Um Benfica virado à esquerda ganhou com os seus novos bons hábitos
Os jogadores do Benfica festeja o 1-0
Eurasia Sport Images
Superior em toda a partida, a equipa de Marco Silva derrotou (2-0) o Vitória SC, que não fez qualquer remate enquadrado com a baliza das águias. Dahl e Sudakov, que não marcava desde dezembro de 2025, fizeram os golos
A esquerda política não tem vivido, um pouco por todo o mundo, tempos eleitoralmente fáceis. Particularmente dos dois lados do Atlântico, as derrotas recentes têm-se acumulado, motivando grandes debates e reflexões internas quanto às causas desta perda de força.
Pois bem, na Luz a esquerda futebolística vive momentos de grande êxito. Tudo parte de Prestianni, o argentino que já é a cara deste Benfica, o desequilíbrio, a finta, o drible com sentido e sequência. O golo, a assistência, o núcleo creativo que beneficia os colegas. Mesmo que ele não tenha participação direta nos lances que terminam nas balizas adversárias, ele está lá, influente.
A equipa de Marco Silva bateu (2-0) o Vitória SC. Dahl e Sudakov, um em cada parte, marcaram em ações que arrancaram da esquerda, com Schjelderup e Echeverri exercendo como sócios de Prestianni. Os goleadores sueco e ucraniano foram, digamos assim, a consequência desta força à esquerda.
Os padrões e rotinas recentes que Marco Silva já tatuou neste coletivo foram, novamente, evidentes. Uma primeira parte de força ofensiva, um banco capaz de ter impacto. Até houve uma baliza a zeros, como em quatro dos últimos seis desafios. O FC Porto segue a cinco pontos de distância.
Se excluirmos Sporting, FC Porto e Belenenses, o Vitória Sport Clube é o adversário que mais vezes o Benfica defrontou, sendo este o 187.º embate entre ambos os clubes. As idas à Luz têm sido difíceis para os vimaranenses, que lá não vencem desde 2009, levando, desde então,17 derrotas e meros três empates. Tendo somente em conta o campeonato, são 29 desafios seguidos das águias sem derrotas face a esta oposição minhota.
Prestianni voltou a estar em destaque
Gualter Fatia
Logo de arranque viu-se um ajuste de Marco Silva. Desta feita, era claramente Prestianni quem partia da esquerda, com Andreas Schjelderup arrancando de zonas centrais e Rafa Silva no centro-direita. A divisão de espaços de início não excluia que o norueguês lateralizasse a posição para se encontrar com Prestianni, numa conexão que junta cérebro, pernas, técnica, imaginação.
Tardaram três minutos para que o elétrico Prestianni tirasse parte da defesa rival do caminho e desse para Schjelderup atirar em boa posição. Zych defendeu e, na recarga, Rafa pareceu fazer o mais difícil, acertando na barra. O encontro, nisso, foi honesto: este é o Benfica de Prestianni, do hábito de ter Prestianni a desequilibrar, e ele fê-lo desde a madrugada do jogo.
O Vitória vive mais uma época de plantel magro em soluções, um elenco longe das expetativas dos adeptos. Não, não é um grupo de futebolistas que, em condições normais, lute pela Europa. Há juventude valiosa, como a dupla de Nogueiras, mas parece sempre curto, por muito que Tiago Margarido já tenha provado saber fazer milagres. Os visitantes saíram da Luz com o total de zero remates enquadrados com a baliza de Samuel Soares.
Sem surpresa perante a superioridade local, o 1-0 apareceu aos 24'. Samuel Dahl pode aproveitar para ser o beneficiado das atenções que Prestianni e Schjelderup concentram, como uma manobra de diversão própria de uma tentativa de assalto a uma galeria de arte. O sueco tabelou com Pavlidis e picou com classe para abrir o marcador.
Até ao descanso, Barreiro e Prestianni estiveram perto do 2-0. Do lado do Vitória, Jakupovic parecia uma espécie de pequeno Arnautovic, requinte técnico, segurar a bola, servir de referência frontal, um austríaco com raízes balcânicas. Mas sem baliza, como se viu depois do intervalo, quando cabeceou sem direção em zona frontal.
Dahl festeja o 1-0
Gualter Fatia
A segunda metade foi de menos intenso domínio do Benfica, como se a inspiração fosse diminuindo ao ritmo que o dia dava lugar à noite de outubro na capital. Chegaram a ser minutos de vestir o fato do pragmatismo, mas sem sofrimento. O Vitória, carente de poder de fogo, ou não fosse o terceiro pior ataque do campeonato, jamais deu a impressão de poder aproveitar o momento para, sequer, criar uma oportunidade de golo.
Marco Silva lançou Echeverri, formando com Prestianni uma parelha de argentinos sub-20 que traz o potrero, o baldio, o futebol de rua, para a Luz. Tomás Araújo viu a desmarcação do diablito e isolou-o, mas Zych parou o remate. Pouco depois foi Prestianni a finalizar por cima.
Nunca chegou propriamente a haver intranquilidade entre o público da casa, mas um 1-0 é um 1-0, basta o mínimo erro para haver problemas e mais umas quantas frases freitas do dicionário da bola. As dúvidas dissiparam-se aos 75': novamente criando a partir da esquerda, Prestianni concentrou atenções, deu para Echeverri e este solicitou Sudakov. O ucraniano, que tem vivido meses difíceis em Portugal, com falta de confiança e o pano de fundo da guerra no seu país sempre presente, marcou pela primeira vez desde 5 de dezembro de 2025. Foi mais do que um mero remate certeiro para o médio.
O apito final chegou sem que o Vitória esboçasse uma reação, ainda que Telmo Arcanjo, num cruzamento venenoso, tenha acertado no poste. Apenas uma vitória em oito rondas é pouco num ambiente em que a paciência escasseia, mas provalmente Tiago Margarido é mais vítima que culpado. O Benfica, após a derrota no Dragão, retornou às vitórias, fiel ao ritmo que Marco Silva desde cedo está a colocar.