Seja no mais resplandecente verde ou num campo de batatas, Victor Froholdt é o homem das decisões do FC Porto, que conquistou a Supertaça
O FC Porto a levantar a Supertaça pela 25ª vez
Diogo Cardoso
Um único golo do dinamarquês, ainda na 1ª parte, derrotou um valoroso Torreense, num jogo pouco interessante, afetado por um relvado indigno de qualquer jogo de futebol profissional. O FC Porto arranca a nova época como terminou a última, a ganhar um troféu entre a sua enorme coesão
Um FC Porto quanto baste. Ainda assim, um FC Porto vencedor. Os dragões começaram a nova época como acabaram a última, a ganhar um troféu aos ombros de Victor Froholdt, tão decisivo no mais aprimorado relvado como no campo de batatas que, inacreditavelmente, recebeu o primeiro jogo da temporada em Portugal.
E é mesmo necessário começar por aí. Entre buracos, falta de relva e outros tufos de terra que desavergonhadamente brotavam a cada lance mais vigoroso, o FC Porto-Torreense foi o jogo que quem achou boa ideia ali disputar um troféu mereceu. Um jogo dividido, é certo, com o resultado em aberto até ao fim, mais um feito da equipa da II Liga, mas um encontro quase sempre desinteressante, batalhado mas pouco jogador, talvez sem qualquer culpa que se possa imputar aos jogadores.
O relvado, não tendo as costas quentes para aguentar tudo o que aconteceu, em nada ajudou. Aliás, só atrapalhou. Para um futebol que se quer vender para outros mercados daqui a dois anos, a imagem foi sofrível, para os jogadores pior ainda. Vários sofreram fisicamente com os ressaltos e as irregularidades do campo, Jan Bednarek sairia mesmo ao intervalo depois de um lance ainda nos momentos iniciais do encontro, em que um simples carrinho abriu uma cratera no solo de Coimbra. Inaceitável.
E, como é claro, o espectáculo sofreu. Os protagonistas mais capazes com bola estiveram desaparecidos (Gabri Veiga à cabeça) e a Supertaça só não se tornou numa feia batalha porque os jogadores assim não o permitiram, adaptando-se tanto quanto possível às condições. No final, ganhou um FC Porto mais habituado a estas provações físicas. Para o Torreense, ficou mais uma valorosa demonstração de trabalho: a jogar assim, não irá seguramente para a Liga Europa olhar embasbacado de baixo para cima.
Os primeiros 20 minutos da equipa de Torres Vedras dizem isso mesmo. Futebol corajoso, afoito, a encostar mesmo o FC Porto à sua área, com Javi Vázquez a criar o pânico à esquerda e Quintero a surgir bem em zonas adiantadas. É do lateral espanhol, de escola Sevilla, que nasce o primeiro lance de perigo do jogo, num livre direto que um atento Diogo Costa travou. Mas antes já tinha cheirado as redes de Diogo Costa.
Dinamarqueês Froholdt entrou na época a marcar
Carlos Rodrigues
Podia ter marcado o Torreense nessa fase (nos primeiros 10 minutos só houve remates do campeão da Taça de Portugal) e não o tendo logrado baixou linhas, obrigando o FC Porto a ir à procura do jogo, fechando todas as possíveis ruas de acesso à sua área, com marcações bem gizadas. O atarantamento dos centrais do FC Porto, sozinhos com a bola, sem ninguém à sua frente mas sem saberem também para onde lançar o jogo, foi o sinal de que a estratégia resultava. E, com bola, a equipa de Luís Tralhão ligava-se com a segurança de quem se conhece bem - o onze do Torreense tinha apenas um reforço.
O primeiro sinal de crescimento do FC Porto, já para lá dos 20’, começou nos pés do omnipresente Froholdt, a quem as férias parecem ter feito bem. O dinamarquês, além dos equilíbrios que cria, da forma astuta como lê o jogo adversário e o trava, parece mais disposto esta temporada a olhar mais para a frente. Durante a 1ª parte, foi o pivô da manobra atacante dos dragões. Froholdt viu então a corrida de William à direita, dando-lhe o passe para a auto-estrada. O brasileiro encontraria Alberto Costa e só a má abordagem de André Silva na área manteve o nulo.
André Silva foi titular e se é mais que evidente que o FC Porto tem de ir ao mercado buscar um marcador de golos, também o é que o português chega para somar. Foram inúmeras as ocasiões em que desceu na busca de combinar com companheiros e quase sempre o avançado conseguiu encontrar espaços para os colegas progredirem. Faltou bola e acerto na área, mas é num desses recuos que nasce uma das grandes oportunidades do FC Porto antes do golo, com Silva a lançar Froholdt, que viu Pepê com espaço na esquerda. Ao cruzamento, William respondeu com um remate disparatado, muito por cima.
E seria da esquerda que nasceria pouco depois o único golo do jogo, com Pepê a cruzar para Froholdt a fugir à marcação de Jatta, aparecendo no espaço para cabecear para a baliza. Para o jogador mais decisivo em campo, um golo. A justiça por vezes é simples.
Faltavam poucos minutos para o intervalo e ao golo do FC Porto o Torreense respondeu fazendo-se dono da bola. Já nos descontos, quase marcava, após perda de bola destrambelhada de Kiwior (exibição só mais ou menos).
Daí para a frente o jogo perdeu paulatinamente o interesse, como um balão que se esvazia. O relvado não ajudava, cada vez mais esburacado, com cada vez mais tons de verdes e castanhos, e os índices físicos de início de época também não.
Hwang In-beom num remate que levantou muita relva
Eurasia Sport Images
O FC Porto só criou algum frisson de livre direto, por André Silva e o grande momento até foi do Torreense, já nos últimos 10 minutos, a aproveitar um lançamento lateral mal colocado de Zaidu (Froholdt estava também anormalmente mal colocado para o receber), com o Torreense a partir para um ataque rápido de Zoabi quase transformava em golo - a oposição de Varela no momento do remate foi decisiva.
Hwang In-beom respondeu do lado oposto com um bom remate de meia-distância mas, apesar do resultado nunca ter estado fechado, o jogo pareceu por vezes demasiado em velocidade cruzeiro, com o FC Porto a fazer pouco mais do que serviços mínimos para chegar à sua 25ª Supertaça.
Talvez os jogadores não quisessem arriscar naquele terreno, talvez o físico ainda não dê para mais. Mas a Supertaça, depois de uma 1ª parte ainda animada, caiu num marasmo que mata qualquer entusiasmo de início de época. Ainda assim, o Torreense sai incólume, mais preparado para a aventura europeia - onde certamente não encontrará relvados assim -, um desafio tremendo para uma equipa que vai jogar na II Liga portuguesa.