Crónicas de jogos

A Luz abraça João Palhinha e acentua a alegria renovada do Benfica

A equipa do Benfica festeja o golo de Lenglet
A equipa do Benfica festeja o golo de Lenglet
MIGUEL A. LOPES

Na estreia do reforço que já foi campeão pelo grande rival da cidade, as águias derrotaram (2-1) o Estoril. Uma exibição de domínio claro só foi beliscada nos derradeiros minutos, quando a até então inofensiva equipa visitante conseguiu reduzir e manter a incerteza até ao fim

A Luz abraça João Palhinha e acentua a alegria renovada do Benfica

Pedro Barata

Jornalista

Há uma certa tendência nesta madrugada do Benfica de Marco Silva para sofrer muito tendo permitido pouco. A equipa está bem, apresenta-se, por vezes, até pujante no ataque, domina quem está do outro lado, tem conseguido ditar as regras do que sucede no relvado. No entanto, chega a dar a ideia de que basta os adversários criarem meia oportunidade para que haja um golo.

É por aí que se começam a explicar os nove golos encaixados em nove desafios. É, também, uma forma de entender que a receção ao Estoril, que passou a maior parte da noite a perseguir o Benfica sem grande êxito, tenha terminado com incerteza quanto ao vencedor.

O relógio marcava 82 minutos quando Begraoui, goleador dos que só precisam de uma nesga para festejar, assinou o 2-1. Os visitantes apresentavam-se, até ali, como meras testemunhas da superioridade encarnada, mas diz-nos o futebolês que o 2-0 é um resultado perigoso, basta um lance para mudar tudo e por aí fora. Parecia haver tempo para apertos, mas não. Foi mesmo a primeira e única vez que os da linha chegaram com sobressalto cerca de Samuel Soares.

O restante jogo foi mais um passo na construção de uma equipa que vive otimista, de sorriso na cara. Com dinâmicas já bem vincadas, um bebé em tempo de treino junta, mas já um adulto em identidade. Voltou a marcar Pavlidis, que já vai em 11 vezes na temporada, Lenglet foi uma espécie de Sinisa Mihajlović francês no 2-0. Joel Robles, guardião do Estoril, despediu-se com seis defesas no seu pecúlio, seis vezes mais que o companheiro da outra baliza. O 2-1 foi, mesmo, um resultado mentiroso, magro para o que se viu na Luz.

Pavlidis festeja o 1-0
MIGUEL A. LOPES

O encontro nem arrancou especialmente bem para o Benfica, ou para um dos seus símbolos. A águia Vitória teve problemas no seu habitual voo pré-jogo, aterrando num lugar da bancada do estádio, em vez de no poleiro que lhe é destinado. A ave lá ficou, qual espectadora, confortavelmente no assento.

As dificuldades do animal não pressagiaram qualquer problema para a equipa de Marco Silva. O treinador aplicou uma camisola preta, calças pretas e ténis brancos, indumentária diretamente vinda do topo das preferências dos bancos na Premier League. O técnico já foi o special one da Amoreira, fruto dos feitos obtidos no Estoril, que representou durante quase uma década como jogador, primeiro, e como treinador, depois, levando os canarinhos à Europa.

Antes dos golos, veio a celebração da chegada do mais mediático dos reforços encarnados. Enzo, infeliz quando vivia um bom momento, saiu lesionado, entrando João Palinha. Fortemente aplaudido pelo público, mostrou o que pode dar quando fez um corte à Palhinha contra André Lacximicant, lançando-se ao chão, recuperando e festejando de punho cerrado. Confortável a policiar muitos metros de terreno à frente da defesa, o centrocampista ficaria perto do golo após o descanso, levando Robles a efetuar uma de várias boas paradas no desafio.

Até aos 40', a primeira parte dos locais nem foi ofensivamente brilhante. Sudakov acertou na barra em tiro desviado e pouco mais. Mas bastou uma bola perdida na área, um objeto saltitante sem dono, para Pavlidis se apoderar da situação, rodar, rematar e fazer o 1-0 na primeira finalização enquadrada do Benfica. Ainda antes do segundo tempo, Barreiro, Rafa e o mesmo Pavlidis ameaçaram dobrar a vantagem.

Palhinha estreou-se pelo Benfica
Gualter Fatia

O Estoril fez a curta viagem até à Luz na sequência de difíceis semanas de arranque de campanha, com apenas um ponto conquistado nas três primeiras rondas. A mudança de Ian Cathro para Vasco Matos é, olhando às apostas recentes de ambos os treinadores, como passar de um crente nos méritos do futebol ofensivo, nas virtudes de marcar sempre mais um que o adversário, para um profeta de um ADN mais defensivo, de atrito, como ir de um otimista idealista para um cru sofredor. A impressão inicial não tem sido feliz, com a terceira derrota seguida, desta feita com um modelo de três centrais.

O 2-0 chegaria num lance em que ninguém terá dado pela hipótese de surgir um golo. Lenglet caminhou, sereno e sem risco, com a bola, bem distante do alvo. Subitamente, mirou as redes e sacou uma bomba que deixou colegas com as mãos na cabeça. Golaço.

O último técnico do Estoril a pontuar em casa do Benfica no campeonato foi, justamente, Marco Silva, num 1-1 em 2012/13 que foi o prólogo de Kelvin, a igualdade que abriu portas ao descalabro de Jorge Jesus e terminou com a carreira de Carlos Martins no clube.

Nada desses traumas visitaram a casa das águias. Mesmo sofrendo perto do apito de conclusão da contenda, o sofrimento deu-se meramente pela margem mínima, não pela capacidade alheia em levar problemas para o setor recuado. Já com os cortes em carrinho de João Palhinha, o Benfica segue em evidente crescimento.

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