silva.
O Benfica, antes de terem sido atingidos os 60’, enfrentou uma catadupa de acontecimentos felizes. Logo após fazer o 2-0, Jozo Stanic foi expulso por cometer falta sobre Pavlidis. Os encarnados passearam até ao final e o resultado não ficou por aí. Um lance confuso envolvendo Bah, junto à linha de fundo, foi inicialmente anulado. O escrutínio do VAR permitiu perceber que nada existia de irregular que pudesse impedir mais um golo de Pavlidis.
Marco Silva começou a reintroduzir os mundialistas. Começou por Ríos e, mais tarde, juntaram-se Schjelderup, Lukebakio e Dedić. Num momento em que o St. Gallen estava decrépito, o Benfica vestiu a melhor versão. A força de Ríos arrancou de imediato uma grande penalidade. Era dia para Pavlidis absorver tudo o que a felicidade tivesse para lhe dar e chegou ao poker. Para complementar, Lenglet também provou o sabor do golo na Luz na sequência de um canto.
Feito o mínimo dos mínimos, que era ultrapassar a 2ª pré-eliminatória da Liga Europa, o Benfica tem agora que fazer o mínimo: ultrapassar os escoceses do Hearts em mais um degrau antes da fase principal da competição. Atenção que eles têm Cláudio Braga.
Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: fsmartins@expresso.impresa.pt
