Não houve um Benfica de experiências, de novas soluções, de tentativas. A vantagem era segura, mas não certa. Talvez Marco Silva trabalhe ainda nas fundações, querendo-as sólidas e plenas. E, por isso, o Benfica que jogou em Randers frente ao Aarhus foi o Benfica mais forte, o Benfica que tem crescido com a temporada.
Ainda não foi desta, portanto, que Schjelderup saltou para o onze. Parece quase um sacrilégio ter um jogador destes apenas como arma para a 2ª parte, mas sacrilégio mais parece afastar do seu local do recreio preferido o jogador que tem pincelado com magia um ataque que, diga-se, já é feito de muito mais do que fogachos individuais.
Mas, ainda assim, como não falar de Prestianni, deste início de época de Prestianni?
Há jogadores que se fazem em banho-maria. O argentino, conseguiu ser um desses, conseguiu finalmente encontrar o seu lugar entre as expectativas de um menino que aos 16 anos se passeava pela cancha do Vélez e a sempre difícil transição para a Europa. Esta noite, na Dinamarca, foi mais uma vez decisivo: um golo antes dos 20 minutos quase traçou o destino do Aarhus (e do Benfica), apanhando na esquerda um lance feito na direita, uma bola de Rafa que passou toda a área até chegar aos pés do argentino. Um toque de um defesa dos nórdicos ajudou ao desfecho.
Seria dos seus pés que sairiam alguns dos detalhes mais deliciosos, como a bola que picou para a entrada de Leandro Barreiro, pouco depois, com o luxemburguês a chegar atrasado ao lance. E ainda antes do intervalo mais um remate seu quase aumentava o pecúlio encarnado, depois de mais um bom entendimento entre Pavlidis, Rafa e o argentino.
Mas nada disto nascia apenas por geração espontânea. Mesmo não criando tanto como no jogo da 1ª volta, o Benfica ia repetindo os seus movimentos de ataque já bem oleados, trocando com facilidade entre os três corredores. Pavlidis tudo liga, Rafa parece outro jogador, agressivo e reativo à perda. Assim, é sempre mais fácil o individual aparecer, sem sequer ofuscar a equipa.
Na 2ª parte, o Benfica chegaria com facilidade ao 2-0, numa jogada em tudo idêntica à do primeiro golo, mas variando os flancos: Prestianni serviu a entrada de Dahl e o cruzamento rasteiro passou toda a área até chega a Rafa, na direita. Aqui nem houve colaboração de um adversário, a bola seguiu direitinha para a baliza.
Logo de seguida, talvez o único momento de fazer Marco Silva coçar a cabeça. Na tentativa de sair para o ataque, Tomás Araújo passou para Sudakov que, como que ausente, se deixou antecipar por Rasmus Cartensen. O jogador dinamaquês, após a recuperação alta, rematou ainda fora da área, com a bola a bater no calcanhar de Dahl antes de fazer um chapéu caprichoso a Samuel Soares.
Estará aqui uma das interrogações deste ataque encarnado, que parece em tudo o resto tão bem calibrado. Sudakov, apesar da insistência de Marco Silva, não poucas vezes parece um corpo estranho, uma pedra na roldana. Esta noite, voltou a ser o mais apagado dos elementos do Benfica, com o treinador a substituí-lo pouco depois por Gonçalo Moreira, quiçá à procura de outras soluções. Ou apenas de espicaçar o ucraniano.
Com mais ou menos Sudakov, o certo é que nem deu tempo para o golo do Aarhus assustar. Porque de novo apareceu o génio de Prestianni. Segundos depois, num lance que começa no pé esquerdo de Lenglet, uma arma importante para o ataque encarnado, a argentino segurou com um pé na quina da área, aproveitou o arrasto criado por Dahl e rematou com o outro, com a bola a entrar no ângulo da baliza dos dinamarqueses.
Estava tudo definitivamente resolvido. Schjelderup entrou, Prestianni saiu pouco depois, e o Benfica continuou a ser perigoso por aquele lado esquerdo, onde moram as suas principais armas. Será um berbicacho para Marco Silva resolver, um bom berbicacho. Circati ainda se estreou, sem oportunidades para se mostrar, tão inofensivo que era o Aarhus, que nunca foi, apesar dos dois golos marcados, um rival à altura de evitar o inevitável: a caminhada foi longa, mas o Benfica vai mesmo, e de forma mandona, estar na fase de liga da Liga Europa.