A picareta do Sporting foi a Lens encontrar pedras preciosas
Suárez festeja o golo que o tornou no melhor marcador de sempre do Sporting na Champions
Franco Arland - UEFA
Com uma consistência defensiva uns bons furos acima do que se tem visto esta época, o Sporting somou, na antiga cidade mineira de Lens, a segunda vitória em dois jogos na Champions (2-0). Um triunfo que começou atrás e foi confirmado pela capacidade do Sporting em cavalgar quando tem espaços. Suárez e Doumbia marcaram os golos da equipa de Rui Borges
Desde os anos 90 que a indústria mineira feneceu em Lens, mas o sentimento rochoso e empedernido das gentes não se desvanece assim. O estádio do Lens, que tem mais cadeiras do que povo tem a cidade, lembra esse passado, assusta, com aquelas reproduções das abafadas e estreitas minas, quem nos túneis se prepara para dar o peito àquele ambiente.
Não era um cenário fácil para um Sporting (nem para ninguém, diga-se) que, face ao calendário, não pode desdenhar qualquer ponto nas primeiras jornadas da Champions. Os tubarões vêm lá mais para o final. E começou bem o leão a caminhada, ganhou em casa ao Galatasaray. No Stade Bollaert-Delelis, onde Portugal eliminou a Croácia há precisos 10 anos, no Euro 2016, o desafio era maior, perante uma equipa intensa, rápida, mas com buracos. Foi mais mineira que o Lens a equipa de Rui Borges, e isso foi decisivo, numa das exibições mais fortes e consistentes da temporada, fazendo, para já, um importante pleno: dois jogos, duas vitórias. Na Champions, de picareta no ombro, o Sporting vai encontrando umas quantas pedras preciosas. E pontos essenciais.
Kadile não consegue chegar à bola, com Fresneda a controlar
YOAN VALAT
A vitória do Sporting foi feita, em primeiro lugar, de uma solidez defensiva pouco vista esta época, mutando-se depois em ataques rápidos com os quais o leão fez dois golos, mas até podia ter feito mais, tivesse a equipa toda ao mesmo nível. Luis Suárez, em mais um jogo extraordinário, marcou, foi pivô, ajudou na primeira fase defensiva. Doumbia, depois de uma primeira hora de jogo em que foi um dos mais pobres executantes do Sporting, fechou as contas na segunda parte, com um gesto técnico que teria levantado as bancadas do Bollaert-Delelis, não estivessem já os adeptos quase sempre de pé.
Tudo isto num jogo em que o Sporting começou francamente mal, sem capacidade para reter bola, caindo ingenuamente na pressão alta do Lens. A tentar travar os franceses com referências individuais, o vagabundo Thauvin baralhava constantemente os intentos dos leões. Só a partir dos 15 minutos a equipa assentou, percebeu as dinâmicas do adversário. O golo que abriria o marcador não demorou.
Foi num raro lance de progressão pelo corredor central, algo que o Sporting não tinha conseguido até aí, que João Simões foi galgando metros, antes de abrir para Irankunda, instrumental no início da jogada, na combinação com Inácio. O cruzamento rasteiro do australiano encontrou o toque de classe de Luis Suaréz, que marcou o sétimo golo pelo Sporting na Champions, tornando-se no melhor marcador dos leões na liga milionária.
A partir do primeiro golo, o Sporting despojou-se de amarras na transição, mas a decisão no último terço pesava. Geny teve noite incaracterística, Doumbia era o mais perdido a meio-campo. Atrás, na baliza, Rui Borges via a aposta em Kaíque Pereira a dar frutos: depois de uma primeira intervenção a medo, após remate de Thauvin, o brasileiro, que relegou Rui Silva para o banco, partiu para uma exibição sólida, com defesas importantes na 2ª parte. A sua capacidade de jogar com os pés foi incentivada, mas ainda precisa de afinação.
Luis Suárez, furtivo como um gato na noite escura, quase bisava ainda na 1ª parte, surgindo de surpresa em frente a Risser depois de ser assistido. O guarda-redes francês respondeu com um voo impressionante. Ivanovic, na outra baliza, não esteve longe do empate, numa bola rematada à entrada da área e que foi fugindo e fugindo a Kaíque até bater no poste.
Sem dar a oportunidade de ser abafado no início da 2ª parte, como tinha acontecido no arranque do encontro, o Sporting voltou do intervalo com a mesma ideia: atrair curto, lançar longo, aproveitar o espaço nas costas do adversário. Tem resultado na Champions, precisará seguramente a equipa de um plano B no campeonato, onde decididamente não encontrará tantos espaços.
Doumbia marcou o segundo golo dos leões em Lens
YOAN VALAT
Com Geny Catamo desinspirado, a noite nas alas foi de Irankunda, que parece florescer quando aplica a sua velocidade de especialista no hectómetro e joga simples, não se comprometendo com tricotados. Nem toda a gente tem de ser douta em ponto-cruz. João Simões teve nos pés o 2-0 numa jogada em que a inteligência de Suárez a encontrar o flanco livre não teve correspondência no remate do jovem português, de regresso após longa paragem por lesão.
Nem sempre um mestre na hora de mexer, Rui Borges fê-lo em boa hora em Lens, lançando, para os últimos 15 minutos, a energia de Silas Anderson e a fantasia de Jesse Derry. E foram os dois jogadores de cabelo platinado a inventar o 2-0, primeiro com o inglês a desembaraçar-se de dois adversários, com o dinamarquês, ainda bem antes do meio-campo, a lançar Doumbia, agora na meia-esquerda. O italiano salvou a sua noite com uma trivela que surpreendeu a saída de Risser, sentenciando um jogo em que as poucas oportunidades do Lens tiveram a oposição segura de Kaíque.
Com espaço para explorar, e tal como já tinha acontecido em Braga, o Sporting vai construindo capacidade para ferir o adversário. Será uma equipa complicada para quem jogue de peito feito, como o Lens. Dentro de portas, nem sempre será uma solução. Mas para a Champions, até ver, o registo é perfeito.