O FC Porto com Diogo Costa aguenta com tudo, menos com Haaland
Erling Haaland, agora de cabelo rapado, a saltar para o primeiro dos seus golos marcados ao FC Porto: aos 26 anos, o norueguês já tem 59 feitos na Champions
Clive Brunskill
No regresso à Champions duas épocas depois, os dragões mostraram a equipa de autor que são, com a pressão alta que chateou o Manchester City e as saídas de trás padronizadas que os levaram até ao meio-campo adversário. Mas, depois, faltou-lhes fogo na frente para definir as jogadas e também baliza (zero remates enquadrados). Sobretudo, faltou controlar Erling Haaland: marcou os dois golos que derrotaram (0-2) o FC Porto. O norueguês foi o único a manchar a muralha de Diogo Costa, o melhor dos portistas
Há uns anos, que já são muitos anos, tivemos um avançado a reagir com indiferença ao “Buffão”, apelido de lenda dito com sotaque e ar de somenos por André Silva. Passou quase uma década, o FC Porto joga a Champions e como o futebol teima em ser elíptico, ou então somos nós a vislumbrar coisas onde elas não existem, tivemos agora um guarda-redes a agigantar um marcador de golos. Pareceu fazer o contrário, fez o mesmo: com igual pronúncia do norte, Diogo Costa elogiou Erling Haaland enquanto encolheu os ombros com a voz, apologético mas não tanto.
Foi-o mais do que o arranque do FC Porto, bravo e inchado de peito, decidido a pressionar o Manchester City a todo o campo. Inerte a estatutos, a marimbar-se para o poderio de nomes ou de carteiras, a equipa de Farioli empurrou cedo o jogo para a disputa de duelos, marcações ao homem, ver quem apertava mais aqueloutro, como William Gomes. O brasileiro era flecha disparada de arco quando Josko Guardiol, o lateral esquerdo, recebia um passe, pressionando de dentro para fora ainda nem o croata tinha a bola no pé. Havia um anfitrião antipático no Dragão.
Ajudado pela chuva caída durante o aquecimento, o jogo assentou o seu contraste num ritmo veloz. Do FC Porto viu-se método e mecânica, com saídas da área fluidas na troca de posições entre Alan Varela e Pablo Rosario, aliada à atração que Alberto Costa e Martim Fernandes faziam por dentro, a criarem a dúvida nos adversários em movimentos coletivos para soltar um jogador com a bola, de frente para o jogo, enquanto outros serviam de apoios frontais. Durante mais de 20 minutos viu-se uma equipa já de autor, repleta de dedadas do seu treinador, fluída a encetar coisas ensaiadas.
Porém faltou-lhe baliza, curta em aproximações à área e boas decisões nos últimos 30 metros do ataque. Com o tempo o milionário City, vindo ao Porto com os €527 milhões gastos em compras. Mesmo farto em sintomas de Enzo Maresca ainda andar em apalpadelas com os jogadores que orienta pela ainda breve convivência com eles, os ingleses espreguiçaram-se da sua rígidez. Com extremos estanques junto à linha, todos jogando numa certa austeridade posicional de tu-aqui-tu-ali-fiquem-aí, só se fizeram perigosos quando alguém divergiu.
Rayan Cherki vigiado por Alan Varela e Gabri Veiga no Dragão
Clive Brunskill
Extremo à direita, Phil Foden viajou à esquerda para atacar aquele meio-espaço entre Nehuén Pérez e Alberto Costa. Recebeu de Semenyo, o outro extremo, dessa certa entropia pôde cruzar e o destino havia de ser a cabeça de Haaland. Aí o jogo ficou a conhecer o que nascera no pré-jogo. Diogo Costa agigantou-se, esticou o braço e negou o golo com uma senhora defesa, apequenando a cabeceçada de Haaland. Foi a primeira de várias do guardião que rima com capitão e com eternização.
Orgulho do clube e dos adeptos, na véspera dissera ficar de bom grado no Dragão para todo o sempre da sua carreira. Seria um homem feliz, acrescentara. E felizes são os que o têm, assim o provou quando o City se cravou no jogo com Ayyoub Bouddi, médio marroquino, e as suas corridas com a bola na fase em que a pressão portista esmoreceu, além dos toquezinhos entre linhas de Rayan Cherki, dono dos calcantes mais tecnicamente finos aos quais hoje uma bola se pode afeiçoar.
O argelino lançou Foden nas barbas de Martim Fernandes, distraído ao permitir que o inglês se desmarcasse pela sua frente e rematesse, na área, para Diogo Costa ir à relva dar uma palmada na sua tentativa. As bancadas reverberaram, não tanto quanto o fulgor ruidoso com que reagiram ao instinto do seu guarda-redes, quando o português domesticou os amores da plateia em seu favor: primeiro, felino se fez a Haaland quando o norueguês, de cabelo agora rapado, rematou à bruta na área com o seu pé esquerdo; e logo na recarga, também disparada a poucos metros, apressou-se a surgir no sítio exato da baliza para bloquear a emenda de Foden que parecia triunfal.
Depois de um par de jogadas do FC Porto frustradas por foras-de-jogo, e de uma cotovelada nos queixos de Gabri Veiga que enervou um pouco mais os adeptos pela vista grossa do árbitro, que nenhum cartão mostrou a Marc Ghéhi, o intervalo equivaleu a apoteose. Saía Diogo Costa de campo, saudado a meio-caminho por ambos os guarda-redes suplentes, e a música vinha das palmas a ele dedicadas - o som do Dragão e das suas mais de 49 mil almas rendidas ao seu herói.
