Crónicas de jogos

Portugal deu a volta ao medo e deu a volta à Noruega

Gonçalo Ramos a celebrar o senhor golo que fez à Noruega com João Félix atrás, o marcador do outro bom golo de Portugal
Gonçalo Ramos a celebrar o senhor golo que fez à Noruega com João Félix atrás, o marcador do outro bom golo de Portugal
Boris Streubel - UEFA

Longe de ser perfeita, a seleção nacional foi ganhar (1-2) a Oslo contra uma Noruega avassaladora nas suas vagas de ataque, que rematou 20 vezes e nunca deixou de ameaçar. Portugal sofreu, mas jogou sem receio de pressionar alto, nem de tentar ligar jogadas com passes curtos a partir da sua área. A recompensa foram dois bons golos, de João Félix e Gonçalo Ramos. Jorge Jesus tão-pouco teve medo de deixar Ronaldo no banco: e o capitão não saiu de lá

Portugal deu a volta ao medo e deu a volta à Noruega

Diogo Pombo

Editor de Desporto

O “sem receio nenhum” de hoje foi o “não vou ter medo nenhum da Noruega” de ontem. As frases são de Jorge Jesus, aterrado em Oslo igual a ele próprio, sem falinhas mansas, livre de rococó no discurso e, ao segundo ato a mandar na seleção nacional, imune ao celeuma de tocar em Cristiano Ronaldo. ‘Ai dele’ ainda pensariam muitos, ‘como se atreveu?’ pensarão bastantes agora, na algazarra de reações que a figura sempre suscista: na visita ao frio que pariu Erling Haaland ou Martin Ødegaard, o treinador decidiu, num jogo a sério, sentar o capitão no banco.

Cristiano ser suplente, com Portugal, não acontecia há mais de dois anos, mas estes são os novos tempos sob as vontades do treinador que se vendeu como o impreterível dono da última palavra, súbdito do rendimento, chutador dos estatutos lá bem para trás da fila das prioridades para escolher quem joga. Neste caso, no barulhento estádio de Ullevaal que se fez de difícil desde muito cedo, a festejar como se fossem golos marcados os duelos e cortes ganhos por noruegueses.

Caído em pressão alta de início, sem temores como prometido pelo treinador, a Portugal tardou uns 10 minutos a acalmar-se quando tinha a bola contra a igual vontade da Noruega em apertar em todo o campo. O truque foi libertar João Félix, vagabundo de quem Jesus tanto gosta, um nove e meio de posição que ao baixar como um médio desengatava saídas limpas à seleção. Assim originou a jogada em que o baixote João Neves cabeceou um cruzamento entre os gigantes defesas nórdicos.

Seria Félix e o seu talento já não empurrado para uma ala e aproximado do desconforto, a darem o algodão de que o ataque português carecia. Nuno Mendes, ladrão de uma bola, embalou até à área, passou a Pedro Neto, este cruzou rasteiro para o João que o selecionador deixa em campo porque pode sempre desencantar qualquer coisa e ele, rodeado de noruegueses, com tão poucas brechas e rachas disponíveis, lembrou-se de passar à baliza (17’) o golo de Portugal. Calhou bem: Haaland já obrigara Diogo Costa a parar-lhe um remate após Ødegaard o descobrir com um fino passe picado.

João Félix a passar a bola à baliza da Noruega e a marcar o golo de Portugal
Boris Streubel - UEFA

As duas áreas viam requinte. Também as alas defensivas nacionais, um tanto ou quanto sôfregas quando a Noruega nada queria com a prudência e carregava ambas, nos mesmos ataques, com os laterais Ryserson e Aursnes. Queriam soltar os extremos nos espaços entre os corpos portugueses, era aí que Antonio Nusa e Andreas Schjelderup se metiam a driblar e a ziguezaguear. Numa das suas insistências, Diogo Costa não agarrou um cruzamento, o descuido sobrou para quem mais era de evitar, mas Rúben Dias lançou-se de corpo inteiro para a frente do remate de Haaland.

Portugal sofria mas dava troco, o jogo, e que belo jogo — vivaço, intenso, devoto ao futebol atacante —, estava para isso. As duas equipas trocavam golpes em vez de terem cautela, sem medos. A seleção saía apoiado de trás, procurava jogadores para servirem de parede e deixar alguém com a bola de frente para o jogo. Ia estendendo o tempo médio de vida das suas posses de bola, embora poucas vezes. Correndo da direita para dentro como gosta, Francisco Conceição rematou à entrada da área. Mas o câmbio da Noruega, longe de ser dócil, não dava descanso.

Com os seus pequenos caracóis de cabelo descolorado, Nusa então era uma tormenta, cheio de malabarismos pela esquerda, mas habilidades com sentido prático, não acrobacias feitas só por fazer. Encarava João Cancelo e entortava as pernas ao português. O extremo por duas vezes cruzou pouco antes do descanso e Haaland, sempre ele, saltou de rompante para cabecear e obrigar Diogo Costa a enxutar outras bolas da sua baliza. Do outro lado, Nuno Mendes também muito se podia queixar de Schjelderup. Portugal sofreu até ao intervalo, foi uma canseira para Palhinha e João Neves correrem a largura do campo em socorro das ala, tentando evitar situações de inferioridade numérica.

