Crónicas de jogos

Um Oskar da Polónia foi à Madeira dar nota artística ao FC Porto

Pietuszewski e Bednarek festejam o golo da vitória
Pietuszewski e Bednarek festejam o golo da vitória
GREGÓRIO CUNHA

Oito jornadas, oito vitórias. Os campeões nacionais prosseguiram o registo perfeito, vencendo (2-1) o Marítimo. Os insulares marcaram primeiro, mas Froholdt e Pietuszewski, com golos no fim de cada parte, selaram a reviravolta

Um Oskar da Polónia foi à Madeira dar nota artística ao FC Porto

Pedro Barata

Jornalista

Tem 18 anos e é recheado de contradições. É um menino, mas tem corpo de adulto, possante, forte. Acabou de fazer os exames da escola, mas antes disso já marcara num dos principais estádios do futebol europeu, deixando um consagrado campeão do mundo deitado no chão.

É da Polónia, tão longe da Madeira, mas foi na ilha do Atlântico que festejou. Esteve algum tempo parado, a contas com uma lesão, mas aí está ele, a tempo de ser decisivo.

É Oskar Pietuszewski, garoto que já se aventura a falar português. Num FC Porto que é como uma máquina desenhada com precisão, milímetro a milímetro, detalhe a detalhe, acredita-se que o adolescente pode dar uma nuance individual que crie atalhos para o êxito. Assim foi.

Num daqueles fins de tarde que separa quem ganha títulos de quem, em maio, se fica a lamentar, o FC Porto ganhou (2-1) contra o Marítimo. Nos Barreiros, os dragões foram da desvantagem para o êxito, continuando com números perfeitos, 24 pontos somados em 24 possíveis. Desde 4 de abril, quando empataram diante do Famalicão, que não escorregam em desafios a valer da I Liga, descontando o que sucedeu na época passada quando o título já estava atribuído.

A humidade madeirense acolheu o regresso de um confronto com barbas brancas na bola nacional. Marítimo e FC Porto mediram forças pela 104.ª ocasião, reeditando um histórico que sofreu uma recente interrupção. Desde fevereiro de 2023 que os dois clubes não disputavam um encontro, fruto da ausência dos insulares na I Liga.

Pietuszewski e Samu após o 2-1
GREGÓRIO CUNHA

Com o Marítimo de volta retorna parte fundamental do património do nosso campeonato. Os Barreiros, o pôr do sol, os adeptos, Van der Gaag na linha lateral. Uma primeira divisão precisa deste tipo de carisma.

Os homens de Farioli entraram para o relvado como um coletivo a sofrer de jet lag, uma sucessão de homens que estiveram vários dias seguidos sem se ver e, agora, pareciam longe da equipa de princípios escritos na pedra que conhecemos. Só por uma vez, num remate de Alberto Costa para defesa de Vieites, estiveram os portistas perto de marcar até bem próximos do descanso.

Os locais arrancaram relativamente tímidos, mas após a dezena inaugural de minutos soltaram-se. Guzzo exercia como maestro, Dominguez refugiava-se na meia direita para perfumar as circulações, como o detalhe final de classe num fato que se leva para um casamento.

Gábor Szalai protagonizou o primeiro remate à baliza, com Diogo Costa a defender. Aos 16', o titular da seleção nacional foi bem menos eficaz a responder a outro disparo de longe do húngaro, sendo traído pelo golpe de vista, qual homem que se recusa a usar óculos por confiar no que a genética, ou Deus, ou a sorte lhe deram. 1-0 para o Marítimo.

A resposta azul e branca não foi particularmente agressiva. Na verdade, outra má abordagem de Diogo Costa gerou novo susto para os visitantes. Não foi um dia fácil para o guardião, com diversas hesitações salvas pelos seus colegas.

Ainda assim, o FC Porto não precisa de muito para marcar, cavalgando nos tais processos conhecidos e reconhecidos, na identidade, no ADN que, mesmo distante em longos momentos do desafio, não se perdeu nos caminhos do Atlântico. Alberto Costa, lateral voador, ganhou a linha, Francisco Moura, patinho feio em rota de recuperação, cabeceou, Froholdt, médio sempre ligado, empatou. Há 34 rondas seguidas, isto é, há um campeonato inteiro que os dragões não ficam em branco. 1-1 era o que se levava para o segundo tempo.

Jogadores do Marítimo festejam o 1-0
GREGÓRIO CUNHA

Farioli, fiel ao negro nas opções de indumentária, foi ficando progressivamente mais ativo à medida que o relógio avançava, um ponto preto à beira do relvado a gesticular. O italiano ficou com razões de preocupação quando, ainda na madrugada do segundo tempo, William Gomes saiu lesionado.

Vindo do intervalo, o Marítimo foi perdendo capacidade de se esticar em campo. O cansaço e a pressão do FC Porto foram deixando marcas, como um pedaço de costa a sofrer com o desgaste provocado pelo mar.

A força área dos campeões foi buscando o 2-1. Alberto, André Silva e Froholdt cabecearam em zonas altamente promissoras, mas a falta de pontaria e o acerto de Fran Vieites mantinham o 1-1. O guarda-redes, que efetuou 20 encontros pelo Betis, o próximo adversário do FC Porto, consagrava-se como grande destaque individual do desafio, estatuto que lhe seria roubado aos 86'.

Pietuszewski entrou aos 79' e, pouco depois, recebeu um passe perfeito do compatriota Kiwior. Recolheu, enquadrou e rematou subtilmente, fazendo a bola fugir do guarda-redes e encontrar-se com a glória. O lance começou por ser anulado por fora de jogo. Oskar nasceu em maio de 2008, pelo que grande parte da sua educação futebolística já foi feita na era VAR, não ser-lhe-á estranho viver estas esperas, estes golos que primeiro não são, até que são. A geometria entrou pelo ecrã e ditou que era tudo legal. 2-1, o primeiro grande momento do placo em mais de meio ano, já livre de lesões.

O FC Porto, habitualmente de betão, não teve um protetor da baliza muito inspirado. Já depois do golo que seria o decisivo, um remate de longe de Paulo Henrique voltou a encontrar Diogo Costa com mãos de manteiga. Bednarek evitou a recarga, um central de betão, fiável, símbolo maior de um campeão regular, que pode sofrer, mas não quebra.

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