O Sporting foi à Amadora esbarrar com as intermitências da revolução em curso
O desalento do Sporting perante o festejo do Estrela
Gualter Fatia
Uma equipa muito renovada empatou (2-2) contra o Estrela no arranque da I Liga. Os leões começaram a criar oportunidades, chegaram aos golos no segundo tempo com Zalazar e marcar e assistir, mas permitiram que a equipa da casa crescesse e igualasse na parte final
Há poucos processos revolucionários absolutamente limpos, sem feridas, sem deixar marcas. O Sporting aborda 2026/27 erguendo um novo edifício, trocando estátuas que estavam na praça principal da cidade, removendo quadros das paredes, buscando novos líderes e referências.
Não há Morita, não há Trincão, não há Hjulmand, Diomande está quase a não haver. Brangaça e Pote, fora dos convocados, possivelmente também em processos de saída. Ainda, circunstancialmente, Debast lesionado, Maxi castigado.
Muita mudança, muita novidade. Na Reboleira, o arranque do segundo tempo trouxe o entusiasmo da revolução. Dois golos, Zalazar em fuga, alegria. Subitamente, as curvas e nuances e problemas e instabilidades surgiram todas.
Bastou uma jogada para o Estrela se reconectar com o jogo e com o marcador. Antonetti reduziu aos 72' e o desafio alterou-se radicalmente. O Sporting tremeu, talvez tenham vindo fantasmas do final da época passada, se é que há, sequer, memória coletiva nestes futebolistas desse passado recente. O guião empurrava a bola para perto da baliza dos visitantes e Rui Silva, com uma péssima abordagem, emprestou a parte que faltava, com uma péssima abordagem para o 2-2. Os vice-campeões começam com um dissabor.
Antonetti festeja o 2-1
TIAGO PETINGA
Seguindo a nobre tradição vinda da Supertaça, o relvado da Reboleira foi uma má imagem de apresentação do futebol nacional. Pepa, em estreia no Estrela, recebia a visita de Rui Borges, a debutar oficialmente este renovado Sporting, uma equipa mais jovem e de físico mais pulido.
Os leões não tardiaram a criar oportunidades. Parte significativa do primeiro tempo foi passada perto da baliza adversária, com um avançado grego triste, cabisbaixo, divorciado do golo.
Fotis Ioannidis, azarado na época passada, decidiu desafiar os deuses da bola e ir para a segunda campanha em Alvalade com o número sete nas costas. Estiveram nos pés e na cabeça do helénico várias situações até ao descanso, mas a pontaria não foi a melhor, o guardião Léo Linck também respondeu bem, e lá se via Fotis com um semblante derrotado, como um homem que bate sempre com o nariz na porta quando vai às finanças resolver uma burocracia. Só um pouco mais tarde lograria o carimbo necessário.
O Estrela apostava nas saídas rápidas, colocando as fichas na velocidade de Abraham Marcus e Antonetti. O melhor antídoto para os sprinters era Eduardo Quaresma, uma garantia de precisão nos cortes a campo aberto. Aos 31', a situação que robou a Marcus valeu um golo.
A renovação do Sporting não se fez só de aquisições. Rodrigo Dias e Flávio Gonçalves, filhos de Alcochete, foram titulares, o primeiro no lugar do castigado Maxi, o segundo fazendo de Pote e deixando várias notas de classe e criatividade, ambos com belas exibições.
Altimira e Doumbia, dois dos reforços que foram titulares
TIAGO PETINGA
O nulo intermédio não correspondia à superioridade visitante. E, após o recomeço, rapidamente chegaram os golos, com o tal protagonista uruguaio.
Zalazar joga com urgência e pressa. Em teoria é segundo avançado, número 10, na prática é um todo-campista, deambula atrás do ponta de lança, vagueia pelo campo à procura de espaço para acelerar. Pelo que já fez no campeonato e pela aposta feita nele, tem de ser um daqueles reforços para chegar e justificar. Já começou a fazê-lo.
Logo no primeiro minuto da segunda metade, uma iniciativa de Geny Catamo parecia perder-se, mas Zalazar recolheu a bola e apontou o 1-0. Passados 13 minutos, o ex-SC Braga partiu da direita, tirou um adversário do caminho e cruzou rasteiro. Ioannidis deixou para trás a tristeza, antecipou-se e fez o seu primeiro golo desde 23 de dezembro de 2025.
Rui Borges, com a vantagem de 2-0, usou o banco. Entraram Suárez e Andersen e algo se transformou. O colombiano entrou apostado em dar razão aos rumores de insatisfação, desligado, conflituoso, chegando a parecer seriamente aposado em se auto-expulsar.
Convidado pelo Sporting a subir, o Estrela aceitou. Antonetti beneficiou da passividade de Inácio e Quaresma e bateu Rui Silva. Beni Souza, criativo rebelde, beneficiou de um certo paradoxo leonino: equipa encolhida, mas não equilibrada, permitindo avenidas para os homens de Pepa progredirem. De lá veio uma espécie de cruzamento que Rui Silva, desastrado, colocou na própria baliza.
Os minutos finais ilustraram o tom emocional com que fechou o encontro. Um Sporting algo perdido, carente de referências, o Estrela entusiasmado. A revolução está em curso, mas vem dolorosa.