Crónicas de jogos

NÓS estamos aqui: como uma verdadeira equipa, Portugal assinalou na Dinamarca o fim do absolutismo na seleção

Portugal, unido, em mais uma vitória na Liga das Nações
Portugal, unido, em mais uma vitória na Liga das Nações
Eurasia Sport Images

A seleção não se mostrou minimamente afetada com o alvoroço em torno do abandono de Cristiano Ronaldo. Capitaneada por Bruno Fernandes, com Rafael Leão a usar a camisola 7 e com Gonçalo Ramos a jogar como ponta de lança, a equipa de Jorge Jesus dividiu o protagonismo por todos. O coletivismo valeu a vitória contra a Dinamarca na Liga das Nações (4-2), a terceira com o novo selecionador. Talvez a tendência vitoriosa indique que há um lado certo nesta história

Tivemos durante anos a sensação de estarmos presos num loop. Cristiano Ronaldo metralhou golos pela seleção nacional como nenhum outro jogador. Cada celebração mimetizava a outra. O dedo batia no peito e apontava de seguida para o chão, registando a presença no livro de ponto. “Eu estou aqui”, dizia. Agora que ele foi para outro lugar, Portugal celebra na primeira pessoa. Na primeira pessoa do plural.

Houve vários momentos do jogo contra a Dinamarca em que os jogadores portugueses pareciam hiper sintonizados. Todos a remaram para o mesmo lado, quer em alturas de tempestade, quer de bonança. Aliviado de alguém que descansa a pagaia e cruza os braços enquanto outros se aplicam em tarefas coletivas, Portugal chegou à terceira vitória consecutiva desde que Jorge Jesus se tornou selecionador. Os resultados deixam subentendido que talvez exista um lado certo nesta história.

A passagem do tempo deixa as suas marcas e o zéfiro do seu avanço deixou as cortinas a abanar. Há sinais evidentes de que vivemos um novo momento histórico, a era d.C. (depois de Cris). É incrível pensar como há uma semana tudo era diferente. O capitão era outro, a camisola 7 estava num corpo diferente, a posição de ponta de lança detinha-a outra pessoa. Talvez a divisão de benefícios seja positiva e assinale o fim do absolutismo na seleção.

Bruno Fernandes com a braçadeira de capitão
NurPhoto

Não foi preciso retirar o elefante da sala. Ele fugiu como uma gazela, chamando um jato como quem chama um Uber. Portugal não ficou nada amarrado psicologicamente aos acontecimentos dos últimos dias. João Cancelo, um desformatado por natureza, desprendeu-se da posição sem pudor. A desordem imperou no lance em que Gonçalo Ramos desviou para o poste, mas desse caos nasceu a elegância. O lateral-direito andava pelo flanco canhoto naquela circunstância. De lá, combinou com Gonçalo Ramos, que serviu de parede, e infiltrou-se na área, picando sobre Mads Hermansen.

Após um lapso inicial que permitiu a Joakim Mæhle traçar uma diagonal no campo e desenhar uma jogada onde o golo foi evitado por Rúben Dias em cima da linha, a seleção encontrou-se. Sobretudo, atracou-se às insistentes saídas curtas da Dinamarca. Mesmo com Renato Veiga e Rúben Dias a desencaixarem-se da linha defensiva para pressionarem, alguns dos passes verticais de Hermansen dirigidos a Rasmus Højlund e Mikkel Damsgaard serviram como ponto de fuga para os nórdicos.

A Dinamarca até tinha passado por melhores fases do que aquela que vivia quando chegou ao empate. Durante o Euro 2020, Damsgaard fez a recruta para entrar na lista de jogadores mais promissores. O trajeto vindouro não confirmou tamanho empolgamento. No entanto, não lhe falta enegnho para tirar adeptos da cadeira em momentos como o remate em jeito que se afundou na baliza de Diogo Costa.

Nos últimos tempos, foi sonegada a Portugal a utilização de um avançado. De repente, uma equipa amputada voltou a andar. Gonçalo Ramos foi a muleta do ataque, procurando associar-se e voluntariando-se para a divisão do trabalho defensivo. A maneira como combinou com Bruno Fernandes e atacou o espaço logo de seguida para devolver a vantagem a Portugal é de um jogador no pico de forma, não de alguém no fenecer da carreira.

Gonçalo Ramos ofereceu vários recursos à equipa
NurPhoto

A equipa de Jorge Jesus refastelou-se no meio-campo ofensivo e Nuno Mendes esteve relacionado com isso. O jogador do PSG recuperou a bola em zonas subidas e furou entre os escandinavos. Serviu Gonçalo Ramos, menos eficaz, numa dessas ações. Juntando um par de investidas de Rafael Leão, poder-se-ia dizer que Portugal estava num nível de produção ofensiva aceitável.

Não foi preciso Portugal cometer muitos erros na pressão altíssima para ser penalizado. Pierre-Emile Højbjerg fazia parte de um duplo pivô complementado por Morten Hjulmand que pouco tinha inferido no encontro. Uma réstia de espaço permitiu aos dinamarqueses desenvolverem uma jogada exímia praticamente desde a bandeirola de canto. Rúben Dias e Renato Veiga tiveram finalmente motivos para se preocuparem com o espaço à retaguarda assim que Damsgaard desmarcou Højlund (fundamental na ligação) e o avançado picou por cima de Diogo Costa.

Bruno Fernandes (96 internacionalizações) assumiu a função de capitão. Não teve uma reunião de passagem de pasta, porque o antecessor simplesmente desertou. A sua liderança não é propriamente novidade. Entre os jogadores mais experientes, tais como Bernardo Silva (114) ou Rúben Dias (83), vários podiam assumir a função melhor do que quem a desempenhava anteriormente. Os vice-presidentes foram todos promovidos em simultâneo.

Com nova igualdade, a braçadeira incentivou Bruno Fernandes a praticar o bem. A jogar nas costas do ponta de lança, posição onde João Félix tão bem se tinha dado frente ao País de Gales e à Noruega, distribuiu generosamente assistências melífluas. Ensaiou com Gonçalo Ramos e efetivou com Vitinha. O pequeno médio correspondeu de cabeça, onde se encontra o motor do seu jogo, e Portugal voltou à vantagem num jogo que se tornou caótico.

Desta vez, Portugal fez uma gestão sábia da posse. Ao contrário do que se passou no início da segunda parte, o controlo não lhe fugiu mais. Inclusivamente, Hermansen teve que se aplicar para adiar mais golos. Porém, dando seguimento ao portentoso momento de forma, João Félix voltou a faturar. A finalização, a passe de Diogo Dalot, foi o mais fácil. Na verdade, tudo nasceu de um nó desatado pelos 11 jogadores numa demonstração do máximo potencial coletivo. Sim, todos tocaram na bola no mesmo lance.

Quem se deu ao trabalho de escolher o homem do jogo teve uma tarefa árdua. O protagonismo foi dividido por tantas pés que a eleição se tornou complicada. Pior seria não em quem votar, como em tantas outras ocasiões.

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