Crónicas de jogos

Frente ao Alverca, o Sporting respirou. Mas as dores de crescimento ainda se sentem

Maxi foi capitão e marcou o primeiro golo do Sporting na vitória por 3-1 frente ao Alverca
Maxi foi capitão e marcou o primeiro golo do Sporting na vitória por 3-1 frente ao Alverca
NurPhoto

Notaram-se algumas melhorias neste Sporting em processo de revolução na vitória por 3-1 frente ao Alverca. Mas mantêm-se problemas de identidade, de gestão dos tempos, de posicionamento de alguns jogadores e do seu próprio entendimento do jogo. Ainda há muito para crescer em Alvalade

Há uns anos (valentes) pediram aos adeptos dos Philadelphia 76ers que confiassem no processo. Mais de uma década depois, está por saber se a paciência dos adeptos foi devidamente recompensada. É certo que no próximo ano Lebron James jogará em Filadélfia, mas olhando para cima, para o teto do pavilhão despido de estandartes com títulos de campeão, terá valido a pena?

O Sporting está no início de um processo. E Rui Borges pede paciência. Os problemas vão existir, os erros, as desconfianças farão uma pouco desejada aparição aqui e ali. Mas assim são os processos. Ainda será cedo para o julgar na sua plenitude. Ao terceiro jogo do campeonato, o Sporting talvez tenha dado os primeiros passos de confiança nesta caminhada revolucionária. A vitória por 3-1 frente ao Alverca, segura no resultado, alicerçada numa 2ª parte mais atenta do que as das jornadas anteriores (o golo do Alverca surgiu já nos minutos finais), atesta algumas melhorias. Mas as dores de crescimento ainda se sentem.

Fosse por experiência, gestão ou aborrecimento, Rui Borges deu desde logo uma guinada no processo, mexendo praticamente em toda a defesa: entraram Fresneda, Debast e Ba, saíram Vagiannidis, Quaresma e Inácio. Maxi Araújo surgiu como capitão. Depois de quatro golos sofridos em dois jogos, ainda não foi desta que a baliza do Sporting ficou a zeros, mas Debast deu saída; Ba, algo inseguro ainda com bola, foi crescendo, a roçar a perfeição nos lances de antecipação, entregando o físico à capacidade de limpar lances.

Daí para a frente, o Sporting manteve, pelo menos, a ideia, com mínimas diferenças. Luis Suárez foi titular no lugar do lesionado Ioannidis. Flávio Gonçalves e Zalazar iam trocando de flanco. O Sporting marcou cedo, logo aos 2 minutos, por Maxi, a recuperar duas vezes e a rematar finalmente em arco à entrada da área, colocadíssimo. Mas os problemas de outras lides mantiveram-se.

Boa estreia de Ibrahima Ba no eixo da defesa do Sporting
Gualter Fatia

Se Altimira parece adaptado ao seu papel de primeiro médio, Doumbia continua em busca da sua personalidade dentro do processo atacante dos leões - na defesa, o seu porte ajudou com um par de desarmes. Zalazar voltou a fazer jogo pobre, trapalhão com bola, com dificuldades em entender o momento defensivo da sua equipa, ajudando pouco nas dobras aos laterais. Nem parece o mesmo jogador da pré-época, até da jornada de estreia, na Amadora.

Nada disto ajuda o Sporting no seu desiderato último: tornar-se uma equipa impositiva, coesa, capaz de gerir o jogo com bola. O caminho até lá chegar, o tal processo, parece ainda bem longo.

Tal como no Dragão, o Alverca entrou pressionante e o Sporting sentiu, nos primeiros minutos, grandes dificuldades para ultrapassar a primeira linha do adversário com uma jogada simples e limpa. A bola passou muito tempo nos pés dos ribatejanos, porém, sem Chiquinho, castigado, a equipa de Sérgio Ferreira foi bem mais inofensiva do que frente ao FC Porto na hora de lançar ataques. O Sporting não o era menos. Depois do golo, logo a abrir, os leões só voltaram a criar perigo já perto do intervalo, com um remate de meia distância de Flávio Gonçalves.

A 2ª parte de Sporting foi, no entanto, diferente em termos de atitude face aos dois primeiros jogos do campeonato. À terceira já não havia desculpas. Ajudou o crescimento de Ibrahima Ba atrás, com uma presença física impressionante que nem Inácio nem Quaresma oferecem. E ajudou Matheus Mendes na baliza do Alverca, a trazer alguma tranquilidade ao auditório de Alvalade quando abordou mal um cruzamento atrasado de Geny - excelente a ultrapassar Isaac James na linha -, colocando a bola dentro da própria baliza.

Luis Suárez voltou a marcar pelo Sporting
LUIS FORRA

Minutos depois do 2-0 veio, quiçá, um primeiro momento de reconciliação entre adeptos e Suárez: o colombiano partiu adiantado, mas ainda antes da linha de meio-campo, para alcançar um passe de Geny. Contornou Matheus Mendes e fez o 3-0. Mereceu palmas.

Com 3-0 no marcador, Rui Borges lançou Irankunda, mas mesmo com o jogo a ameaçar partir-se, o australiano ainda mostrou pouco. Aos 89’, o Sporting desbaratou a oportunidade, emocionalmente importante, de manter a baliza de Rui Silva a zeros, com Figueiredo a rematar de ângulo bem agudo para o 3-1 - o leão deu espaço em barda à entrada da área para o Alverca desenhar o seu ataque, ainda nem tudo são rosas.

Estará por isso ainda longe esse Sporting sem dores de crescimento, essas dores que Rui Borges quer ver rapidamente dissipadas. Falta ainda personalidade a meio campo, que estes jogadores se conheçam melhor. Uns aos outros e a eles próprios. Mas num Sporting que definitivamente perdeu finura técnica e capacidade de tratar bem da bola, o processo vai ser mais lento do que se podia, a certa altura, pensar.

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