I. Na semana passada, a arbitragem portuguesa viveu dois momentos especiais, cujo significado vai bem além do mero simbolismo de agenda ou gestão de quotidiano. Foi, na verdade, o cruzamento perfeito entre presente e futuro, entre o que se conquistou e o muito que se pretende alcançar.
Comecemos pelo segundo. O arranque do Projeto dos Coordenadores Técnicos Distritais representa um passo estruturante para o setor em Portugal.
Durante demasiado tempo, a distância entre a orientação nacional e a realidade vivida no terreno foi sendo preenchida com boa vontade mas de forma desigual, em função de recursos e contextos locais, vontades individuais e diferentes níveis de acompanhamento.
Percebemos que era fundamental aproximar, alinhar e, sobretudo, começar a garantir desde já alguma consistência de critérios, de norte a sul do país (ilhas incluídas).
Com a implementação desta rede - temos agora um responsável técnico em cada um dos vinte e dois conselhos de arbitragem distritais/regionais - dá-se um salto qualitativo inequívoco.
Pela primeira vez, está implementada uma estrutura técnica local, pensada para acompanhar árbitros, ajudando-os a crescer não apenas sob o ponto de vista técnico, mas também sob o ponto de vista comportamental e humano.
Já o dissemos antes, mas não nos cansamos de o repetir: arbitrar não é apenas decidir bem em campo ou é em sala. Não é apenas “apitar”. É saber estar, comunicar, liderar e resistir à pressão. É ser credível e respeitado, oferecendo credibilidade e dando-se ao respeito.
Este modelo agora em a dar os primeiros passos permite-nos ainda concretizar algo impactante: o de falarmos a uma só voz, ou seja, começarmos a uniformizar critérios, a consolidar processos, a identificar talento e a criar condições para que a retenção e valorização dos mais novos seja uma certeza a médio/longo prazo.
Não pretendemos apenas melhorar o presente. Pretendemos, acima de tudo, antecipar o futuro em equipa, com planeamento e estratégia comum.
II. No mesmo dia, outro momento reforçou esta ideia de caminho feito e a percorrer pelo Conselho de Arbitragem da FPF: o que assinalou a entrega das insígnias FIFA aos nossos(as) árbitros(as) internacionais.
Mais do que uma cerimónia simbólica, este evento formalizou o reconhecimento do mérito. Foi um sinal claro que o trabalho, a consistência e a qualidade são recompensados, quando há consistência, foco e empenho.
Este ano, a cerimónia teve um sabor especial: atingimos um recorde de árbitros e árbitras a alcançarem este estatuto (53 ao todo).
Este número não surgiu por acaso. Foi o resultado de anos de investimento e de uma cultura que valoriza cada vez mais a responsabilidade, a preparação e o desempenho. Mas é, acima de tudo, um testemunho de qualidade dos(as) nossos(as) árbitros(as), tantas vezes mal amados intramuros, mas crescentemente valorizados além-fronteiras.
Para nós, a questão é clara: ser árbitro(a) internacional é, naturalmente, uma conquista e um sucesso individual, mas também uma responsabilidade coletiva. De cada vez que dirigem jogos lá fora, cada um destes cinquenta e três nomes levarão consigo a imagem da arbitragem e do futebol português. E cada atuação no estrangeiro será uma oportunidade para reforçarem a (boa) reputação que queremos manter nas competições UEFA e FIFA.
Há ainda uma dimensão fundamental neste cenário: a do exemplo.
Para quem está agora a começar, para quem ainda percorre os campos distritais, estes(as) árbitros(as) são referências, heróis a seguir. A prova viva de que o caminho pode ser percorrido com resiliência e ambição.
Na semana passada, criámos melhores condições na base e premiámos a qualidade no topo. É precisamente nessa ligação - entre proximidade e excelência - que se constrói uma arbitragem mais forte.
Passo a passo, da base ao topo, com pensamento, ponderação e noção clara de onde estamos e para onde queremos caminhar.