Crónica

Jamais teria estado onde estive e vivido o que vivi e não tivesse tomado a melhor opção da minha vida: tornar-me árbitro de futebol

Jamais teria estado onde estive e vivido o que vivi e não tivesse tomado a melhor opção da minha vida: tornar-me árbitro de futebol

Duarte Gomes

Diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol

Duarte Gomes, diretor técnico nacional da arbitragem, faz a retrospetiva da sua carreira como árbitro, que terminou há 10 anos

Fez na última semana dez anos que terminei a carreira como árbitro de futebol. Tinha 43 anos de idade.

Contas feitas, passei mais de metade da minha vida de apito ao pescoço.

Foram 25 anos ininterruptos a dirigir cerca de 2.000 jogos (contas por alto), da base ao topo.

Tive a felicidade de atuar em centenas de estádios e conhecer milhares de pessoas. Fui a cidades incríveis, andei em países longínquos e conheci hábitos, culturas e costumes que nunca pensei vivenciar ao vivo e a cores.

Coloquei todas essas memórias (umas fantásticas, outros menos felizes) num cantinho especial que guardo para um dia partilhar com filhos e netos.

No meio de tanta intensidade, uma certeza: jamais teria estado onde estive e vivido o que vivi se não tivesse tomado aquela que considero ter sido a melhor opção da minha vida: tornar-me árbitro de futebol.

O meu trajeto foi igual ao de todos os outros: começar na base, com jogos de formação e amadores. Fui árbitro distrital uma série de anos até chegar aos nacionais. Daí até à liga profissional foi um saltinho. E depois, claro, toquei o céu ao atingir a internacionalização. Fui um privilegiado, tive sorte pelo meio e estou eternamente grato à arbitragem por me ter permitido ser tão feliz.

Mas mais importante do que o escalar de todas essas etapas, o que guardo desses tempos são os ensinamentos que levo para a vida. Aqueles que adquiri fora das quatro linhas.

Aprendi a levantar-me depois de errar. Aprendi a decidir com ponderação quando o mundo exigia emoção ou impulsividade. Aprendi a manter-me firme quando a dúvida fazia-me vacilar. Aprendi que liderar não é impor, é confiar em si mesmo, motivar, responsabilizar, delegar. Aprendi que coragem não é ausência de medo, é lealdade à convicção, mesmo quando todos sugerem que vás em sentido contrário.

E, claro, vivi momentos inimagináveis: finais nacionais e internacionais, dérbis e clássicos escaldantes, jogos com bancadas cheias e em estádios vibrantes, ambientes únicos. E vivi também momentos de tristeza, de frustração e de desilusão pessoal: erros estúpidos que me fizeram questionar o que estava ali a fazer, jogos que terminaram com drama e tensão, mudanças no estilo de vida para evitar males maiores, para me esconder dos perigos da exaltação. Uma solidão invisível difícil de esquecer, mas importante na construção e reafirmação da personalidade.

A arbitragem é tudo isto: um exercício permanente entre equilíbrio, exigência, humanidade e firmeza. Um desafio constante que pressupõe maturidade, caráter, diplomacia, pulso firme, seriedade.

Foi também isso que me fez crescer como pessoa.

Ganhei resiliência, espírito de sacrifício, noção da importância do bom trabalho de equipa. Tornei-me mais humilde para aceitar o erro e a crítica, para aprender e evoluir, para crescer como profissional e como homem. Interiorizei mecanismos valiosos para gerir emoções sem me permitir vacilar nas decisões. E, mais importante ainda, aprendi a aprofundar relações humanas em ambientes extremos. É fundamental conhecer a bondade por detrás da irritação momentânea e a malícia por detrás da máscara de bondade.

Não tenho dúvidas que hoje sou uma pessoa diferente da que seria se não tivesse iniciado este percurso.

Muito do que acontece neste universo não é glamoroso. Pode até ser doloroso. Mas é profundamente pedagógico, formador, construtivo.

Dez anos depois, tenho uma certeza inabalável: se hoje tivesse 14 anos, faria tudo de novo.

A arbitragem não é apenas uma função no desporto. É uma missão de vida, uma das carreiras mais nobres que o futebol tem para oferecer.

Saiam do sofá e juntem-se à nossa equipa. Vale a pena. Acreditem.

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