Uma roda de amigos. Uma regra estabelecida pelos participantes. Um golo por cada vez que esta é quebrada. Dá bastante jeito para este efeito a existência de palavras homónimas que permitam criar uma ligeira confusão entre a descrição de um drinking game e remates para o interior da baliza.
Marco Silva montou uma máquina de futebol atacante que vai proliferando. O Benfica está ofensivamente ébrio, tamanha a cascata de golos que tem emborcado. Sem esquecer os sete marcados ao Casa Pia, fez cinco diante do St. Gallen e seis frente ao Hearts, no que respeita a jogos do casting da Liga Europa realizados em casa.
O Aarhus também foi apanhado na enxurrada. Os encarnados serviram-se dos campeões dinamarqueses com um 3-1 na 1ª mão do play-off de acesso à Liga Europa que deixa à distância de uma viagem à Escandinávia a confirmação de que as águias vão estar cheias de compromissos a meio da semana durante a época.
No Estádio da Luz, decorreu um processo de banalização da oposição nórdica. Vai singrando o modelo associativo, com movimentações constantes e passes com mensagem. Logo aos dois minutos, o Benfica rebentou a bolha. Sendo as combinações de Bah, Rafa e Pavlidis o apogeu do futebol triangular, assim nasceu o golo do português.
Os números do ataque são impactantes e em certos momentos a eficácia nem tem primado. Esse é o resumo da carreira de Rafa, o pequeno génio que nem sempre acaba as contas. Além do golo inaugural, teve mais duas ocasiões claras para marcar que o teriam deixado ainda mais realizado em caso de concretização.
Um percurso igualmente utilizado pelo Benfica era a via aberta pelos destroços do Aarhus. As perdas de bola da equipa treinada por Jakob Poulsen desencadeavam ocasiões flagrantes para o adversário. A pressão de Prestianni, outro muito ativo na busca pela baliza, relacionou-se com alguns dos erros provocados.
O aconchego posicional de Sudakov e Pavlidis foi reconfortante para desatar jogadas interiores. Era por esta via - não tanto quando Dahl tentava cruzamentos mais bombeados - que as coisas funcionavam.
Por vezes, os defesas do Aarhus até se interpunham na agitação causada pelo Benfica dentro da grande área, mas eram incapazes de aliviar o perigo. Perante a insistência de Leandro Barreiro, autor do segundo golo, mais difícil ficou. Pavlidis, de grande penalidade, também ajudaria a evidenciar a superioridade.
O Benfica tem uma identidade muito transparente. Cheio de virtudes e melhorias, a Luz ansiava por uma equipa que lhe enchesse o ego com algo mais do que vitórias. Do mesmo modo, os defeitos também estão à vista.
Criando pouco, o Aarhus conseguiu com poucos toques adiantar-se no terreno. Lenglet foi brando no alívio ao cruzamento vindo da esquerda. A passividade e distância dos médios permitiu que Jacob Andersen tivesse tempo de pensar e dar a Sebastian Jorgensen a chance de fazer um remate sem grande pressão que acabou dentro da baliza de Samuel Soares.
Na segunda parte, o Benfica esqueceu-se do carregador e a eletricidade não foi a mesma. Entre o ritmo mais lento na circulação da bola e um adversário que tomou a inteligente opção de não se autodestruir, a satisfação com os dois golos de vantagem sobressaiu.
Schjelderup, o veículo ligeiro que no banco do Benfica é um peso pesado, prometeu aquilo que entregou. Mal entrou, o norueguês abanou de imediato a oposição e proporcionou uma defesa relevante a Mads Hedenstad. Já com o regressado Aursnes em campo, os minutos finais foram de retoma do sufoco, tendência à qual o impulso de Durán ajudou.
O Benfica está muito confortável no play-off da Liga Europa, mas não construiu uma vantagem que lhe permita ir à Dinamarca com o mesmo à vontade com que foi à Escócia, durante a eliminatória com o Hearts. As sensações seguem imaculadas.
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