Crónicas de jogos

O Benfica criou muitíssimo, desperdiçou muito e aproveitou pouco

Pavlidis esbarrou várias vezes com o guarda-redes ou os postes
Pavlidis esbarrou várias vezes com o guarda-redes ou os postes
Gualter Fatia

Num encontro cheio de ação junto das balizas, as águias cederam um empate (2-2) caseiro contra o regressado Académico de Viseu. Com a Luz sem adeptos, a equipa de Marco Silva teve inúmeras ocasiões de golo, mas foi deixando os visitantes com vida e arranca a I Liga com um tropeção

O Benfica criou muitíssimo, desperdiçou muito e aproveitou pouco

Pedro Barata

Jornalista

Pode-se elogiar uma equipa que luta pelo título e que arranca o campeonato com um empate caseiro contra um adversário que pisava a I Liga pela primeira vez no presente século? Claro que sim.

Sem ninguém para aplaudir ou criticar nas bancadas, o Benfica mostrou a evolução que já vive com Marco Silva. Um ataque de combinações e permutas com sentido. Um produto final feito de oportunidades claras de golo. 28 remates, 11 deles enquadrados com a baliza. Gente a crescer de rendimento. Mas...

... do outro lado estava quem entra em 2026/27 com argumentos no ataque. Há o descaramento de Zamora, o critério de Kahraman, os golos de André Clovis. Se o guião do visitante com menos argumentos dita que se deve ser sólido defensivamente, o Académico de Viseu não o foi. Mas conseguiu criar na dianteira e sofrer no fim.

O 2-2 traduz uma bastante entretida noite de futebol em Lisboa. Podia haver goleada ao descanso, acabou com empate no fim. Da capacidade que Marco Silva terá para agarrar nos progressos e não deixar estes pontos perdidos serem mais do que um deslize estará parte do êxito futuro dos encarnados.

Sem público devido a castigo, a Luz tem ares de futebol de pandemia, de bola de Covid, um 2020 em 2026. Os adeptos, do lado de fora, faziam ouvir-se na parte de dentro. O Académico, na I Liga passados 37 anos, certamente desejaria um cenário diferente para apadrinhar o retorno.

O onze do Benfica somente apresentava um reforço. Ainda que Lenglet fosse a única cara nova face a 2025/26, esta já é uma equipa totalmente diferente, uma entidade desportiva transformada, como um homem que entrou num qualquer retiro de metamorfose espiritual. As oportunidades foram-se sucedendo e logo ao descanso a melhor notícia para os visitantes era que o marcador mostrava margem mínima.

Adeptos do Benfica a ver o jogo da parte de fora do estádio, devido ao castigo
TIAGO PETINGA

O tsunami ofensivo das águias arrancou com dois pontapés de canto, ambos com Ewerton a efetuar as primeiras das oito intervenções que protagonizaria. O 1-0 chegou aos 10', em novo grande lance de Pavlidis, que recebeu de Prestianni e, de pé esquerdou, abriu o marcador.

O remate de Zamora ao poste, ameaçando o 1-1 para o Académico, foi um intervalo na sequência de grandes chances para os da casa. Pavlidis olhava para os colegas e para a baliza, Rafa assumia-se supersónico, Prestianni atuava como quem quer provar algo, mas fazendo-o com cérebro e consequência.

Mas do outro lado mora quem sabe jogar, tem argumentos ofensivos, evidencia boas triangulações e uma fórmula que ainda apresenta o embalo da II Liga. Os viseenses eram frágeis atrás, mas tinham argumentos à frente. Após o intervalo, isso foi evidente. Samuel Soares ainda tirou o 1-1 a Clovis, mas no canto que se seguiu Ruben Pereira, homem de 28 anos a debutar no campeonato de elite e com passagem pelo Seixal, cabeceou para igualar o embate. Falar em sonho cumprido será pouco para o central.

Enumerar as oportunidades que o Benfica foi tendo levaria um extenso lençol de texto. Digamos, em resumo, que Pavlidis mandou ao poste, Prestianni também, que Ruben Pereira salvou no limite um remate de Rafa, que Robinho fez o mesmo com Barreiro, que Ewerton foi brilhando. Havia fluidez e boas combinações, padrões ofensivos nítidos, um ataque que não era só a soma dos seus executantes, mas uma multiplicação, eles ajudando-se e melhorando-se mutuamente.

Clovis festeja o 2-2
Carlos Rodrigues

A equipa forasteira fez o 1-1 aos 55', mas encaixou o 2-1 passados três minutos. Prestianni vai aproveitando uma certa indefinição quanto ao futuro de Schjelderup para viver partindo da esquerda, onde o seu futebol se multiplica. O argentino desequilibra, tendo as suas fintas relação direta com a baliza. O 2-1 foi uma obra de arte.

Talvez tenha sido este o único momento de alguma desconexação do Benfica. O Académico de Viseu já provara a si mesmo ter recursos para marcar e voltou a fazê-lo. André Clovis, homem-golo da II Liga nas campanhas recentes, trouxe para o degrau de cima a sua arte na área e correspondeu da melhor forma a um cruzamento de Robinho.

Os últimos 25 minutos foram algo diferentes. O conjunto de Bruno Pinheiro assumiu que era preciso juntar-se e sofrer. Marco Silva fez uso do seu rico banco, lançando Ríos, Lukebakio e Durán, e o Benfica teve menos critério, mais precipitação, uma nota superior de individualismo. Nesta linha entrou Lukebakio, um extremo de cara ou coroa, de ganhar o jogo ou perdê-lo. Roçou o golo em duas ocasiões, mas continua sem festejar no campeonato.

O Benfica acabaria por não conseguir desfazer o nulo. Uma noite que chegou a dar ares de goleada acabou em desilusão. O desperdício explica parte do empate, a qualidade do Académico de Viseu também, mas, sim, há sinais positivos neste arranque da era Marco Silva.

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