Crónicas de jogos

Com bola, o Sporting está bem. Sem ela os problemas são mais que muitos

Maxi voltou ao onze do Sporting no difícil triunfo frente ao Vitória
Maxi voltou ao onze do Sporting no difícil triunfo frente ao Vitória
MIGUEL A. LOPES

Os leões foram para o intervalo a ganhar por 3-0, mas já a sofrer defensivamente. Na 2ª parte chegaram os golos do Vitória e o sofrimento até ao fim. Ainda assim, o Sporting chegou ao primeiro triunfo na I Liga (3-2), num jogo em que o processo defensivo e a gestão dos tempos de jogo voltaram a ser paupérrimos. De tanto querer mudar de identidade, o Sporting tornou-se uma contradição

A doutrina diverge. Metade do mundo acredita no que é intrínseco, outra que é possível mudar. A primeira metade estará, neste momento, como que validada por este novo Sporting de Rui Borges.

Em busca de uma qualquer alteração de estilo ou atitude, o Sporting mudou. Mudou muito. Olha-se para as bancadas e estão figuras importantes de outra era, à procura de definir o futuro. Observa-se o onze e o banco e os perfis atropelam-se. O Sporting ganhou caparro, juventude. É uma equipa mais física, menos rendilhada, a tentar entrar à força no mundo moderno do futebol, onde talvez nem todos tenham de estar.

Porque no meio de tanta vida nova, o Sporting perdeu bons hábitos antigos. Os dois primeiros jogos do campeonato acentuam as dúvidas de uma equipa que procura personalidade. Ou que talvez só tenha mesmo uma.

Tal como frente ao Estrela, o Sporting com bola assume-se. É rápido, giza até lances de um interessante recorte técnico. Há um certo entrosamento. Mas sem ela é um caos. Falta uma liderança em campo, alguém que imponha a pausa. Falta definição sobre quem é quem em campo. Falta uma defesa agressiva e quem coloque os pés no chão. Falta querer ser o dono da bola e não um mero observador, porque nesse papel o Sporting não se sente confortável.

E, assim, parece pouco estranho que um 2-0 na Reboleira se tenha transformado num 2-2 e que um 3-0 ao intervalo por pouco não se tenha convertido num humilhante 3-3, depois de Tiago Margarido mexer ao intervalo e o Sporting continuar macio no seu processo defensivo - e já o tinha sido mesmo a marcar golos em barda na 1ª parte.

Começaram cedo os problemas do Sporting, mesmo com o marcador, minuto após minuto, a enganar a realidade. Aos 9’, Flávio Gonçalves atirou para a baliza num golo que é todo ele insistência de Ioannidis, a ganhar uma, duas, uma enormidade de bolas a Thiago Balieiro antes de a conseguir deixar para o jovem leonino, um dos destaques positivos deste arranque aos solavancos do Sporting.

Altimira fez o terceiro golo do Sporting. O pior viria depois
MIGUEL A. LOPES

Logo a seguir ao golo, os leões começaram a sofrer com a pressão alta do Vitória, com a falta de bola, com as saídas dos minhotos através dos laterais. Ainda assim, a equipa de Tiago Margarido não conseguia transformar a posse em oportunidades e na linha mais recuada ia somando erros. O Sporting, quando conseguia raros momentos de posse prolongada, era um perigo para Rivas e Balieiro. Aos 22’, numa extraordinária jogada, surgiria o 2-0: Flávio Gonçalves, fletindo para dentro, variou para Geny, que com um sombrero maroto tirou João Mendes do caminho. Depois, uma simples receção orientada, inteligente, rodando sobre o adversário, permitiu a Ioannidis ficar em posição para marcar. O que aconteceu.

Mais confiante depois de marcar ao Estrela, o grego era destaque num ataque do Sporting que carburava quando a bola chegava ao último terço. O que acontecia pouco. As dificuldades eram muitas na hora de gerir os tempos do jogo, conter os roubos do Vitória. O 3-0, num remate de fora da área de Altimira, com demasiado espaço à sua frente para mirar a baliza, parecia um bombom oferecido a uma equipa que empilhava asneiras.

Na segunda parte apareceu o esperado castigo, já depois do Vitória quase marcar no final do primeiro tempo. Com Rui Silva inquieto, Doumbia em busca da sua identidade no meio-campo do Sporting - nunca surgiu em zonas de definição, como na pré-época -, um Altimira com dificuldades a recuar e um Zalazar apagadíssimo, rapidamente o Vitória cresceu. Aos 66’, numa boa combinação ao primeiro toque no corredor central com Ndoye, encontrou-se o espaço para Samu rematar. Rui Silva reagiu tarde, a época não está a começar bem para o guarda-redes dos leões.

Dois minutos depois, já com Suárez em campo, que neste momento parece um talismã para o Sporting, mas ao contrário, uma perda de bola infantil de Zalazar já perto da área do Sporting, permitiu um cruzamento perfeito a Strata, uma das apostas de Margarido para a 2ª parte, com Ndoye a fazer aquilo que melhor sabe e aquilo que o Sporting já experimentou na época passada: um míssil de cabeça direitinho para as redes.

Uma vitória certa transformou-se assim numa tremedeira já pouco surpreendente. Sem ninguém disponível para colocar gelo no jogo, sem uma alma que saiba tratar bem a bola e guardá-la para si, o Sporting sofreu durante longos minutos, até a reação do Vitória adormecer e o leão voltar a ter alguma posse, muito graças a algum discernimento final de Luis Guilherme. Mas, até final, Alvalade tremeu por todos os lados.

Nem sempre o que resulta para uns é infalível para outros. Olhando para as opções do Sporting esta época, para quem chegou e quem partiu, apetece dizer que não é o FC Porto de Farioli quem quer. Seguindo a cartilha do rival, o Sporting acreditou que teria uma equipa mais competitiva, mais de guerra, mas as armas estão demasiado descalibradas, são demasiado iguais e, naquilo em que o FC Porto é exímio, a gestão do jogo, o Sporting é, para já, demasiado incompetente.

Não basta simplesmente mudar, é preciso saber entrar em águas desconhecidas sem perder o pé. O anfiteatro de Alvalade já assobia.

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