Portugal não deu tudo o que podia contra o País de Gales, mas já se percebeu que seleção Jorge Jesus quer
A jogar nas costas do avançado, João Félix marcou pela 13ª vez na seleção
Gualter Fatia
Apesar de apresentar apenas Rúben Neves como novidade, Jorge Jesus alterou a maneira de jogar da seleção. O 4X4X2 agigantou João Félix, que marcou o golo da vitória contra o País de Gales (1-0). A dado momento, o jogo em que Portugal começou a defender o título da Liga das Nações tornou-se no festival de desperdício de Cristiano Ronaldo. O resultado foi curto, mas ficou a vontade de ver repetida a exibição da primeira parte
Um novo ciclo sabe à passagem de uma brisa nos dias em que o sol torra a pele de tudo aquilo em que toca. Sabe à folha em branco a aguardar que lhe contemos as nossas ideias. Sabe à primeira garfada da refeição que só um ente querido sabe cozinhar. Na vida, talvez sejam os momentos em que mais perto estamos de nos esquecer que tivemos passado.
Inevitavelmente, há um momento em que deixamos de nos lembrar do quão refrescante foi esse início. A amnésia provocada pelos problemas afeta as recordações felizes do dealbar de uma outra era. A novidade esgota a sedução. É uma relação de risco criar apego por algo que ainda tem película.
Jorge Jesus, o estreante que todos queriam ver o que tinha para apresentar, estaria perfeitamente à vontade para aliviar a carga laboral do responsável por escrutinar os adversários. O enraizamento de uma nova ideia é prioritário face ao desenvolvimento de uma estratégia riscada pelas nuances do País de Gales. Porém, lá estava a equipa de análise no topo da bancada com a câmara apontada ao relvado como um sniper de vigia.
O técnico não se quis destacar propriamente por uma abrupta restruturação. Fez apenas uma alteração face à equipa que Martínez tinha usado contra a Espanha, nos oitavos de final do Mundial. Trocou João Neves por Rúben Neves e, no fundo, só mudou mesmo um primeiro nome. Ficou assim desvendado qual o protótipo de “médio mais posicional” que JJ tanto quer.
Cristiano Ronaldo a culpar a relva pelo seu desperdício
Soccrates Images
Jesus não mudou muitos jogadores, mas fez um prato diferente. O rosto da seleção passou a ser o 4X4X2. Bruno Fernandes arrumou-se à esquerda, mas sem pudor de descobrir o corredor central. João Félix colocou-se atrás de Cristiano Ronaldo, ponta de lança com mais predisposição para se esconder sobre a esquerda. Pela direita, Pedro Neto foi-se revezando com João Cancelo no desfasamento interior/exterior sem nunca exagerar nos recuos.
O carisma de Jorge Jesus vai muito além das braçadas dadas ao longo da linha lateral com um ar de quem vai ser o último a abandonar um casamento. Os traços da personalidade tática foram passados aos jogadores como de um pai para um filho. Portugal jogou exatamente à imagem do seu novo instrutor.
Com audácia e objetividade, ultrapassando as dificuldades impostas por um relvado pelado em certas zonas, as oportunidades foram surgindo sem que o País de Gales passasse do meio-campo. Antes do jogo, a música escolhida para homenagear Jorge Palma foi “A Gente Vai Continuar”, mas a mais adequada teria sido “Encosta-te a Mim” devido à calorosa proximidade entre as soluções de passe oferecidas ao portador da bola.
Quando João Félix se transferiu para o Al-Nassr, marcou e assistiu para compensar os anos de menor colheita. Fê-lo comandado por Jorge Jesus, treinador que elogiou por colocá-lo a jogar na sua posição. Na seleção, as suas pantufas também começam a usufruir da apetência que o treinador tem para o deixar exprimir-se.
Em sociedade com Cristiano Ronaldo, teve ações letais. Por vezes, os lances terminaram na ineficácia do parceiro de ataque. Félix não se inibiu de fazer um passe ao lado. Perante as finalizações trapalhonas do capitão, teve que tentar a sorte. De fora da grande área, atirou a contar.
Rúben Neves parece ser o protótipo de médio defensivo que Jorge Jesus procura
Gualter Fatia
É genuinamente curioso como é que Cristiano Ronaldo tem dúvidas sobre o apreço que o país tem por ele. Basta fazer um exercício: ficar parado num ponto nos arredores do estádio. As camisolas dos outros jogadores parecem ter sido retiradas do mercado. Há um número sete em cada adepto. Por vezes, são meia dúzia ou mais dentro da mesma família. É uma validação inalcançável para qualquer outro ser humano. A loucura manifesta-se com gritos estridentes todas as vezes em que toca na bola.
Não podendo agradecer a cada adepto com uma camisola sua, até porque todos a têm, quis muito retribuir com um golo. Teve oportunidades flagrantes para o fazer. Numa delas, atribuiu ao tapete o seu desleixo. Noutra, a cruzamento de Rúben Neves, só teve que se queixar de si mesmo.
A certo ponto, o jogo tornou-se numa ação solidária para com o desespero de Ronaldo. O azar já tinha brincado com ele numa ocasião em que acertou do lado de fora das redes e uma bancada, por ilusão de ótica, gritou golo. Pior ainda quando CR7 finalizou com sucesso, mas o VAR viu a desmarcação irregular com que se fez ao passe de Bruno Fernandes.
Aos 68 minutos, Jorge Jesus penalizou o desperdício de Ronaldo com a saída. Na mesma vaga de substituições, entraram Gonçalo Ramos e João Palhinha, antigo jogador do Sporting assobiado pela transferência para o Benfica. Infelizmente, sempre que o momento das trocas chega, Portugal dá o jogo como finalizado (quando não está).
O País de Gales não teve ocasiões para marcar ao longo de todo o jogo. Assustou apenas em lances nos quais a defesa portuguesa se revelou bem alinhada. Porém, causou pânico quando Brennan Johnson foi o único em campo a acreditar que a bola não ia sair e acertou na barra. Rúben Dias, em cima da linha, evitou que a recarga de Koumas tivesse sucesso.
Na estreia de Jorge Jesus na seleção, viu-se uma ideia clara, mas pouco treinada para resultar ao longo de duas partes. Um resultado mais dilatado validaria o processo com outra convicção. Ainda assim, ficou a vontade de acompanhar a evolução.
Devemo-nos dar à frieza. A vigência de Roberto Martínez deixou esse ensinamento gravado na pedra. Ficámos cheios de areia nas córneas após o regozijo proporcionado por uma goleada de 9-0 contra o Luxemburgo, a maior vitória de sempre da seleção, alcançada numa altura embrionária da estadia do treinador espanhol. Em contextos não irrisórios, como Europeus e Mundiais, Portugal não se conseguiu meter com os do seu tamanho. Desde aí, sabemos que um começo é só mesmo isso.