O Benfica está a carregar como há muito não se via e também estragou o conto de fadas do Hearts
Rafa marcou o primeiro golo do jogo e nem assim o Benfica abrandou
Carlos Rodrigues
O Benfica está a começar a época com fome. Assim se justifica a mudança de postura face à temporada passada. Mesmo após um golo madrugador, a equipa de Marco Silva manteve o ritmo para alargar a vantagem no primeiro jogo contra o Hearts (6-1). Apesar do efeito anestésico das substituições, os encarnados vão à Escócia confortáveis na 3ª pré-eliminatória da Liga Europa
Todos conhecemos aqueles filmes em que a personagem principal é introduzida como uma pessoa ingénua e termina o enredo como um super-herói, um guerreiro ou um lutador. Geralmente, a transformação é orientada por um tutor que surge como o expoente máximo da moralidade e a quem são atribuídas as falas que melhor ficam numa legenda de Instagram.
Marco Silva terá encontrado este Benfica num estado decrépito em função da desenxabida temporada passada. O treinador parece ter visto o que ninguém viu e encontra-se a dar vida ao monstro. Mesmo que, mais adiante na época, não se confirme todo o potencial, os adeptos encarnados finalmente voltaram a ter uma equipa que os deixa encostarem-se na cadeira e suspirarem em modo de apreciação.
O Hearts está a acordar do sonho. Depois de ter estado perto de conquistar o título na Escócia, abriu os olhos estatelado ao lado da cama sem perceber exatamente a anatomia da queda. Vai-se tentando levantar ainda naquela fase ilusória do dealbar em que acreditamos ser capazes regressar ao onírico estado em que nos encontrávamos.
Os atropelos não têm ajudado à reabilitação. A equipa que perdeu o 1º lugar da liga na última jornada da pretérita temporada foi arredada da órbita da Liga dos Campeões após um agregado de 6-0 contra o Sturm Graz. Cedo foi anunciado que, na Luz, seria vítima de outra rajada (6-1) que causaria estragos.
Cláudio Braga, o português do Hearts, não teve vida fácil perante os defesas encarnados
Gualter Fatia - SNS Group
Aos três minutos, o Benfica marcou um daqueles golaços em que o recurso à hipérbole se torna apropriado mais pelo que se passa antes da bola entrar na baliza do que propriamente pela finalização. Bah encontrou a rutura de Leandro Barreiro, que cruzou atrasado para o remate fácil de Rafa.
A reação à vantagem foi mais valiosa do que o 1-0 em si, pois é com a postura adotada que uma equipa constrói personalidade, algo que tem vindo a escassear para os lados da Luz. O comportamento manteve-se. As estonteantes movimentações, com os jogadores a ajustarem-se sem amarras às deslocações dos parceiros, criaram imprevisibilidade. A dinâmica alargava as linhas de passe disponíveis para o portador, sendo sempre agradável ter por onde escolher.
O inconformismo do Benfica, que também se manifestava na reação à perda, fez as oportunidades multiplicarem-se. Tomás Araújo, de canto, e Pavlidis, de grande penalidade, deixaram o resultado em 3-0 ao intervalo. A margem só não era maior graças às intervenções de Beau Reus perante Prestianni e Barreiro.
Menos solicitado do que o guarda-redes do Hearts estava a ser o homólogo. Nunca foi óbvia a distância hierárquica entre Trubin e Samuel Soares. Uma vez que, neste caso, o internacional jovem português foi titular, por momentos, deve-lhe ter passado pela cabeça o pensamento masoquista de que o Hearts fizesse mais remates para poder provar inequivocamente a pertinência da escolha de Marco Silva. Ainda assim, uma má saída a um livre lateral levou Laurent Mendy a cabecear à barra.
Prestianni de olhos na baliza
ANTONIO COTRIM
Prestianni inquietava-se pela esquerda. O agitado argentino fletia para a zona central com ações marcadas pela intenção de ferir. Deu várias lições ao pé direito para executar o remate com precisão e, ao fim de algumas tentativas, encontrou as malhas.
As substituições de Marco Silva combinaram jogadores em busca da melhor forma física e outros que ainda não se ambientaram ao clube. Assim, notou-se o efeito da anestesia e o Hearts, inofensivo até então, reduziu através de um bom tricô rematado por Tom Renaud.
Após momentos de habituação às renovadas unidades, Schjelderup respondeu à boa exibição do parceiro com quem concorre pelo lado esquerdo do ataque com a fineza que o distingue. A filigrana ficou patente na assistência para a estreia a marcar de Jhon Durán, no passe de trivela que permitiu a Rafa chutar ao poste e na grande penalidade que ele próprio conquistou e converteu. O Benfica terminou tal como começou: a carregar.
Esta goleada pode não ter sido apenas mais uma. O significado implícito do resultado é prometedor. Augura um Benfica que, se puder, rasga em vez de cortar, arromba em vez de abrir, parte em vez de desencaixar. Parecendo que não, era este suplemento que faltava tomar.