Cheio de hábitos e simbolismos, o FC Porto repetiu-se em Vila do Conde
Os jogadores do FC Porto a celebrarem o golo de Nehuén Pérez em Vila do Conde
Diogo Cardoso
Tal como na estreia neste campeonato, os dragões marcaram cedo e, de novo, tremelicaram um pouco na gestão da sua vantagem, amainando o seu ímpeto. Aproveitou o Rio Ave para ter vários remates na primeira parte e forçar Diogo Costa a trabalhos. O FC Porto melhorou depois do intervalo, ganhou (0-2) e ao golo que Nehuén Pérez marcou após o seu calvário juntou o primeiro que Borja Sainz fez após perder a mãe
Tem-se o joelho como a temível das passas do Algarve futebolísticas. Quem calça chuteiras teme lesões nessas articulações, as que implicam cirurgia, a respetiva perna mirrada de músculo, meses de fisioterapia, toda uma via-crúcis para regressar a uma versão próxima da que se perdeu. A mazela de Nehuén Pérez não lhe atacou o joelho em setembro de há um ano, foi ao tendão de Aquiles, infortúnio menos falado e igual de tramado, talvez até pior em gravidade, que o arredou de ser personagem de relevo no título do FC Porto.
Oito meses esteve no além-relvado. Ainda teve uns pózinhos de reaparecimento no último jogo da temporada até ser titular neste sábado de céu rosáceo, temperatura amena e estádio colhido de bancadas em Vila do Conde. Começou num FC Porto de mutações ligeiras, se é que visíveis a olho nu, de um campeonato para o outro e esteve no fim de um hábito maturado pelos dragões com Francesco Farioli: canto à esquerda, pé direito de Gabri Veiga, bola tensa na pequena área, um pedaço de testa, e golo, aos 11’. Na jornada inaugural tinha marcado dois minutos antes.
Ter sido Nehuén Pérez, refeito do calvário, a marcar 356 dias depois desatou acesa festa nas gentes do FC Porto, cheias de abraços para dar ao argentino. Pareceu também desbloquear a equipa para um jogo de embalo. Não tardou Gabri Veiga a furar o espaço no centro-esquerda, área dentro, para ter um remate rasteiro. William Gomes foi a esse lado do campo, não o seu, para tentar também. Mas depois, findos uns 20 minutos, os dragões minguaram no ímpeto como em tantos atos passados.
Inclinada para bombordo do campo quanto tinham a bola por terem Nehuén, um defesa central, a servir de lateral direito, os dragões ganharam previsibilidade nas repetidas incursões de Zaidu por dentro para combinar com Pepê e libertar Gabri. E deixaram, aos poucos, de chegar à frente com qualidade, sobretudo após verem o que seria outro golo de canto ser anulado por fora-de-jogo. Deniz Gül virou uma ilha, William Gomes outra, Froholdt corria que se fartava para terminar as suas desmarcações na área, no ataque a cruzamentos, mas sem produto final. E, sem a bola, as linhas recuaram, denotando a conhecia prioridade da equipa em defender a área enquanto o Rio Ave se enchia de confiança.
Um canto na área do Rio Ave
Diogo Cardoso
Munido de gente técnica e irrequieta na frente, o Rio Ave punha Diogo Nascimento a ler a pauta dos ataques. Orquestrava o miolo até as jogadas alcançarem Diogo Bezerra ou Jalen Blesa, os mais agitadores do trio de atacantes a orbitarem nos espaços em torno de Tamble Monteiro. O espanhol experimentou o pontapé um par de vezes, o avançado guineense uma. Os vila-condenses maltratavam a última linha portista com curtas desmarcações entre os defesas e quase no intervalo só Diogo Costa, num voo alado, negou o empate a uma cabeçada de Tamble.
Abanadas as suas fundações por uma equipa da rede de Evangelos Marinakis, repleta de jogadores deambulantes entre os clubes do grego com carinho pelo seu Olympiakos, um fraquinho pelo Nottingham Forest do futebol onde todos querem estar, e está para se entender ao certo o que sobra ao Rio Ave, os dragões regressaram ao campo mais estáveis, cautos com os espaços a meio-campo.
Perante uns vila-condenses que prosseguiram bravos, a quererem encontrar os seus criativos, por vezes, com demasiada pressa, o FC Porto assentou. Mostrou-se de energia renovada. Gül visou o poste da baliza de Ennio van der Gouw, guardião neerlandês mais atarefado em trabalhos. Sobretudo quando Francesco Farioli, pouco após a hora de ação, lançou Alberto Costa para galopar pela direita, André Silva incumbido de afinar as ligações em apoio na frente e Hwang in-beom, sul-coreno fino no trato da bola.
Borja Sainz marcou pela primeira vez esta época: e desde que morreu a sua mãe, em março de 2026
Diogo Cardoso
Prolongando um pouco a duração das suas posses, desobrigando Jan Bednarek e Jacub Kiwior, fortalezas na proteção da área que mantinham os atrevidos vila-condenses à margem com uma perna a barrar remates, a cabeça a cortar cruzamentos, ou interceções a finarem jogadas, tão ativos nesse hábito mui portista com Farioli de se valer de muralhar a sua área como forma de manter uma vantagem, os visitantes encontraram outro fio simbólico.
A equipa buscou Alberto Costa em zona interior, o lateral correu com a bola, tocou em Hwang na área que, de costas para o alvo, suavizou uma assistência com o pé direito feito colher, a ajeitar o passe que concedeu a Borja Sainz, outro substituto entrado, uma homenagem: aninhado o seu remate nas redes (81’), destapou a t-shirt interior, mostrou o “Te Quiero Mamá” escrito no tecido, depois apontando as mãos ao céu. Desde março, quando perdeu quem o pôs no mundo, que o espanhol procurava um golo para dedicar à mãe - ainda não marcara em 2026.
O FC Porto seguiria então tranquilo, sem peripécias - e sem Rodrigo Mora, sentado no seu vai-não-vai como no verão passado - para os últimos minutos opostos a muitos que se viram na primeira parte. O costume de relaxar quando por diante do jogo com magras vantagens, atenuando o ritmo, poupando em esforços e juntando linhas, permitiu a um Rio Ave com talentos de interesse, unidos num fio condutor que nem sempre se viu a época passada, crescer e ameaçar. Valeu, como na 1ª jornada, um Diogo Costa elástico, capitão-tampão de apuros, para livrar a equipa de dissabores.
Os dragões repetiram o resultado da estreia neste campeonato, um mini-hábito desta nova estação que foi ao embalo dos velhos hábitos da equipa: confiou nas suas forças a bater cantos (a época passada foram 15 golos de bola parada na Liga), mas voltou a reduzir o seu ímpeto quando em vantagem, tendo de confiar então no seu guarda-redes e nos seus polacos defesas centrais. O FC Porto está envolvido em repetições.