Se havia traumas com Rio Maior, o FC Porto curou-os
Kiwior fez o segundo golo do FC Porto, aquele que colocou os dragões pela primeira vez em vantagem
Gualter Fatia
As bolas paradas, sempre elas, encaminharam a missão do FC Porto contra o Casa Pia (4-1). Os dragões alcançaram uma vitória robusta mesmo permitindo aos gansos serem a equipa mais criativa em campo. A imaginação ficou por conta de João Rego e Henrique Araújo, a realidade por conta de Diogo Costa. Desta vez, a invencibilidade não fica por Rio Maior
Foi uma noite chuvosa. O relvado estava empapado, absorto em água, e os sulcos foram-se abrindo com o passar do tempo. Os jogadores patinavam pela pista verde numa interpretação distópica do Lago dos Cisnes.
As memórias daquele dia de fevereiro ainda devem ser nítidas na cabeça do FC Porto. A quase incólume temporada 2025/26 ficou manchada de lama por uma derrota em Rio Maior. Só mais tarde, depois da pândega do título, os dragões voltaram a perder para o campeonato, contra o AFS. Os traumas também são um assunto de heróis. O que seria do Homem-Aranha ou do Batman sem eles?
Poucas conclusões puderam ser retiradas desse desfecho. A portentosa temporada do FC Porto continuou, enquanto o Casa Pia precisou do play-off de manutenção para se salvar. Foi graças à permanência dos gansos na I Liga que a equipa de Farioli teve oportunidade de se reconciliar com aquele estádio.
Inicialmente, os azuis e brancos exumaram algumas recordações do que ali se tinha passado anteriormente. “Vamos jogar com o Casa Pia de estômago vazio.” Aquilo que Farioli queria que fosse uma metáfora para a fome de vencer pareceu, por momentos, um sinal de fraqueza.
Os casapianos demoraram alguns minutos a passar pela sensação que se tem quando os olhos se adaptam à passagem brusca de um ambiente escuro para um cenário lustroso. A partir daí, sentiram-se confortáveis para ter bola. João Rego foi o calmante. Com as costas muito direitas, definindo bem os timings de condução e passe, deu compostura à equipa.
João Rego conduz a bola de cabeça levantada
Gualter Fatia
O posicionamento imprevisível de Henrique Araújo dificultava a perseguição de Kiwior e Bednarek. A veia associativa do avançado, evidenciada pelo espaço que lhe foi concedido, adicionou fluidez ao Casa Pia, que começou a ameaçar com um remate de fora da grande área de Mohamed El Boukammiri.
Situados em Rio Maior, era normal o desnorte dos portuenses. Afetado pela geografia, William Gomes fez um passe displicente para Alberto Costa. Henrique Araújo deslumbrou-se com a blandícia e atirou por cima.
Na época passada, o Casa Pia salvou-se no limite. Esta época, Filipe Coelho veio renovar as ideias no banco de suplentes e chegaram novos intérpretes. Porém, os gansos não se tinham encontrado com a baliza. Em cinco jogos, apenas um ponto lhes tinha caído na conta e ainda não tinham marcado qualquer golo.
A rejeição terminou quando Henrique Araújo colocou o Casa Pia em vantagem de grande penalidade. O notório alívio que se sentiu deveu-se à falta de Pablo Rosario sobre Selvi Clua.
O FC Porto também tinha chegado à baliza contrária, mas de maneira menos refinada. Logo nos minutos iniciais, um pontapé longo de Kiwior foi reciclado por Gabri Veiga. O espontâneo remate parou no poste.
Era visível a intenção da equipa de Farioli criar superioridade nos corredores através da aproximação dos médios interiores - Hwang Inbeom estreou-se a titular - e das ruturas dos laterais, sobretudo de Alberto Costa. O Casa Pia mostrou afinco nos acompanhamentos, algo para o qual contribuiu o conforto trazido pelo recuo de Selvi.
As bolas paradas são para o FC Porto um ato isolado. Não importa como está a correr o jogo, quando há oportunidade de cobrar um canto, os dragões parecem até planear o que não é planeável, como segundas e terceiras bolas levadas direitinhas até aos pés de alguém vestido de azul e branco.
Assim se fez a reviravolta. Ainda na primeira parte, André Silva foi o enésimo portista a tocar na bola dentro da área e conseguiu uma finalização limpa para o empate. Mais direto foi o cabeceamento certeiro de Kiwior para o 2-1.
O Casa Pia obrigou Diogo Costa a intervenções de grande nível
Gualter Fatia
É notável como em tão poucas ações, o guarda-redes do FC Porto consegue deixar tão evidente que é dos melhores do mundo. Bastava chamar-se Diogić, Diogov, Diogansson ou Dioguinho e estaria nomeado para os prémios internacionais que merece, mas sofre com a disparidade reputacional do campeonato. Talvez receba a Luva de Ouro quando tiver mais seguidores no Instagram.
O Casa Pia continuou a tentar a sorte. Selvi arriscou rematar da linha de meio-campo. Não foi um tiro desesperado. A trajetória da bola foi tensa e bem direcionada. Em marcha-atrás, Diogo Costa conseguiu voar para impedir o médio espanhol de estar presente na cerimónia de entrega do Prémio Puskás. Henrique Araújo, ganhando de novo espaço entre os centrais, também foi negado com categoria.
Com os esquemas táticos a não deixarem a reviravolta para demasiado tarde, o FC Porto teve uma segunda parte tranquila. Os passes longos de Kiwior voltaram a ter efeito. Khaly calculou mal a abordagem a um deles e Borja Sainz aumentou a vantagem. Já na compensação, Santiago Giménez abriu a corrida à luta pela titularidade e, tal como André Silva, marcou. O avançado mexicano foi derrubado por Ivan Mandić e ele próprio cobrou a grande penalidade.
Os dragões seguem imparáveis e vão chegar ao clássico contra o Benfica com tantos pontos quantos podiam ter ao fim de seis jogos. Ao contrário da época passada, a invencibilidade do FC Porto não fica por Rio Maior.