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Aos 11 anos, Nadia Nadim fugiu dos talibãs que executaram o pai: hoje tem quase 100 jogos pela Dinamarca e acaba de se tornar médica

Aos 11 anos, Nadia Nadim fugiu dos talibãs que executaram o pai: hoje tem quase 100 jogos pela Dinamarca e acaba de se tornar médica

Cabul, Karachi, Milão, Randers e Aalborg. Foi esta a rota da família Nadim, que escapou dos talibãs em segredo. Depois de passagens pelo PSG e Manchester City, Nadia Nadim joga agora no Racing Louisville, dos Estados Unidos, e finalizou o curso de Medicina: “Mãe, consegui!”

Quando a cadeira de Rabani, o pai de Nadia, teimava em manter-se desocupada, as cinco irmãs suspeitaram de que algo estaria errado. Estamos algures em 2000, numa altura em que os talibãs já haviam virado do avesso o Afeganistão. O pai das meninas, um general do exército que não gozava de grande simpatia pelos opressores devido à influência que tinha, não voltou de uma reunião com um ministro. A incerteza moía-lhes o ventre.

A família Nadim vivia bem, num complexo com segurança e distância para o terror que ocorria todos os dias nas ruas de Cabul. Quando a mãe soube que o marido fora executado pelos talibãs, decidiu que era altura de deixarem tudo para trás. Vendeu tudo e avisou as meninas de que iam fugir na noite seguinte. Uma mini van levou-as, a Hamida e às cinco filhas, para Karachi, no Paquistão, onde viveram discretamente à espera de melhores notícias. Nadia lembra-se do homem que ia lá a casa — “gordo”, “pequenino” e “com um bigode” — conversar com a mãe. Magicavam um plano de fuga para a Europa. Certa vez, ele arranjou-lhes quatro passaportes forjados, mas a mãe rejeitou, afinal ficavam duas de fora daquela equação. Esperou até que houvesse seis passaportes. E aconteceu.

(Eóin Noonan/Sportsfile via Getty Images)

Primeiro voaram para Milão. Depois, mais uma vez dependentes de homens que obedeciam ao dinheiro, fizeram a travessia perigosa e sombria, e até julgavam, erradamente, estar em Londres, onde iam ter com familiares. “Durante dias estivemos sentadas na escuridão, ouvindo o motor e o vento”, assim ia relatando a sua história, no “The Player’s Tribune”, Nadia Nadim, hoje com 34 anos e com passagens como futebolista no PSG e Manchester City. E a carrinha parou e mandaram-nas sair, pouco interessados no desfecho daquela história.

Não se parecia nada com Londres.

Então, perguntaram a um velhote que passeava o cão onde estavam. “Randers”, ouviram. Dinamarca. “Estávamos em choque, mas ninguém queria saber. ‘Que se lixe, estamos em segurança, estamos juntas’”, recorda dizerem. Um polícia ajudou-as, deu-lhes de comer e encaminhou-as para um acampamento onde acabariam por pedir asilo. O medo não as abandonou, porque ouviam e viam de tudo.

Dois meses depois, mudaram-se para outro acampamento, perto de Aalborg, mais simpático e familiar. Quando alguém recebia uma carta com a devida autorização de permanência no país, juntavam-se todos na cozinha, havia uma festa e música. Celebravam. Certa vez, Nadia caminhava com Diana, uma irmã mais nova, que lhe perguntava o que ia acontecer. Queria também saber se poderiam jogar mais futebol no futuro. A dúvida, mais uma vez, sufocava. No regresso dessa passeata, estava a haver uma festa, alguém garantira o direito a ficar na Dinamarca. A mãe delas estava a chorar: desta vez, eram elas. E assim, em 2008, começou uma segunda vida para Nadia Nadim e família.

Por estes dias, acaba de finalizar o curso de Medicina. “Mãe, consegui!”, escreveu recentemente no Twitter, juntamente com uma fotografia em que carrega uma imensidão de flores.

MAMA, I MADE IT!!!! #SchoolsOut
Doctor Nadim in the house! 😍🦖🙏🏽 pic.twitter.com/QIn2xkcVwV

— Nadia Nadim (@nadia_nadim) January 14, 2022

Mas a obra não se fica por aí. Afinal, a rapariga que fugiu aos 11 anos do seu Afeganistão já jogou quase 100 vezes pela seleção dinamarquesa. “Se derem uma possibilidade aos refugiados, eles podem contribuir para uma sociedade melhor. Olhem para mim, sou médica, a minha irmã é médica, outras duas irmãs são enfermeiras”, disse recentemente.

Nadim joga atualmente no Racing Louisville FC, dos Estados Unidos, mas antes passou pelo poderoso Paris Saint-Germain e também pelo Manchester City. Já jogara anteriormente nos EUA, nomeadamente no Portland Thorns e no Sky Blue FC. Na Dinamarca, Nadia Nadim vestiu as camisolas de Fortuna Hjørring e Skovbakken.

Numa entrevista recente, aqui citada pelo “L’Équipe”, admitiu a admiração pela Médicos Sem Fronteiras, uma organização onde gostaria de trabalhar no futuro. No seu mundo ideal, Nadia gostaria de ser médica e futebolista em simultâneo. “Talvez possa colaborar com a FIFA, UEFA ou outra federação, se me quiserem. Eu quero fazer o futebol maior do que é e levá-lo para onde ainda não é realidade.”

Nadia Nadim num PSG-Dijon em junho de 2021 (Aurelien Meunier – PSG/PSG via Getty Images)

No verão, por ocasião da publicação da autobiografia, Nadim admitiu que a sua mãe procurou o pai — “uma espécie de James Bond, poderoso e imortal” — durante meses. Algumas das boas lembranças da infância têm o pai como personagem principal. Foi ele, por exemplo, que a ensinou a jogar com os pés, explicando como deveria chutar e passar a bola. Mas, no Afeganistão, as liberdades das meninas e das mulheres eram (e são) limitadas. E não havia futebol.

Tudo mudou na Dinamarca, sobretudo no segundo campo de refugiados, quando viu outras meninas a jogar. “Talvez tenha começado a jogar futebol para me sentir mais perto do meu pai outra vez”, admitiu numa entrevista ao canal ‘La Chaîne Info’ (LCI). “O que é bonito é que o futebol veio até mim. Eu descobri o jogo, comecei a treinar nas ruas, em todo o lado. A pouco e pouco, depois de alguns meses, ganhei confiança para lhes perguntar se podia jogar com elas. Fui sortuda por me terem aceitado.”

Nadia Nadim conta a sua história como quem coloca na terra, num campo ora reluzente ora árido, a semente da esperança. É a palavra que usa. Esperança. “Sei o valor de ajudar uma pessoa quando ela não tem esperança”, refletiu numa entrevista ao “The Guardian”, em abril de 2020.

“Eu quero inspirar as crianças pelo mundo, dizer-lhes para terem sonhos grandes e para os seguirem”, disse na entrevista ao LCI. “É importante lembrar as raízes, quem és. Vivi tempos complicados. Eu tenho simpatia e empatia pelas pessoas que estão atravessar ou atravessaram o mesmo. Os meus tempos duros não são mais duros do que os das outras pessoas. