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A visão de Ralf Rangnick, o “oráculo” que revolucionou o futebol alemão e quer devolver a glória perdida à Áustria

A visão de Ralf Rangnick, o “oráculo” que revolucionou o futebol alemão e quer devolver a glória perdida à Áustria
ODD ANDERSEN/Getty
Jogar, em 1983, contra o Dínamo Kiev de Valeriy Lobanovskyi foi uma “epifania futebolística” para o atual selecionador austríaco. Bebendo do mítico técnico ucraniano ou de Sacchi, Rangnick foi desenvolvendo o gegenpressing, a filosofia que mudou o futebol alemão e influenciou Klopp, Schmidt ou Nagelsmann. Na Áustria, que defronta os Países Baixos (terça-feira, 17h, Sport TV1) na última jornada do Grupo D, procura imitar o que fez no Hoffenheim ou no grupo Red Bull: desenhar um futuro diferente
A visão de Ralf Rangnick, o “oráculo” que revolucionou o futebol alemão e quer devolver a glória perdida à Áustria

Pedro Barata

Jornalista

Estávamos em 1983. Podia ser só mais um dia daquele ano em Backnang, pequena localidade a cerca de 30 quilómetros de Estugarda. Bem, provavelmente para a maior parte das pessoas de Backnang foi só mais um dia em Backnang. Mas para um jovem de 25 anos não.

Ralf Rangnick era jogador-treinador do Viktoria Backnang, o clube local. Quando era um aspirante a futebolista profissional, sempre lhe destacaram o sentido tático e gosto pela estratégia, pelo que ser técnico e jogador em simultâneo pareceu um passo natural. Naquele dia de 1983 tão normal para tantos, o jovem teria o que, anos mais tarde, classificaria como “epifania futebolística”.

O Dínamo Kiev, grande equipa soviética da altura, estava na zona e organizou-se um amigável contra o Viktoria Backnang. Profissionais de alto nível contra amadores, como aqueles jogos que as equipas portuguesas faziam nas pré-épocas do passado, goleando conjuntos amadores neerlandeses ou suíços.

Mas aquela não era uma equipa profissional qualquer. Era o Dínamo Kiev de Valeriy Lobanovskyi, o génio tático ucraniano, o homem que tem uma estátua junto da qual, em 2003, Shevchenko colocou a taça da Liga dos Campeões conquistada pelo AC Milan, em modo de tributo. E o Dínamo fascinou o treinador-jogador do Viktoria Backnang.

Ralf Rangnick já jogara, no passado, este tipo de amigáveis contra profissionais. Mas “nunca tinha sido assim”. “Eles não nos deixavam respirar, não paravam de pressionar, sempre agressivos. Quando terminou, pensei que aquilo era outro futebol, um tipo de futebol muito diferente”, contaria, anos mais tarde, ao “New York Times”.

Nos anos seguintes, o jovem Rangnick foi regularmente a Kiev assistir a treinos de Lobanovskyi. Devorou também o Milan de Sacchi. E foi aprimorando os princípios que detetara, dentro de campo, naquele dia normal para todos menos para ele de 1983.

Pressão. Agressividade. Roubar a bola. Roubar a bola e atacar. Atacar de forma direta, em poucos passes. Energia. Muita gente em torno da bola para pressionar e disparar em direção à baliza adversária.

ullstein bild/Getty

Naqueles anos 80 e 90, Rangnick foi treinando equipas de formação ou de escalões inferiores na Alemanha. Até que chegou ao Ulm, pequeno clube que levou até à 2. Bundesliga, com algum destaque. E aí pode expor aquele ideário, o conjunto de princípios que polira desde o “sufoco” contra o Dínamo, a um país que não parecia pronto para eles.

O “professor do futebol”

A Alemanha do final dos 90 estava ainda agarrada a clássicos princípios do fussball. Jogar com cinco homens atrás e líbero, marcações ao homem.

Foi nessa realidade que Rangnick ganhou algum destaque no modesto Ulm. E isso levou-o, em dezembro de 1998, ao palco do “Das Aktuelle Sportstudio”, um programa apresentado por Michael Steinbrecher que era uma instituição nacional.

Ali, num país cuja seleção era a vigente campeã da Europa e que vencera o antepenúltimo Mundial que se disputara, num país em que o Borussia Dortmund conquistara a Liga dos Campeões 18 meses antes e o Bayern Munique estava a meses de chegar a outra final, um treinador da segunda divisão disse — não literalmente: “Vocês estão todos errados.”

Durante alguns minutos, Rangnick explicou que o futebol alemão estava a ficar para trás, que os tempos do líbero iam acabar, que era preciso mudar.

Era preciso pressão. Agressividade. Roubar a bola. Roubar a bola e atacar. Atacar de forma direta, em poucos passes. Energia. Muita gente em torno da bola para pressionar e disparar em direção à baliza adversária.

A reação inicial foi de gozo. Aquele desconhecido num programa de grandes audiências a falar com um quadro tático pareceu ridículo. Chamaram-lhe, em tom jocoso, “o professor do futebol”.

Só que o fracasso da mannschaft foi quase uma aprovação das críticas do filho de mãe nascida em Wroclaw, na Polónia, e pai de Kaliningrado, hoje território russo nas margens do Báltico. A Alemanha caiu na fase de grupos dos Europeus de 2000 e 2004 e, subitamente, muita gente começou a dar razão ao tipo com pinta de lunático.

Gegenpressing e revoluções

Pressão. Agressividade. Roubar a bola. Roubar a bola e atacar. Atacar de forma direta, em poucos passes. Energia. Muita gente em torno da bola para pressionar e disparar em direção à baliza adversária.

Surgia o gegenpressing, a filosofia de jogo que tem Rangnick como pai espiritual e que, nos últimos 20 anos, foi ganhando discípulos que, partindo da Alemanha, conquistaram o mundo.

Jürgen Klopp, bicampeão da Bundesliga pelo Borussia Dortmund, campeão inglês e europeu pelo Liverpool; Thomas Tuchel, campeão europeu pelo Chelsea; Julian Nagelsmann, o treinador-prodígio, atual selecionador alemão; Roger Schmidt, campeão da I Liga pelo Benfica; e Marco Rose, Ralph Hasenhüttl, Adi Hütter, Oliver Glasner, Matthias Jaissle…

Nos últimos anos, houve momentos em que o topo da tabela da Bundesliga era uma coleção de discípulos de Rangnick, ao ponto de o “Bild” chamar “Rangnickliga” ao campeonato.

Roger Schmidt e Ralf Rangnick, protagonistas de uma revolução em Salzubrgo
ullstein bild/Getty

Num artigo de 2020, o “New York Times” chamou-lhe “o oráculo do futebol”, espécie de divindade que antevia o caminho que se seguiria. À boleia da revolução que idealizou para o futebol que se jogava na Alemanha, Rangnick tornou-se perito em revolucionar clubes.

Primeiro foi no Hoffenheim de Dietmar Hopp. Pegou num clube que estava na segunda liga, subiu-o à Bundesliga, estabilizou-o na elite. Certo dia, derrotou o jovem Borussia Dortmund de Klopp e Jürgen disse que “um dia” a sua equipa “seria capaz de jogar assim”.

Depois de revolucionar um clube, revolucionou um império. Reuniu-se com Dietrich Mateschitz, o bilionário co-fundador da Red Bull, e propôs-lhe um futebol condizente com os valores da marca de bebidas energéticas. Agressivo. Veloz. Audaz. Radical. Soa familiar?

Nomeado diretor de futebol do grupo Red Bull em 2012, Rangnick unificou o estilo das duas principais equipas do conglomerado, em Leipzig e Salzburgo. Na Áustria, juntamente com Roger Schmidt, colocou as bases para a hegemonia que se criou no país.

Na Alemanha, onde chegou a ser treinador em dois períodos, foi igualmente decisivo para a jornada que levou o emblema do leste da Alemanha das divisões inferiores até às meias-finais da Liga dos Campeões. Em Salzburgo e Leipzig, a fórmula era semelhante: contratar jovens em todos os cantos do mundo, formá-los no estilo Red Bull. Que estilo era esse?

Pressão. Agressividade. Roubar a bola. Roubar a bola e atacar. Atacar de forma direta, em poucos passes. Energia. Muita gente em torno da bola para pressionar e disparar em direção à baliza adversária.

O estilo das bebidas energéticas. Gegenpressing na Alemanha, na Áustria, na Europa, no mundo. Gegenpressing a projetar clubes, a moldar treinadores, a colocar futebolistas em colossos internacionais.

"Nunca tinha ouvido falar dele", disse Ronaldo sobre Rangnick, que o orientou no Manchester United
Alex Livesey/Getty

Tristeza em Manchester, alegria na Áustria

Foi, também, para alterar o clube que, em 2021, o Manchester United contratou Ralf Rangnick. Inicialmente a ideia era que fosse uma espécie de diretor-geral, mas o despedimento de Ole Gunnar Solskjaer empurrou-o para o banco.

