Crónicas de jogos

Suárez e Zalazar chegam do outro lado do mundo para salvar o Sporting em Braga

Zalazar festeja o 3-1 em Braga
Zalazar festeja o 3-1 em Braga
HUGO DELGADO

Os dois sul-americanos, que estiveram ao serviço das suas seleções em locais longínquos, saíram do banco para dar a volta ao jogo, com os leões batendo o SC Braga por 3-1 após irem para o intervalo em desvantagem


Suárez e Zalazar chegam do outro lado do mundo para salvar o Sporting em Braga

Pedro Barata

Jornalista

Brasil, Praia, Bissau, Angola, Moçambique, Goa, Macau, Timor. Se forem os Da Vinci, é este o roteiro. No que ao futebol nacional diz respeito, no regresso após a longa janela internacional, é preciso atualizar os destinos.

Baltimore e Miami, ambos nos Estados Unidos da América, no caso de Luis Suárez. Japão, Coreia do Sul e Índia, cruzando diferentes pontos da Ásia, quanto a Rodrigo Zalazar. O colombiano e o uruguaio andaram de passaporte na mão, acompanhando as respetivas seleções.

Tendo em conta esse desgaste recente, Rui Borges deixou ambos no banco em Braga. E, durante uma hora, o jogo teve uma cara feia para o Sporting, uma face de crise, talvez até deixando o seu treinador sem poder dizer, com orgulho, que somava três empates seguidos contra este adversário, sem vitórias, mas também sem derrotas, uma frase para o compêndio das afirmações infelizes.

Eis que Zalazar e Suárez voltaram da volta ao mundo. Com eles também saiu do banco Maxi Araújo, outro uruguaio que acumulou milhas asiáticas.

Assente na sua artilharia e beneficiando da fragilidade defensiva de um Sporting de Braga cujas intenções duram mais do que a capacidade de as executar, o Sporting da capital foi da desvantagem de 1-0 para a vitória por 3-1. Na sequência dos dois tropeções perante Famalicão e Arouca, eis três pontos que sabem a evitar que tudo se coloque em causa em Alvalade.

Suárez marcou aos 66', sete minutos após as trocas da glória leonina. Entrou-se, depois, na zona Zalazar, não muito prolongados momentos em que o ex-SC Braga, enquanto era assobiado pelo público da casa, sprintou e cozinhou o 2-1, que seria um auto-golo de Bernado Fontes, sprintou e apontou o 3-1 e lesionou-se, sendo logo substituído. E lá voltaram eles para Lisboa, finalmente casa, depois de tantos e tantos quilómetros.

A imagem que ajuda a explicar como o Sporting deu a volta: Zalazar em sprint com a bola
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O desafio na pedreira assemelhou-se, em boa parte, a uma daquelas filas de trânsito em que pares de carros se formam, colados, à espera que avanços alheios permitam progredir escassos metros. O jogo de pares e perseguições individuais, uma dança constante a todo o campo, futebol de 2026, foi nota dominante da partida, o guião até ao colapso dos da casa.

A equipa de Vicens foi tentando a sua aposta de composições e decomposições, com avançados que recuam e alas que avançam, todos seguidos pelos respetivos pares de verde e branco. No coração de tudo está João Moutinho, que tanto dá lições em posse como vai ao chão fazer carrinhos como se fosse o petiz que apareceu, há mais de duas décadas, no Sporting, um menino bonito transformado em vilão, ou maçã podre, citando José Eduardo Bettencourt.

O Sporting, com um onze cheio de atleticismo, ou fisicalidade, usando uma palavra na moda, mas sem muita criatividade, apostou em ataques rápidos. Vagiannidis, lateral pela esquerda de circunstância, não logrou bater Bernardo Fontes. Geny, sempre ativo pela direita, quase viu um lance algo confuso dar em golo, mas foi na barra.

Entre os diversos pecados deste Sporting em reconstrução, uma equipa carecente de referências, como um adolescente que não descobriu quem é, está a fragilidade na baliza. Rui Silva perdeu a segurança, viu ir-se embora a agilidade, demora a chegar às bolas. Aproveitando essa lentidão, Huseinbasic rematou ao poste, com o azar a juntar-se à falta de acerto de Rui Silva num auto-golo do guarda-redes.

Huseinbasic festeja o golo que viria a ser atribuído a Rui Silva
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Rui Borges, vestido com uma camisola por cima de uma t-shirt, parecendo um estudante de direito numa festa de fim de tarde, assistia com preocupação à vantagem local. Após o descanso, Pau Victor e Ricardo Horta poderiam ter feito o 2-0, mas o filme da quebra futebolística do Sporting de Braga não é novo, como se os padrões e rotinas de Vicens tivessem duração limitada, assentes em bases frágeis.

Na verdade, pode haver uma explicação simples para a reviravolta. Melhores jogadores criam mais perigo, melhor futebol, chegam mais perto do golo. Maxi, Suárez e Zalazar são três dos melhores do Sporting e aí está a chave da coisa.

A quase recusa minhota em defender viu-se no 1-0. Em vantagem, o SC Braga deixou Irankunda receber à vontade, olhar, esquecer o jet lag, ele que também deu a volta ao globo, vindo de representar a Austrália. O cruzamente encontrou Suárez sozinho, como se os defesas adversários fossem meras testemunhas passivas. O colombiano já leva oito golos em nove embates pelo clube na temporada.

A banda sonora que tomou conta do estádio foram os assobios a Zalazar, transferência marcante do defeso. Indiferente a isso, o uruguaio aproveitou a auto-estrada bracarense, um contexto ideal para o seu estilo de camião de mercadorias, que carrega a bola em frente com força e vigor. O 2-1 chegou assim, o 3-1 também.

O Sporting não sai de Braga sem várias das dúvidas recentes. Mas leva três pontols, que são o melhor método para uma equipa ir tentando viver melhor enquanto ainda não sabe bem o que é, um adolescente à procura de tempo para se encontrar consigo próprio.

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