Haaland a erguer-se sobre Kiwior para cabecear a bola e marcar o seu primeiro golo ao FC Porto
JOSE COELHO
Mas de pouco lhe serviu, porque nada ele pôde ao terceiro enfrentamento com o “talvez melhor avançado do mundo”, que foi daqueles duelos desiguais onde as gentes pedem milagres ao homem com luvas. Após uma corrida de Foden a levar consigo a jogada do City, de uma entrada de Cherki na área para se evadir da mancha de Diogo Costa, o argelino tocou atrás, para Enzo Fernandéz; o argentino ergueu a viseira só para ver onde estava Haaland, picou a bola à cabeça do gigante e o seu dócil desvio, renegado a usar a força no cabeceamento que usou para enxotar Jacub Kiwior, ainda ressaltou na relva, devagarinho, antes do ricochete no poste (47’) dar golo. E silêncio, do estádio nem um pio.
O FC Porto reagiu pujante, com maior voltagem a inclinar-se adiante. Voltou a pressionar alto, deixou de perder tantas bolas após as recuperar, teve os laterais atrevidos a correrem pelas costas ou por dentro dos extremos. Do seu ADN veio uma ameaça, num canto que se mascarou como sendo à moda da Premier League, encafuando corpos na pequena área junto a Gianluigi Donnarumma, para enganar os adversários: a bola de Gabri Veiga caiu em Kiwior, fugido da confusão para desviar de cabeça, pedindo outro desvio que André Silva não deu por pouco. De uma faísca entre Pablo Rosario, a servir de apoio, e Alan Varela, embalado a aparecer de frente, o argentino curvou de seguida um disparo em arco pouco além do poste esquerdo.
Quando Maresca, o calvo sucessor da careca de Pep Guardiola, abdicou de ter a fantasia bípede de Cherki para ficar com três médios puros, entrando Elliot Anderson, a mais cara compra do clube que guardava no banco, os dragões iam marcando sem atacarem: no instante antes de ser substituído, William Gomes sprintou com tudo a pressionar um passe atrasado do inglês que custou €135 milhões, bloqueou o pontapé de qualquer maneira de Donnarumma, o ricochete quase entrou na baliza. Era a vez do FC Porto crescer, por obrigação.
Fatigado Phil Foden de tantas belas pinceladas dadas com o seu pé esquerdo, ora a amestrar passes que eram mais remates que lhe dirigiam, ou a ziguezaguear com a bola colada à chuteira, o City dependente ficou da vontade em congelar a posse de bola. Presa mais a jeito, se bem que nunca fácil, para a atlética pressão do FC Porto, o vice-campeão inglês apenas acelerava com Iliman Ndiaye, entrado para o mesmo papel que era de Antoine Semenyo. Fintar à pressa se não desse para cruzar à cabeça de Haaland.
Diogo Costa a ver a bola entrar na sua baliza no segundo golo de Erling Haaland
ESTELA SILVA
O FC Porto ligou jogadas de uma área à outra, as suas mecânicas davam para prescrutar as entranhas do City mas a equipa pecava no produto final. Despidos de rasgo na frente, sem um definidor de intenções pela finta, na tramóia técnica, ou com um golpe de asa inesperado, os dragões tinham o impulso, também um embalo, este de elogiar por surgir tão tarde no jogo - ajudou Seko Fofana juntar-se ao inesgotável Pablo Rosario. Faltou-lhes, contudo, quem desengatasse os nós no último terço, nos lugares até onde o coletivo oleado os levou. Uma limitação nunca será Diogo Costa, que nos entretantos afastou um remate de Anderson e encaixou um de Ndiaye.
Mas, já os descontos se contavam, e esbracejavam já vários jogadores portistas em frustração contra não darem a volta a um visitante à sua casa, o City reciclou uma bola parada, trocou passes área dentro e o FC Porto, desconjuntado por momentos, concedeu a pior das veleidades, deixando sozinho Erling Haaland, rato com o seu largo tamanho a recuar uns passos, dar-se a um passe atrasado e, de primeira, marcar o segundo golo (90’+1) usando a bota direita. E vão 59 na Champions para o avançado. Eram decapitadas ali as esperanças, mas ainda sobraram as cabeças do norueguês e de Pablo Rosario, ambas perdidas para uma barafunda entre os dois. Tiveram de ser separados, depois amarelados pelo árbitro.
Diogo Costa não perdeu a sua, erguida e de queixo alto após se esticar todo para negar um último remate de Enzo Fernandéz. Terminaria de cara séria, desgostado, ouvindo o Dragão a aplaudir a equipa apesar da derrota e sentindo os abraços (foram dois) de Haaland, goleador intratável tenha melena a roçar os ombros ou corte raso como na tropa. Era a perícia a reconhecer perícia.
No estádio não houve felicidade no final do regresso à Liga dos Campeões, um par de anos depois, não podia haver. A equipa teve os seus momentos, competiu, faltou-lhe calma nos últimos metros, também outra qualidade, e careceu de baliza: o FC Porto nem um remate lá acertou. As armas coletivas erigidas por Francesco Farioli levarão a equipa até certo ponto, mas as coordenadas mais difíceis, por defeito, nesta prova que logo nos primeiros 90 minutos duplicou os golos que a equipa sofrera nos anteriores 450. Dentro de portas o FC Porto pode bem, poder com a Champions é outra coisa.