Crónicas de jogos

A tranquila regularidade de Altimira foi traída por Debast e o Sporting volta a perder pontos

Altimira desiludido no final do Sporting-Arouca
Altimira desiludido no final do Sporting-Arouca
Gualter Fatia

O Sporting estava a fazer uma das melhores exibições da época, com o espanhol em destaque no meio-campo, quando a expulsão do central belga, no início da 2ª parte, tudo mudou. De estar com dois golos de vantagem e a controlar o jogo, o Sporting viu o Arouca empatar (2-2) já nos últimos minutos e somou o segundo empate consecutivo

Um momento de cegueira no esclarecimento e uma noite que parecia até de um certo ressurgimento do Sporting terminou com mais um tombo. Os leões voltaram a perder pontos, pelo segundo jogo consecutivo, deixando-se mais uma vez empatar, desta vez frente ao Arouca, em Alvalade.

É difícil não olhar para a expulsão de Zeno Debast, aos 54 minutos, como o momento que tudo mudou. Até aí, o Sporting fazia uma das melhores exibições da época, uma reação aos pontos deixados em Famalicão, que impeliram Rui Borges a fazer ajustes que há muito a sua equipa pedia. À abordagem irrefletida de Debast seguiu-se um penálti cometido por Eduardo Quaresma, que tinha entrado para o lugar do belga. E na sucessão de precipitações veio o desmoronar do castelo de cartas leonino, num serão que se tornou leidemurphyiano. O Arouca, que mexeu bem depois dos disparates do rival, marcou dois golos nos últimos 10 minutos, atirando o Sporting para um início de crise.

Haverá, por certo, coisas boas a retirar de uma noite que foi do nível máximo de entusiasmo à depressão em poucos minutos. Rui Borges olhou para as últimas exibições do Sporting e mudou. Não foi uma revolução barulhenta e destrutiva, mas uma simples arrumação do xadrez: com um 4x3x3 mais assumido, viu-se Doumbia menos manietado na retaguarda, Zalazar mais livre e Suárez como o nove e meio que sabe ser.

MIGUEL A. LOPES

Mudanças cirúrgicas podem produzir grandes efeitos e a 1ª parte do Sporting foi francamente boa. Rapidamente encontrou soluções para a pressão à zona do Arouca, com os dois centrais construtores, Debast e, principalmente, Inácio, a encontrarem muitas vias para o ataque leonino, que cedo se pôr a ganhar. Aos 3 minutos, após canto curto, Maxi Araújo teve toda a paciência do mundo para fazer o cruzamento no momento certo, encontrando a cabeça de um Inácio sem marcação. Depois de dois auto-golos, um golo na baliza certa é o melhor bálsamo.

A estreia de Irankunda como titular valeu, essencialmente, pela liberdade que deu a Maxi para percorrer terrenos mais interiores e foi aí que o uruguaio quase marcava ainda antes do quarto de hora, após abertura de Inácio, com Suárez, sempre inteligente, a arrastar marcações para deixar o lateral solto. A tentativa de chapéu de Maxi é que saiu mais para sombrero.

O Sporting estava solto, estava bem. Altimira era o metrónomo, um espanhol que podia muito bem ser um relógio suíço, tal a regularidade, a leitura calma e tranquila, o acerto nas decisões e nos passes. Um elemento decisivo na descomplicação do jogo leonino, que apresentou novamente altos índices de qualidade no segundo golo, aos 17’, num lance em que Zalazar abriu para Geny, com o moçambicano bem a esperar pela entrada por dentro de Fresneda, que com um passe atrasado encontrou Suárez. O colombiano fez o 2-0, no sexto jogo seguido a marcar.

Mais do que o resultado, descansaria o auditório de Alvalade a firmeza e controlo do jogo do Sporting, algo pouco visto esta época. Viu-se finalmente Doumbia a surgir na área, Zalazar a dar opções nas alas. Altimira era o general, o homem que tudo parecia supervisionar com a sua serena segurança. A noite seria para ressuscitar a esperança numa equipa ainda em busca de uma identidade vincada.

Até que aconteceu Debast, um daqueles erros que estão acima de qualquer mudança, estratégia, tática, sistema. Um carrinho descontrolado sobre Rukavina, em zona que nem sequer oferecia perigo. Uma paragem no discernimento. Desde muito cedo na 2ª parte, Rui Borges colocou a equipa a jogar num 5x3x1 a defender, com Geny a baixar. Irankunda, que pouco ou nada acrescentou além de umas parcas acelerações, sempre em modo periclitante, foi o sacrificado. Silas Andersen entrou para reforçar o meio-campo. E até ao penálti de Quaresma, o Sporting conseguiu quase sempre gerir a inferioridade numérica. Quando não deu, estava lá Rui Silva para fechar a baliza.

Nandín a festejar o 2-2 em Alvalade
Gualter Fatia

A partir do primeiro golo do Arouca, por Fontán, aos 81’, tudo se desmoronou. O Sporting não mais conseguiu ter bola, entregou o jogo e as entradas de Ioannidis e Pedro Lima, para tentar recuperar a posse, vieram com minutos de atraso. Do outro lado, Vasco Seabra sentiu o cheiro a sangue: refrescou o ataque e, com tantos amarelados na defesa, o Arouca manteve um controlo emocional admirável, de forma a não devolver ao Sporting a desvantagem que o próprio Sporting, por erros individuais, é certo, criou.

E no final, a três minutos dos 90’, veio o golo de Nandín, num lance que o Arouca foi tentando ao longo da 2ª parte: cruzamentos largos para o segundo poste, massacrando um dos calcanhares de Aquiles do Sporting esta época. Acabado de entrar, o uruguaio apareceu em carrinho para fazer o empate e levar ao desespero Alvalade, que 45 minutos antes regozijava-se com um Sporting aparentemente mais afinado.

O desalento de Sergi Altimira, o melhor do Sporting, no final, de mãos na cabeça, diz tudo sobre a traição sofrida pelo médio.

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