Boa nas saídas de bola, incisiva a criar ligações por fora para depois libertar João Félix por dentro, e com outra saúde na primeira pressão na base das jogadas do adversário (ajuda ter Gonçalo Ramos a correr para chatear os defesas centrais), a seleção nacional ainda se mostrava algo atarantada quando tinha de vigiar os adversários: parecia indecisva entre marcá-los individualmente ou ter cada jogador a defender o seu espaço, à zona. Portugal ganhava, podia perfeitamente estar empatado.

Antonio Nusa a infernizasr a vida a João Cancelo
PAULO NOVAIS

Entrou com tudo a Noruega na segunda parte, de novo eletrizante vinda do balneário e a fatiar a linha intermédia portuguesa, onde se notavam as dores de habituação da seleção às novas formas de fazer as coisas com Jorge Jesus. De uma incursão do lateral Ryerson, parada com falta por Palhinha à beira da área, veio o livre batido do pé esquerdo de Ødegaard que Diogo Costa defendeu para a frente, deixando a bola morta na pequena área. Aí está o território do abominável homem dos golos: lá apareceu Erling Haaland para marcar (51’) o seu 65º golo em 55 jogos.

A Noruega caía com tudo sobre Portugal nesta partida despida de medos, as bancadas empolgadas estavam em ruído, Portugal nceessitado se via com alguma urgência de aguentar a bola nos seus pés, serenar o ritmo. O jogo, como estava, pedia a calma de Vitinha. Ou que algo caísse do céu do embaraço alheio.

Isso deu-o Ørjan Nyland, o único norueguês de luvas postas que mostrou como um jogo de futebol balança sempre perigosamente na distração individual, na desatenção de um erro. Numa saída de bola o guarda-redes tentou um passe curto, sobretudo arriscado, na zona de pressão vigiada por Gonçalo Ramos e o avançado, tão esperto quanto matreiro, mal intercetou a bola picou um chapéu sobre o guardião, castigando-o (54’) com uma colherada de finalização. E que coincidência: aconteceu no dia dos 50 anos de Francesco Totti, e tantos foram os golos que o italiano fez assim.

Pouco depois, o mesmo Nyland, desastrado a sair da baliza, hesitou ir aos limites da sua área e a correria de Ramos, desalmado a vir do outro lado do campo, tocou na bola que era sua do guardião e marcou outro, mas seria anulado por fora de jogo. Também Rafael Leão, entretanto entrado com Vitinha, viu um remate seu desviar em Aursnes e esbarrar na trave quando o encontro futebolizava um momento tão típico do boxe: as equipas pareciam dois pugilistas quase abraçados, a trocarem golpes nas costelas, desimportados com protegerem-se dos murros.

Gonçalo Ramos a comemorar o seu golo com o seu típico festejo
PAULO NOVAIS

Faltava calma, era preciso controlo ou um semblante de tal, sem encolher a pressão que Portugal tentava manter na área adversária apesar do cansaço de Ramos e Félix. Até porque os noruegueses não esmoreciam a sua, ainda mais apressados pelo resultado, sem pruridos em acrescentar o talento de Oscar Bobb ao de Nusa e Schjelderup. O segundo, pé ante pé na companhia da bola, ainda a picou, antes de sair, para o terceiro. Valeu a saída rápida de Diogo Costa para barrar com o peito a tentiva de Andreas à queima-roupa.

Os derradeiros minutos trouxeram encolhimento português sem a bola. A seleção juntou as suas linhas, deixou de sair com passes curtos nos pontapés de baliza e Jesus acrescentou Bernardo Silva e Francisco Trincão a Vitinha, deixando Félix como avançado. Era o zelo por guardar a bola; principalmente eram sinais dados à equipa de que a prioridade era essa. Havia que estancar as vagas do ataque da Noruega, sempre a apanhar sucessivas boleias do GPS que está no pé esquerdo de Ødegaard para ligar as jogadas. À exceção de um canto já nos descontos, quando a seleção nacional já tinha demasiados baixotes em campo para tantos matulões noruegueses, não houve ameaças de maior.

Portugal saiu vitorioso de Oslo contra uma das melhores equipas que há na Europa com uma pitada de tudo: teve peito inchado para jogar dentro da pressão alta, não mostrou receio a pressionar alto sempre que pôde (sobretudo nos pontapés de baliza adversários), viu-se bastante predisposição para os jogadores correrem a defender. Também gozou de fortuna, feliz na infelicidade do guarda-redes norueguês e em sofrer pouco com a alarvidade de remates (20) da Noruega. Nem tudo serviu para sorrir, a seleção teve os seus momentos de desnorte a fechar espaços no seu meio-campo e faltou-lhe manietar o jogo com a bola. Com tanta gente que a domestica, o caminho tem de ir por essa estrada.

Não se viram receios na postura da seleção na Noruega, só erros e carências, acertos a fazer ou ajustes que faltam, como é natural num conjunto com tão pouco tempo com Jorge Jesus. Dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo como canta um dos grandes cantautores que sobram a Portugal nesta semana em que ficou sem um dos seus maiores. Do selecionador tão-pouco houve medo em deixar sentado em Oslo quem parecia ser um sacrilégio se não estivesse em campo por decreto. Há jogos para tudo, este, com o seu ritmo desvairado e de contra-golpes constante, pouco ajustado estava aos 41 anos de Cristiano. E não tem de haver medo em admitir isso.

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