Crónicas de jogos

O Benfica teve pressa a enterrar, à goleada, o seu trauma com Rio Maior

Rafa a apontar para Pavlidis, o assistente do seu golo contra o Casa Pia na 2ª jornada do campeonato 2026/27
Rafa a apontar para Pavlidis, o assistente do seu golo contra o Casa Pia na 2ª jornada do campeonato 2026/27
PAULO CUNHA
Nas duas épocas anteriores os encarnados não tinham ganhado em Rio Maior, no dérbi (supostamente) de Lisboa, mas, desta vez, cedo começaram a desmontar o frágil Casa Pia, sem piedade: o Benfica marcou dois golos na primeira parte e cinco após o intervalo, vencendo (0-7) com uma farta goleada. Pavlidis fez um hat-trick em sete minutos, o seu quinto ao serviço do clube

Mais uma época, mais um dérbi de Lisboa que deixou de ser lisboeta. É só um jogo, já que transladado foi para a região oeste e assim continuamos, o Casa Pia com a casa em obras sem que as obras comecem, tendo uma casa postiça a 90 quilómetros do seu estádio. Equivale a uma viagem a rondar uma hora, lá teve o Benfica de se fazer à auto-estrada em vez de arrepiar caminho até Pina Manique, pela 2ª Circular, num espirro de minutos.

Ir a Rio Maior equivalia a carga pesada, Marco Silva ainda era londrino quando os encarnados não ganharam nas últimas duas visitas. O passado não calça chuteira, jogam os jogadores que têm mini-traumas, mas desta feita não pareceu: também num rápido atchim o Benfica marcou apressado, aos 3’, graças a um serpenteio de Gianluca Prestianni da esquerda para o centro, rematando a bola que fez ricochete em David Sousa, desviando para a baliza.

O Benfica cedo se calcetava na partida. O golo tricotou-o na esquerda com a sintonia entre Georgiy Sudakov, um 10 deambulante com o novo treinador, de preferência nos espaços centrais mais virados para a esquerda, e Prestianni, o endiabrado rente-à-relva que acelera, encara o adversário e reativo é a evadir-se de corpos. A equipa procurou sempre um dos dois, em qualquer bola, sem se fazer de rogada.

Esta versão do Benfica é vertical, quer a bola para a jogar adiante, de preferência em gente a espreitar a profundidade - ajuda ter os defesas centrais que tem, de bom pé -, não precisa de ir devagarinho, de passe curto em toque curto, para se refastelar no meio-campo adversário. E monta armadilhas. Num lançamento lateral do Casa Pia, à direita, Rafa fez-se lesto a roubar Rochinha, olhou para a frente, tocou em Pavlidis, recebeu a bola de volta e picou-a (14’) sobre o corpo de André Gomes, guardião formado nos encarnados.

Prestianni a festejar, contra o Casa Pia, o seu terceiro golo esta temporada
CARLOS BARROSO

Voltaria à caça depois, emulando o roubo num arremesso com as mãos do lado oposto. Prestianni ficou com a sobra, correu para a entrada da área e serviu Sudakov, demasiado gentil a denunciar o jeito que ia dar à bola no pontapé. Era macio o Casa Pia nesses momentos, como entupido se mostrava a progredir no campo: pelo centro, ‘Seba’ Pérez tinhas as vias tapadas para filtrar passes e os poucos que ligava sucumbiam a Henrique Araújo, errático a jogar em apoio, incapaz de dar continuidade à jogada.

Os anfitriões apenas se aproximavam da área por fora, com cruzamentos. Um deles, com um ressalto pelo meio, deixou Gabi a bater de pé canhoto a bola que tocou no poste esquerdo da baliza de Samuel Soares, homem que encara os próprios postes, levanta as mãos ao céu, fecha os olhos e se dedica à oração antes de cada parte do jogo. Eram dois os guarda-redes com escola de Seixal em campo.

De novo o Benfica se adiantou à pressa, mal a segunda parte conheceu apitos, quando Sudakov, no meio de corpos vestidos de preto, virou-se por duas vezes entre linhas e, na segunda, deixado à vontade pelos adversários, serviu Pavlidis para o grego rematar com intento, aos 47’. Foi o desatar das grilhetas do avançado rico em pólvora esta época, marcando pelo quarto jogo consecutivo.

O primeiro do goleador leve nos pés brotou de uma perda de bola do Casa Pia pouco após a recuperar, desorganizado e suave a contestar as intenções do Benfica. Um par de minutos volvidos, outra perda culminou com Vangelis e os seus pézinhos a sapatearem na área que nem bailarina a desviar-se de mobília: o segundo golo foi de cetim, dois adversários fintados antes do remate em jeito. E aos 54’, tão gritante a cratera entre defesas e médios dos anfitriões, que Tomás Araújo encontrou Rafa e o português lançou Pavlidis.

Pavlidis marcou três golos ao Casa Pia, conseguindo o quinto hat-trick ao serviço do Benfica
PAULO CUNHA

Em três passes se completou o hat-trick de sete minutos do providenciador-mor do Benfica. São já nove golos esta temporada para o grego que Marco Silva, terraplanado o Casa Pia, inofensivo o adversário, pôs a descansar no banco. Entrou Jhón Durán, bruto colombiano, dador do seu corpanzil à área onde deu uma referência à equipa para trocar passes dentro do retângulo em torno da baliza com farto à-vontade.

Seria o avançado a marcar a sétima bofetada dada a um frágil adversário (61’), quase inerte com as suas pretensões de gerir a bola, construir apoiado de trás e ter calma a avançar no campo, mas traída pelo desfasamento entre jogadores, a falta de coesão e a gritante passividade a reagir ao que o jogo oferecia. Com uma chapada na bola, Durán festejou após os encarnados reclamarem uma segunda bola, mais outra; e fê-lo depois do sexto golo, este vindo de um cruzamento de Samuel Dahl desviado na esquerda (58’) por Lawrence Ofori para a sua baliza. O Casa Pia era trucidado.

Não haveria um Benfica tão molesto na meia-hora final, mas nem por isso menos capaz de tal. Sem piedade pelo adversário, Marco Silva lançou Scheljderup e as suas mudanças de direção para a esquerda, deixou Prestianni para se aproximar do norueguês e pôs Dodi Lukebakio na direita, para frustração própria do treinador - gesticulou com desagrado quando o belga, numa jogada ao ralenti, perfilado com a última linha do Casa Pia, se deixou ficar em posição de fora-de-jogo antes de receber um passe longo de Richard Ríos. Já estava 0-7, mas o técnico não amainou na exigência.

Vimo-lo a instruir, pedir coisas, chamar este e corrigir aquele até ao fim, cirandando à frente do banco de suplentes para afinar a equipa que refrescou ao longo da segunda parte, acautelando a partida de quinta-feira, na Luz, contra o Aarhus da Noruega para o play-off da Liga Europa. Para lá chegar a equipa terá de regressar do dérbi supostamente de Lisboa pela auto-estrada rumo a Lisboa, uma ironia que já vai na quarta época de vida. Desta vez, o Benfica voltou de Rio Maior sem traumas. Ganhou um o Casa Pia, destroçado sem dó.

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