Crónicas de jogos

O FC Porto ganhou à sua maneira: ninguém lhe marca um golo

Os dragões a celebrarem o primeiro golo, de André Silva: a equipa marcou três com os três remates que fez na primeira parte contra o Académico, em Viseu
Os dragões a celebrarem o primeiro golo, de André Silva: a equipa marcou três com os três remates que fez na primeira parte contra o Académico, em Viseu
NurPhoto

Os dragões não quiseram perder tempo. Entraram embalados no bonito e composto Estádio do Fontelo, asfixiando o Académico junto à sua área para marcarem cedo. O FC Porto marcou nos três remates que fez na primeira parte para, na segunda, gerir a vitória (0-3) e garantir os 12 pontos em quatro jornadas. A equipa de Farioli jogou como o treinador dissera: “Com controlo, sem sofrer golos.” A sua baliza continua incólume esta época

O FC Porto ganhou à sua maneira: ninguém lhe marca um golo

Diogo Pombo

Editor de Desporto

Há que saudar o Fontelo, ou antes Viseu, primeiro que tudo é o que há a constatar deste jogo: as bancadas atravancadas de gente caseira, vestida de preto ou de branco; as gargantas barulhentas; o relvado um primor deslizante, impecável na ausência de remendos; depois o corredor por onde passaram os jogadores, esconso e apertado; no horizonte as copas de arvoredo, robustas de verde, a cercarem o estádio sob o céu de azul-choque. Até a natureza quis embelezar o parabéns devidos ao palco a resplandecer com vida de quem é da terra e vai à bola apoiar o clube da terra.

A confirmá-lo escutou-se quase nada, um esgar de silêncio no estádio, quando o embalado FC Porto e marimbado quanto a ter cerimónias em casa alheia arrancou o jogo indo com tudo para cima do Académico. Projetou os seus extremos, encostou os médios à área, atacou por fora e atravancou o adversário contra a sua própria área com sucessivas recuperações de bola imediatamente após a perder. Foi um sufoco, com o calor então imagine-se; ajudou a secar ainda mais as gargantas quando André Silva emendou (5’) na pequena área o cruzamento rasteiro de Pablo Rosario.

Nem um segundo tinham os jogadores do Académico para decidirem, quando mais matutarem, o que fazer à bola. Asfixiantes na pressão, ligados à corrente com alta voltagem, os dragões amainaram o ritmo, zelosos do domínio das operações que diz tanto ao coração de Francesco Farioli, como ele o disse - “Estamos aqui para ganhar à nossa maneira, com controlo” - e tal e qual a equipa o grita, constante, jogo atrás de jogo.

Findo o primeiro quarto de hora deste, já a dança da Terra movia a sombra do poste de iluminação no campo como nos futebóis do antigamente e o Académico lá conseguiu ter a bola nos seus centrais. Deles a passava para os laterais, destes às vezes para os extremos mas raramente ligava Lorougnon Gohi ou de João Guilherme com os seus médios dentro da metade do FC Porto. A pressão dos campeões nacionais recuara uns metros, não assim tantos. E a do Académico, moldada ao que se sabem ser as manias dos dragões, preocupada em fechar o acesso ao primeiro médio (Rosario), deixou que Kiwior e Bednarek se demorassem com a bola.

Gabri Veiga a bater em jeito na bola que daria o segundo golo dos dragões contra o Académico, em Viseu
PAULO NOVAIS

Não importunado ao caminhar com ela, o mais velho dos polacos, olhando para longe, meteu um passe transatlântico para Pepê o amortecer de cabeça, a jeito da chegada do prático Gabri Veiga: dois toques, receção orientada e remate. Saiu-lhe o golo (20’) curvado com jeito à entrada da área, eficaz como a equipa - um par de remates, dois festejos. Ficou já com três o galego neste campeonato, a prosperar agora sem Rodrigo Mora a espreitar por atenção na sua sombra.

