O Sporting e o seu não-assunto saíram de Vila do Conde com a barriga cheia
Luis Suárez, de olhos fechados, abraçado a Fresneda e Flávio Gonçalves após marcar um dos seus golos ao Rio Ave
FERNANDO VELUDO
A história da visita dos leões ao Rio Ave concentrou-se na primeira parte do jogo: marcaram quatro golos que podiam ter sido cinco, dois deles (e o melhor) vindos de Luis Suárez, o jogador muito falado e discutido que Rui Borges disse não ser um tema. O Sporting goleou (0-4) em Vila do Conde, foi extremamente eficaz e, ao contrário de outras núpcias, conseguiu depois controlar as operações. Pela primeira vez esta época manteve a sua baliza a zeros
Nem cinco minutos havia, Vila do Conde tinha as cores do lusco-fusco, quando o Sporting se instalou no meio-campo contrário pela primeira vez. O jogo tinha demorado a desemaranhar-se daquela balbúrdia inicial, os chutões e as segundas bolas. Inclinado à esquerda, aberto Maxi Araújo como um extremo, empurrou Flávio Gonçalves a ir espreitar por dentro, no espaço entre o central e o lateral enquanto o manso Rio Ave, a marcar Issa Doumbia com os olhos, deixou o italiano receber, rodar, olhar para diante e rasgar o passe rasteiro.
Cedo Flávio aproveitou a nesga e marcou (5’), rápido ergueu os braços a clamar por perdão: nasceu em Mantes-la-Jolie, não longe de Paris, mas vindo para Portugal foi o Rio Ave que acolheu os seus pontapés na bola em criança. O pedido desculpa veio da memória. Na do reformulado Sporting desta época ainda não constava um golo assim, paciente, originado não por um ataque rápido após roubar a posse e ir logo para a frente, antes por uma jogada em ataque organizado. E com ele, o miúdo Flávio, farol de calma neste versão vertical e com pressa da equipa.
Sem alguns dos pés de caxemira que se foram embora, este diferente Sporting, carente ainda de tempo para os jogadores se enturmarem, convida os adversários a pressioná-lo. Lesto após ter visto o desconforto nas partidas anteriores, o Rio Ave caiu sobre os visitantes, quis pressionar alto, logo nos defesas centrais; era a equipa mais premente nesse capítulo. Sem retirar grandes proveitos, viu os leões aproveitarem a nova costela da sua programação.
Do ato ladrão de Flávio Gonçalves, esforçado a defender como delicado é a aplicar a sua técnica a atacar em espaços curtos, a bola ficou para Doumbia correr com ela, galopante a carregar o contra-ataque até soltar em Geny Catamo. À direita da área, o moçambicano golpeou o remate olhando para o contrapé do guarda-redes Ennio van der Gouw: o golo (16’) entrou juntou ao poste mais próximo, não no mais distante, onde é vício tentar-se finalizar. Um Sporting fluído, bastante menor em atravancanços vistos nas partidas anteriores, marcava nas duas aproximações à área que teve.
Flávio Gonçalves com a bola no relvado de Vila do Conde durante o Rio Ave-Sporting
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Repetiu a graça na terceira, implacável a usufruir das várias perdas - más receções, precipitações, quererem virar-se à força para a baliza - dos atacantes do Rio Ave. Reavista a bola, os leões aceleraram a reação pelo centro, trocaram uns quantos passes, Flávio Gonçalves picou para Geny que em posição semelhante viu o seu remate ser desviado para a barra; e o ressalto sobrou para um “não-assunto”. É como Rui Borges chamou a Luis Suárez, um não-assunto, quando lhe perguntaram sobre os rumores acerca do colombiano, autor do terceiro golo (26’) no meio da esventreada defensiva dos anfitriões.
Talvez por demasiado sede ao ver pote tão cheio à vista é que Rodrigo Zalazar, na quarta chegada do Sporting à baliza, não marcou o que seria o mais fácil dos golos: depois do deambulante Suárez, mexido bem para lá das imediações da área, tentar descobrir Catamo com um passe longo, Van der Gouw saiu dos postes, cortou a tentativa, mas deixou a bola viva fora da área, onde o uruguaio a surripiou com um toque suave. E com o alvo escancarado, mais à mercê era difícil, bateu forte e por debaixo da bola que tornou um balão. Saiu de vista para ir à procura do rio Ave.
