Crónicas de jogos

Num Clássico sempre jogado a mil, o FC Porto aplicou o seu já habitual realismo

Frohold festeja o 3-1 no Dragão
Frohold festeja o 3-1 no Dragão
Diogo Cardoso

Foi um FC Porto-Benfica sem parança, feito de magia, erros, golos, método e ajustes. Um verdadeiro jogo de futebol. Os dragões marcaram primeiro e a expulsão de Lenglet, ainda na 1ª parte, condicionou parte da preparação do Benfica, que ainda empatou com 10, antes da equipa de Farioli terminar com qualquer reação. O 3-1 deixa o FC Porto com cinco pontos de vantagem na I Liga logo à 7ª jornada

Antes de falarmos de golos, vantagens e desvantagens, expulsões e o quanto elas poderão ter custado ao jogo, falemos de frescura. Da agradável aragem que é ver um jogo entre grandes neste retângulo não baseado totalmente no cinismo, na estratégia, no puro resultadismo. O que se viu no Dragão foi um puro jogo de futebol, com momentos mágicos, desacertos, imprudências inexplicáveis, processos oleados, coragem. E golos, o que nem sempre é um dado adquirido em Clássicos e dérbis da I Liga.

E, no final, voltou a sair por cima o realismo do FC Porto, ajudado seguramente pela morte do discernimento de Lenglet que, expulso ainda na 1ª parte, condicionou o Benfica para o resto do jogo.

Condicionou é a expressão correta, porque há muitos méritos da exibição do Benfica no Dragão, apesar da derrota por 3-1. Um deles foi nunca ter perdido o controlo emocional (Lenglet à parte, claro está), mantendo, até final, a dúvida, pelo menos a dúvida no Dragão, onde ainda chegou ao empate já a jogar com 10, antes do escrupuloso método de Farioli, detalhista na sua aparente simplicidade, quase cruel, travar qualquer ímpeto épico dos encarnados, que saem do Porto a cinco pontos do topo da tabela. O que, contra este FC Porto, parece uma odisseia.

JOSÉ COELHO

Com onze contra onze o que se viu no Dragão foram duas equipas na plenitude das suas capacidades. Boas saídas de parte a parte, as do Benfica mais a régua e esquadro, com Sudakov e Prestianni a brincarem em trocas na esquerda, e o FC Porto mais rápido e direto.

Foi crescendo o Benfica, Prestianni quase abria o marcador ainda antes do quarto de hora numa dessas variações promovidas pela presença de Sudakov, menos amarrado a uma posição específica, a lançar Rafa na direita, que cruzou para o argentino. Quando a pressão do FC Porto roubava os espaços, o pontapé de Samuel Soares tentava encontrar outras soluções mais diretas ao assunto. Aos 18’, uma saída descoordenada do FC Porto - e a pressão encarnada - deixaram a bola para Bah e só a cabeça de Pablo Rosário evitou o primeiro.

O FC Porto travaria o furor encarnado a partir dos 20 minutos, acertando os momentos de pressão, tornando-se mais dono da bola. Bah deu a cara ao manifesto num primeiro remate perigoso de Gabri Veiga, antes do espanhol abrir o marcador, numa jogada sem grandes cortesias, mas com um final digno dos melhores rendilhados: Bednarek encontrou Pepê que, com uma abertura extraordinária, lançou Gabri entre os centrais encarnados. A receção é um mimo, o toque para afastar a bola de Samuel Soares melhor ainda.

Começariam aqui os cinco minutos que quase implodiam o Benfica: depois da sua equipa sofrer, Lenglet achou por bem, já amarelado, dar um carinho a André Silva. Inadmissível para um jogador da experiência do francês, colocando em xeque toda a preparação para um dos jogos mais importantes da época. Samuel Soares travou um possível descalabro, com duas manchas corajosas em cima de William Gomes. Do outro lado do relvado, a ligação Rafa-Pavlidis (servidos por Samuel) dava o primeiro sinal de que o Benfica não estava quebrado, apesar de, sem um terceiro médio, as águias terem perdido a capacidade de segurar o jogo.

Gabri Veiga a tirar a bola do caminho de Samuel Soares
JOSÉ COELHO

Depois de uma entrada afirmativa do FC Porto na 2ª parte, a classe de Prestianni desenhou esse espírito de não-renúncia dos encarnados. Aos 52’, o argentino deambulou em cima de Pablo Rosário e Alberto Silva na quina da área e, quando toda a gente já espera um daqueles remates cruzados, o extremo viu Bah a fugir a Pepê ao segundo poste, colocando-lhe a bola no espaço, apenas à espera do pequeno toque que o dinamarquês soube dar.

De repente, tudo empatado.

Um empate que poderia ter levado o jogo para uma dinâmica mais partida, imprevisível. Um terreno que o FC Porto não gosta, rejeita, foge a sete pés. E apareceu aí Froholdt, de regresso após um susto, decisivo como sempre, a encorporar as necessidades da equipa que cedo se viu sem Gabri Veiga, que saiu ainda na 1ª parte, pouco depois do golo, por lesão.

Nem dois minutos depois do golo do Benfica, que com ele trazia um misto de magia, esperança e reação, o FC Porto aplicou a crueldade. Pablo Rosário encontrou André Silva entre os centrais e o avançado português, sem espaço para rematar, teve a inteligência de, naquela fração de segundos, virar o foco para um toque simples e eficaz que Froholdt aproveitou para transformar no 2-1.

A presença do dinamarquês do lado direto desviou Palhinha do jogo e esticou um Benfica com pouca malha para tapar tantos espaços. Vem dali, dos pés de Froholdt, o passe para um André Silva (excelente na associação na 2ª parte) descaído na direita, onde rodou sobre Tomás Araújo antes de passar para Inbeom Hwang. O coreano libertou-se da marcação dupla de Aursnes e Circati antes de rematar para a baliza.

Lenglet a receber cartão vermelho
JOSÉ COELHO

Um jogo que estava a caminho de ficar aberto tornou-se, em poucos minutos, muito inclinado para a equipa da casa, ainda que o Benfica nunca tenha verdadeiramente levantado a bandeira branca, com Pavlidis sempre vir buscar jogo, a ligar a equipa. Aos 83’ esteve mesmo perto do golo, num lance que serviu para Diogo Costa juntar mais uma às muitas defesas importantes que já leva esta temporada. Num Clássico sempre jogado a mil, sem momentos mortos, só mesmo os últimos minutos trouxeram gelo no futebol e demasiada emoção nas têmperas dos jogadores. Nada que tenha manchado o serão.

Numa noite que foi de gala, mas também de esforço, de um confronto entre duas ideias muito distintas, de dois treinadores capazes de ler o jogo em andamento, de ajustar, ainda foi possível dar a Samu o presente do regresso, sete meses depois. Tudo serve para bombear o entusiasmo de um jogador que vive dele.

À 7ª jornada, o FC Porto ainda não perdeu pontos. Antevê-se outro campeonato em que será um feito roubá-los à equipa de Farioli. O Benfica só poderá sair do Dragão dececionado pela derrota, nada mais.

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