Foram também sombras que o Académico perseguiu até à meia-hora no relógio, quando o calor deu uma pausa para hidratação. O turco Cihan Kahraman pontapeara um livre direto que se aninhou nas luvas de Diogo Costa, o fino pé esquerdo do alemão Soufiane Messeguem conhecia mais da bola, mas ambos pouco ou nada jogavam dentro do bloco de um FC Porto. Em paz com permitir maior posse aos onze tipos com outra camisola, a equipa pode abrandar, pode recuar as linhas, e nem por isso fica menos perigosa.

Bastou o Académico atrever-se na pressão, avançando para chatear o adversário no início da sua construção de jogadas, para os dragões à mínima aberta se eletrificarem: Martim Fernandes acelerou pelo centro com a bola no pé, passou à descida em apoio de André Silva que tocou de primeira em Froholdt, de frente para o campo onde corria Gabri Veiga no espaço pela esquerda. O espanhol, perto da área, tocou quase sem olhar mas sabedor da chegada de William Gomes do outro lado. O terceiro golo (38’) foi de equipa automática e telepática, apressada também: os jogadores correram mais rápido do que as suas projeções postas na relva pelo sol que encandeava quem os via dos banco de suplentes, onde mãos faziam telhados sobre os olhos para tentarem ver para o relvado.

A segunda parte espreguiçou-se com o Académico a acentuar-se na bola, um pouco mais da predominância com que já se vira aquando do intervalo. Como em tantas outras partidas, era uma ilusão, um prazer meio que consentido.

O banco do FC Porto no Estádio do Fontelo, em Viseu, com uma das bancadas por trás
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O jogo adquiriu tiques de pachorrento e foi-se jogando a um ritmo mais brando. Luís Silva, canhoto na base do meio-campo e das posses do Académico, apareceu mais, participou com espaço, mas nada os anfitriões criavam que alcançasse André Clóvis, avançado de 79 golos pelo clube. O FC Porto cerrava o seu bloco, nada permitia que lá entrasse, os de Viseu iam tendo a bola e os passes até ao inevitável momento em que eram forçados a jogá-la longa para a perderem - uma e outra vez. Honrando a reputação de Viseu, o jogo assemelhou-se a um carro a rolar dentro de uma enorme rotunda, sem tomar qualquer saída.

Viram-se jogadas de passe curto, de trás, do Académico cheias de pés e cabeça, a ostentar a técnica dos seus jogadores e da ideia de Bruno Pinheiro, treinador amigo de Farioli pela coincidência que partilharam no Catar, onde trabalharam na Aspire Academy. Saberia o português que a equipa a mando do italiano congelaria tudo se cedo passasse por cima da sua. Entrariam Borja Sainz e Hwang Inbeom, o costume nas três jornadas anteriores. Quase o espanhol repetiu outro hábito, o seu remate em arco acabou desviado pelo guarda-redes Ewerton.

Novidade só os minutos que Gabri Veiga jogou na direita do ataque, um 10 empurrado para um lado para fazer mesmo de extremo se houvesse quem julgasse ser uma malandrice tática de Farioli - não, a disciplina posicional do treinador manteve-se, Gabri manteve-se perto da linha lateral. Tranquila a partida, não se livrou o FC Porto de preocupações. Ainda na primeira saiu o lesionado Zaidu, o intervalo levou um Bednarek também mazelado, na segunda metade viu-se Alberto Costa a coxear e Martim Fernandes a queixar-se de um mau jeito.

Bonito de se ver só um remate acrobático, todo ele horizontal no ar, de João Guilherme do Académico no golpeio a um cruzamento, além de um matreiro desvio de Alejandro Mestanza a outro, que atirou a bola contra a barra da baliza. Posto a dormir o jogo, com a persiana do sol a fechar-se e a pintalgar com tom laranja a sua tela - o bonito Estádio do Fontelo, que esteve quase 40 anos longe da primeira divisão -, à ficou a dever o FC Porto o cumprimento sem espinhas de uma vitória ao seu gosto. “Com controlo, sem sofrer golos”, dissera Farioli na véspera. Foi outro jogo assim, mais um. É moda: ninguém marca aos dragões.

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