Crónicas de jogos

Portugal tem jogadores-artistas que revestiram de ambição estética o início da era Jorge Jesus

Vitinha desbloqueou o encontro perto do final
Vitinha desbloqueou o encontro perto do final
Carlos Rodrigues

Contra a Noruega, Portugal chegou à quarta vitória na Liga das Nações (2-1) e apurou-se desde já para os quartos de final. Com golos de levantar o estádio e passes de levar as mãos à cabeça, a equipa entusiasma graças à identidade de Jorge Jesus, que está a ter um início perfeito no comando da seleção nacional. Desportivamente, claro

O relvado é uma plantação de utopias. Um local reservado a magia e sonhos. O sítio em que a taumaturgia dá uma carga de ombro às áreas de estudo que pretendem através da lógica explicar tudo o que acontece. Nele, até os desgostos se tornam românticos. Como é sabido, o mesmo não se passa em nenhuma outra lasca de quotidiano. Talvez seja isso que mais nos encanta neste parêntesis da vida.

Uma ilha são 90 minutos e um retângulo. O que se passa dentro do campo não tem raízes com o que está fora, com o passado ou com o futuro. Um jogo é um relógio precisamente acertado. É o aqui e o agora.

A nível exibicional, Portugal está numa redoma. Contra a Noruega, a seleção esteve de novo imperturbável. Esta janela internacional não se tratou de terapia de grupo, apenas de uma sessão de desenvolvimento coletivo.

O início da defesa do título da Liga das Nações fez-se com quatro vitórias que apuraram Portugal com a maior brevidade possível para a fase a eliminar. Ao mesmo tempo que os objetivos eram cumpridos, Jorge Jesus foi fincando o dedo para deixar a sua impressão digital. Desportivamente, foi um começo imaculado.

Bruno Fernandes voltou a ser capitão
Carlos Rodrigues

Ainda estamos a conhecer a nova versão de Portugal. Porém, alguns traços de personalidade vão sendo confirmados através da frequência com que acontecem. Esta é uma equipa reativa, que responde às adversidades como alguém tira a mão de uma superfície quente.

Estatisticamente, os quatro primeiros jogos de Jorge Jesus não são um primo defensivo, mesmo que o setor recuado seja imutável para o técnico. Diogo Costa sofreu quatro golos noutros tantos encontros. No entanto, sempre que o adversário colocou a bola dentro da baliza a resposta demorou entre dois e 14 minutos a chegar.

No Estádio do Dragão, a Noruega espicaçou Portugal. A tendência do jogo não indiciava que tal fosse possível, mas os nórdicos chegaram à vantagem. Kristoffer Ajer (36’) apanhou a bola a jeito na ressaca de um livre e fê-la sobrevoar Diogo Costa. A incredulidade dos colegas disse tudo quanto à proficiência da execução e ao inesperado executante.

Quem se deslocou à casa do FC Porto aderiu a um sarau sem que tivesse conhecimento prévio disso. As artes performativas tomaram conta do recinto e o número seguinte foi o de João Cancelo (38’). A mestria do lateral ficou demonstrada na bomba com que atingiu a baliza de Egil Selvik, inútil perante tal violência. Claramente, existia mais um candidato a golaço da noite.

Lidar com a adversidade é uma qualidade que habita em grupos articulados. Portugal estava a sê-lo. Jorge Jesus bem que acentuou o papel dos piolhos do meio-campo. Vitinha, perfeitamente enquadrado nesse perfil, saltitou por várias zonas para criar laços e teve Bruno Fernandes a ajudá-lo.

A densidade de noruegueses no corredor central exigia uma volta mais longa. O desvio passou por investir no corredor direito, onde Francisco Conceição e João Cancelo conseguiam facilmente ganhar a linha de fundo. O conjunto de Stale Solbakken precisou várias vezes dos últimos recursos para travar os consecutivos remates.

João Cancelo a celebrar o seu golaço
Soccrates Images

Martin Ødegaard é um balão de ar e, graças ao elegantíssimo médio do Arsenal, a Noruega foi tendo momentos de progressão. Ao pressionar, Portugal por vezes abdica de encaixar no lateral do lado contrário e foi através dessa fresta que David Wolfe se libertou, levando a um remate de Antonio Nusa para defesa de Diogo Costa.

Os níveis de intensidade foram influenciados pelo facto de ambas as equipas estarem a realizar o quarto jogo no espaço de 11 dias. Desta vez, as alterações feitas por JJ no onze inicial não tiveram particular efeito (lançou João Palhinha, João Félix e Francisco Conceição). Os retoques a partir do banco também passaram despercebidos.

Desbastar o arvoredo exigiu a atenção aos detalhes de Vitinha. A minúcia com que introduziu um passe picado em João Félix abriu o apetite até a quem já tinha jantado. O jogador do Al-Nassr estava proibido pelo código de ética de não dar o melhor seguimento ao lance. Assim sendo, assistiu Gonçalo Ramos para o golo da reviravolta.

Num jogo tépido, nada fazia prever que Francisco Conceição exagerasse tanto nos protestos. Quando Portugal precisava de toda a ajuda possível para defender o resultado, o extremo foi expulso.

A maneira como Portugal se uniu para garantir a vitória foi a amostra de uma seleção a caminho de ser uma equipa com a qual o país se identifica. Celebraram-se cortes, deram-se abraços, pediu-se o apoio do público. No fundo, existiu um compromisso com a causa. Não há melhor vitória do que essa.

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