Era a segunda vez em quatro jornadas que o Sporting festejava três vezes antes do intervalo (antes, contra o Vitória, em Alvalade). Pouco demorou até ter o seu quarto ato, este o mais súbito a plantar a chuteira no acelerador. O Luis Suárez sem trela, deixado livre para participar mais atrás na jogada, tinha a bola antes da linha do meio-campo, com ela quase a passo, quando de repente pediu uma tabela a Flávio Gonçalves. Mudou de velocidade, carregou no pedal, correu para a beira da área, deu o passe em Maxi Araújo e, de primeira, rematou a devolução com estilo, pintando um efeito ao disparo. O melhor dos golos (37’), todo um assunto por si só, obrigava este jogo a ser outro assunto.
Um aglomerado de 11 homens no campo, desgarrados e sem nexo a uni-los, o caótico Rio Ave teria de reagir de alguma forma. Demonstrar algo além de iniciativas isoladas de Tumble Monteiro ou Diogo Bezerra contra um compacto Sporting, sem pudores em defender-se num bloco onde os médios vigiavam mais de perto os centrais. Tinha um propósito: poupar Zeno Debast e, sobretudo, Gonçalo Inácio, valiosos na saída de bola, a entraram desamparados em duelos e a cobrirem muito espaço. A equipa não os quis expor - na verdade, ninguém no relvado parecia capaz de o fazer. Mas os leões eram cautos a precaverem-se.
Luis Suárez a arrancar com a bola no lance que resultou no quarto golo do Sporting frente ao Rio Ave
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No resto do tempo, muito se viu a bola nos pés de ambos. Tímido o Rio Ave na pressão, já não valente como durante o caos que o castigou com tantos golos, o jogo abrandou também pela vontade do Sporting, desejoso de o manietar com outro ritmo. A noite pôs-se a jeito para testar a fibra da equipa que no primeiro e segundo atos deste campeonato deixara os adversários ressuscitarem na partida.
Os leões tornaram-se vagarosos, quiseram alongar-se com a bola, tê-la mais tempo. Mais encolhidos os vila-condenses, as jogadas do Sporting conheceram maior esperança média de vida sem que tal significasse ameaça para a baliza. No conforto de Zebast e Inácio a construírem a três - Fresneda mantinha um posicionamento baixo, sobretudo, ou Altimira recuava -, Rui Borges procurou um ligeiro desconforto, trocando Flávio Gonçalves com Zalazar, indo o português para a direita e ficando o uruguaio a saborear a esquerda. A mexida beneficiou nenhum. E o jogador comprado ao SC Braga, apesar de com melhorias, ainda nem num encontro destes, com a equipa tão superior, deixou de ser um corpo inconstante e de fogachos.
Feita a hora de jogo o treinador dos leões colocou a moeda no carrossel das substituições. De uma vez entraram Luís Guilherme, Silas Andersen e Fotis Ioannidis, ficando o grego em simultâneo com Suárez. O colombiano passou a baixar ainda mais para ligar passes com os médios, esbracejando até para instruir os outros por onde se havia de jogar. Igual fez o desamparado Sotiris Sylaidopoulos, treinador grego do Rio Ave de cujas mexidas apenas uma abanou um pouco com a pobreza da sua equipa: Malik Sellouki, marroquino nascido em França, estreou-se com o seu pé esquerdo com genica para espevitar tabelas.
Subjugado pela primeira parte, o jogo já tinha a sua história. Ainda se viu também um pouquinho de Nestory Irankunda para sentir a bola aqui e ali, ao ralenti, sem o contexto para se ver a potência e o arranque que tem. O Sporting levou um 0-4 da visita a Vila do Conde, quádruplo em golos como que sinal para ser à quarta jornada que finalmente conseguiu manter incólume a baliza de Rui Silva, um incógnito espetador. O assunto deste jogo foi esse. O não-assunto ainda saiu nos derradeiros minutos, pelos vistos prestes a ser como Rui Borges lhe chamou - já quase não se ouviram assobios à sua presença em campo.