Crónicas

A Itália ficou para trás. O futebol alemão pode seguir o exemplo se continuar a marcar os adversários até à casa de banho

O Bayern de Munique, única equipa alemã ainda na Champions, vai defrontar o Real Madrid nos quartos de final
O Bayern de Munique, única equipa alemã ainda na Champions, vai defrontar o Real Madrid nos quartos de final
Nicolò Campo

A abordagem tática retro de fazer marcações individuais a todo o campo está a fazer um regresso inesperado, começado há uns anos pela Atalanta. É um dos fatores, defende Philipp Lahm, que está a prejudicar o futebol italiano (sem equipas na Liga dos Campeões) e pode precipitar o germânico (que só tem o Bayern) para o mesmo caminho

A Itália ficou para trás. O futebol alemão pode seguir o exemplo se continuar a marcar os adversários até à casa de banho

Philipp Lahm

Antigo campeão do Mundo de futebol

Na Alemanha, os treinadores costumavam dizer: “Segue o teu adversário até à casa de banho!” Era assim que se definia a marcação homem a homem e por isso os defesas não tinham de pensar muito. Esta abordagem tática retro está a fazer um regresso inesperado desde que a Atalanta de Bérgamo; esta aldeia gaulesa - não, lombarda - venceu a Liga Europa em 2024 utilizando esse método.

Perante uma equipa com uma qualidade individual significativamente superior, naturalmente não se tem qualquer hipótese na marcação homem a homem. A Atalanta teve de aprender isso da pior forma, nos oitavos de final da Liga dos Campeões. O Bayern dispôs de espaços absurdamente amplos e marcou dez golos. É raro haver jogos tão desequilibrados na fase eliminatória.

Espero que, na Alemanha, se retirem as conclusões certas, porque cada vez vemos mais este tipo de marcação individual na Bundesliga. Ainda assim, só pode ser uma medida de curto prazo com o objetivo for surpreender o adversário e colocá-lo sob pressão, como no andebol pouco antes do apito final. Não é, porém, uma estratégia para todo o jogo, pois um campo de futebol é demasiado grande para isso.

Os espanhóis, por seu lado, mantêm-se fiéis a uma ideia diferente que adotaram: defesa orientada para a bola, posições e funções claramente definidas, futebol organizado e combinativo que desloca a ação para o meio-campo adversário. Do ponto de vista cognitivo, isto exige mais do que 90 minutos de duelos individuais. Os jogadores têm de cooperar, orientar-se e, no momento certo, guiados pelo coletivo, entrar em situações de um para um. O um para um continua a ser o núcleo da excelência.

Harry Kane marcou dois golos à Atalanta no jogo da segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões
Markus Gilliar - GES Sportfoto

Todo o país funciona assim; para os espanhóis, trata-se de uma questão de identidade. Têm todas as provas que demonstram que estão no caminho certo. Os seus clubes conquistaram um total de 24 títulos nas três competições europeias neste século. Segue-se Inglaterra com 12, depois Itália e Alemanha com cinco e quatro, respetivamente.

No total, seis clubes espanhóis diferentes partilharam esses sucessos. Da Bundesliga, apenas dois o conseguiram no mesmo período. Em sete dos últimos 12 anos, a Liga dos Campeões foi conquistada por clubes da La Liga que, nesta temporada, volta a ser o campeonato que coloca mais equipas nos quartos de final: Real, Barça e Atlético.

Estes três podem não ser necessariamente os favoritos este ano, uma vez que esse estatuto pertence à melhor equipa da fase de grupos e ao campeão em título. Estas equipas têm elementos espanhóis, uma vez que os seus treinadores são produtos da escola do Barça e, de certa forma, influenciados por Pep Guardiola: Mikel Arteta (Arsenal) e Luis Enrique (PSG) têm esse estilo no sangue, ainda que cada um o interprete com as suas próprias nuances.

Os treinadores espanhóis dominam a Europa. Nos oitavos de final das três competições estavam presentes 11, mais do dobro do país com o segundo maior número. Nos quartos de final, são três - mais do que qualquer outra nacionalidade. Repetidamente, são os espanhóis que causam sensação. Xabi Alonso acabou com o domínio do Bayern ao serviço do Bayer Leverkusen. Unai Emery continua a levar clubes de segundo plano para a ribalta, atualmente o Aston Villa. Cesc Fàbregas está a agitar a Serie A com o Como 1907 e a transformar o futebol italiano.

A longa série de vitórias de Pep Guardiola na Premier League chegou ao fim na época passada. A sua equipa tinha perdido inspiração. Trabalhar todos os dias a mesma ideia não resulta para sempre. Agora, está a construir algo novo em Manchester, a evoluir ainda mais e a apostar em perfis de jogadores diferentes dos anteriores. Foi eliminado da Liga dos Campeões este ano (pelo seu compatriota Álvaro Arbeloa), mas isso continua a ser suficiente para lutar pelo título e conquistar troféus em Inglaterra.

Cesc Fàbregas é o treinador do Como, a equipa 'da moda' do futebol italiano que está no 4º lugar da Serie A
NurPhoto

E depois há Luis de la Fuente, que trabalha há mais de uma década na Federação Espanhola de Futebol, tendo conquistado Campeonatos da Europa com várias seleções jovens e, em 2024, com a equipa principal. Três dos últimos cinco títulos europeus foram para Espanha. Nem sequer a Alemanha conseguiu tal domínio nas décadas de 70 e 80. Quando Gary Lineker dizia que, no fim, os alemães ganham sempre, referia-se a esta era. Tal já não acontece: hoje é a Espanha. No Mundial deste verão, a equipa de de la Fuente é, naturalmente, uma candidata ao título.

A escola espanhola substituiu a italiana como modelo dominante. Itália continua a produzir treinadores para o mercado internacional, mesmo depois de Carlo Ancelotti, mas as equipas já não ganham. Há um ano, escrevi na minha coluna que ao futebol italiano faltam intensidade, compromisso, dinamismo, capacidade atlética e iniciativa - razão pela qual deixou de ter jogadores de classe mundial. Em resposta, o Süddeutsche Zeitung, jornal da minha cidade natal, Munique, acusou-me de recorrer a “clichés”.

No entanto, não há italianos nos quartos de final da Liga dos Campeões deste ano e por pouco não tivemos, pela primeira vez, uns oitavos de final sem qualquer equipa italiana, não fosse a Atalanta de Bérgamo ter eliminado o Borussia Dortmund no último segundo. E a seleção italiana falhou o apuramento para o Mundial pela terceira vez consecutiva. Há quatro anos, a Macedónia do Norte foi mais forte; desta vez, foi a Bósnia.

A Itália ficou para trás. Se a Alemanha seguir este novo caminho, o mesmo pode acontecer. Surpreende-me que tantos defesas na Bundesliga estejam novamente a seguir os adversários até à casa de banho. O Bayern também o faz; Vincent Kompany recorre por vezes à marcação individual. Na Bundesliga, onde não enfrenta concorrência, os erros não são castigados. E, na fase de grupos, apanhou o campeão em título, o PSG, desprevenido com o seu estilo. Nesse momento, a Europa ficou impressionada.

Mas, poucas semanas depois, o Arsenal estava bem preparado. Para alcançar grandes objetivos, um treinador precisa de um estilo distintivo. Kompany, discípulo de Guardiola, parece estar a tentar passar de uma defesa baseada na posse para a marcação homem a homem. Conseguir gerir essa transição sem perder o controlo seria um feito máximo. Até agora, nenhum treinador o conseguiu. Nem mesmo os melhores se atreveram a tentar.

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