Num emblema em profunda crise, contratar um ideólogo a longo prazo para ser um penso rápido estava destinado ao insucesso. Rangnick pareceu sempre um interino incrivelmente interino, condenado a alguns meses a tapar buracos e a ir-se embora. Teve direito a mensagem de despedida de Cristiano Ronaldo, que, meses depois do adeus do alemão, disse que “nunca ouvira falar nele” antes de o ter como técnico em Old Trafford.

Concluída a breve passagem por Manchester, deu-se novo casamento consentâneo com o modo como o homem de 65 anos encara o seu trabalho. Um convite da seleção da Áustria, um dos países que mais bebeu da sua filosofia, um local onde trabalhara com êxito no RB Salzburgo, uma equipa nacional cheia de gente da Bundesliga, habituada ao ideário futebolístico de RR.

Os austríacos vinham de uma má campanha de qualificação para o Mundial 2022, ficando em quarto, atrás da Dinamarca, da Escócia e de Israel. Ainda foram ao play-off, mas foram batidos pelo País de Gales.

Rangnick chegou e rapidamente convenceu. Não só qualificou a Áustria para o Euro 2024, como derrotou a Itália num amigável em novembro de 2022, a Alemanha num amigável em novembro de 2023, empatou em Bruxelas, contra a Bélgica, em junho de 2023. Já em 2024, na preparação para a competição da Alemanha, fez três amigáveis contra seleções que estariam na fase final (Eslováquia, Sérvia e Turquia) e venceu os três.

Claro que Rangnick quer ser mais do que um selecionador. Ele é um homem de projetos, de revoluções, de grandes transformações.

Trouxe para a Áustria equipas de análise de vídeos e dados, as quais quer que trabalhem com todas as seleções do país. Até assessores de imprensa recrutou pessoalmente, mas coloca ainda mais ênfase em “mudar a mentalidade” da seleção.

Alex Livesey/Getty

A Áustria foi uma potência das décadas iniciais do jogo internacional. Ficou em quarto no Mundial 1934 e em terceiro no Mundial 1954, mas depois apagou-se. Desde aí, o melhor que os austríacos fizeram foi chegar à segunda fase de grupos dos Mundiais de 1978 e 1982 — o que equivalia a acabar entre os 12 primeiros — e aos oitavos de final do passado Europeu.

No entanto, no país ainda se fala com um misto de orgulho e nostalgia do “milagre de Córdoba”, quando bateram a RFA no Mundial de 1978. Rangnick acha que “se pode saborear o sucesso por um dia ou dois”, mas “depois é preciso olhar em frente, ter mais ambição”.

Além dos bons resultados, o facto de, em maio, ter rejeitado o cargo de treinador principal do Bayern para se manter fiel à seleção austríaca também ajudou ao romance com os adeptos da equipa que, esta quarta-feira, defronta os Países Baixos (17h, Sport TV1) de Ronald Koeman. “Sou o selecionador da Áustria com todo o coração. Não é uma rejeição ao Bayern, mas um compromisso para com os nossos objetivos comuns”, disse então.

RR também deixou a sua marca quando, em março, excluiu três jogadores do Rapid Viena (Marco Grüll, Guido Burgstaller e Niklas Hedl) da convocatória para os amigáveis da seleção devido a cânticos homofóbicos. As ofensas foram proferidas após um triunfo no dérbi contra o Áustria Viena.

“É algo que não tolero como treinador. Tudo o que defendemos como seleção está na ponta oposta àquilo. E foi o que lhes disse”, justificou, na altura, Rangnick, que deixou claro que “não era uma expulsão definitiva da seleção”. “Espero que eles reflitam e aprendam". Dois desses futebolistas (Marco Grüll e Niklas Hedl) estão com a Áustria no Europeu.

Quem não está são os lesionados David Alaba, Alexander Schlager e Xaver Schlager, três habituais pilares da equipa. Ainda assim, o selecionador decidiu levar Alaba para o estágio, com a estrela do Real Madrid a fazer de capitão e líder de balneário.

Apesar das ausências, a Áustria joga como uma equipa de Rangnick. É a equipa do Europeu com maior média de faltas por jogo (16) e a quinta com mais recuperações no meio-campo ofensivo por encontro (14,5).

Agressivos. Pressionantes. Com energia. Derrotaram a Polónia, dificultaram a vida a França. E RR, o “oráculo”, não tem dúvidas: “Ao nosso melhor nível, podemos derrotar qualquer equipa”.

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