Crónicas de jogos

Vejam o sorriso de Luis Suárez, mas não se esqueçam do futebol de Luis Suárez, o goleador do Sporting que é muito mais que isso

E ao quinto jogo, Suárez sorriu
E ao quinto jogo, Suárez sorriu
RODRIGO ANTUNES

Frente ao Nacional, o colombiano voltou a marcar e, desta vez, fez questão de se mostrar feliz. O atacante fez o primeiro e assistiu Flávio Gonçalves para o segundo no tranquilo 2-0 contra o Nacional

Vejam o sorriso de Luis Suárez, mas não se esqueçam do futebol de Luis Suárez, o goleador do Sporting que é muito mais que isso

Pedro Barata

Jornalista

As horas e horas e horas de programas e reels e outros afins de 2026 têm de ser alimentadas. Não só se alimentam, como se retro-alimentam, geram temas para si próprios, temas que parecem não existir fora daquele universo de visualizações e clips de 25 segundos com frases fortes.

Bem, afinal, Luis Suárez está feliz ou não? Festeja os golos ou não? Dá-se com os colegas ou é aquele que fica excluído das festas e dos grupos de WhatsApp?

Claro que saber se o colombiano ficaria era um dos temas do verão do Sporting, visto estarmos a falar de quem marcou 38 golos em 2025/26. É evidente que a primeira imagem de Suárez na época, sem contribuir desportivamente, era preocupante.

Mas, a partir do momento em que Suárez começou a jogar, a partir do momento em que Suárez começa a jogar, mais vale mudar de conversa. Enche menos conteúdo e trechos da rodinha que tem sempre de mexer, mas isto é futebol e jogar futebol ainda é importante.

E Suárez joga muito futebol.

Marca golos, sim, mas faz mais que isso. Promove encontros com os colegas, junta-os como um íman, agrupa a equipa em torno da bola, dá tempo e espaço. Joga para os outros, facilita-lhes a vida, recua e descobre espaços.

Numa noite em que cedo se entregou à gestão perante um adversário muito frágil, o Sporting derrotou o Nacional por 2-0. Luis Suárez marcou o primeiro e mostrou um grande sorriso para as bancadas. Assistiu Flávio Gonçalves para o segundo e não sorriu assim tanto. Bem, os verbos que importam aqui são "marcar" e "assistir".

Suárez marca de penálti
RODRIGO ANTUNES

O Nacional apresentou-se em Alvalade dias depois de conquistar o título de equipa mais rápida a despedir um treinador. João Gião, antigo líder da equipa B do Sporting, teve quatro jogos para chegar a um clube novo, substituir um técnico com contornos de milagreiro que estava no cargo há três anos e, magicamente, somar mais do que os quatro pontos que obteve. Foi Bruno Abreu, interino, a sentar-se no banco. Os madeirenses só incomodaram Rui Silva através de dois remates de longe, podendo ficar felizes pela margem da derrota ter sido relativamente pequena.

Perante uns visitantes encolhidos, os locais não demoraram a instalar-se perto da baliza adversária. O cerco foi, ainda assim, complementado por artilharia de larga distância, com Geny, Zalazar ou Maxi a tentarem finalizações de longa distância. Na baliza insular, Renato Marin, guardião que na época passada chegou a fazer três desafios pelo colossal PSG, ia mostrando qualidade. Efetuou seis defesas no total, várias delas de dificuldade elevada.

Se o Sporting é uma equipa carregada de novidades, de gente e até características novas, há algumas marcas do passado que não saem, memória muscular que permanece. Geny Catamo mantém-se o desequilibrador que vem da direita para o centro, Maxi Araujo o lateral que acaba a jogar como médio, como avançado, como o que for. Os dois, lateral pela esquerda e extremo pela direita, combinaram pelo centro para conquistar um penálti para o Sporting.

Suárez converteu o castigo máximo no 1-0. E sorriu. As pazes, no futebol, selam-se com golos, os assobios passam a palmas com resultados. Não tem grande ciência.

Flávio e Suárez, a dupla do 2-0
RODRIGO ANTUNES

Outro ponto do outro Sporting que fica neste Sporting é a classe de Zeno Debast, um central com pés de bailarino e precisão de cirugião. Sobra ao belga qualidade com bola e foi esse perfume que levou a um passe com GPS para a desmarcação de Luis Suárez. O colombiano, goleador que olha para a equipa tanto como para a baliza — eis uma equipa de fingidores, o central que constrói, o lateral que passa a extremo, o ponta de lança que assiste —, serviu Flávio Gonçalves para o terceiro golo do petiz no campeonato.

Criticado na época passada por, alegamente, ter gerido de forma errada o desgaste dos seus homens, Rui Borges aplicou o modo poupança aos 67'. Indiferente aos traumas do desperdício de vantagens, não querendo saber dos universalmente conhecidos perigos do 2-0, o transmontano tirou Suárez, Zalazar e Geny, seguindo-lhes, uma dezena de minutos passada, Maxi Araujo. Na quarta-feira há Galatasaray em Alvalade.

Com o Nacional incapaz de responder, os derradeiros instantes tiveram uma curiosa luta de Fotis Ionnidis contra as teimosias do golo. O grego tem qualidade, mostrou-a várias vezes, mas a falta de pontaria ou a barra impediram o 3-0. A noite seria de Suárez, o goleador que joga muito. E sorri, às vezes.

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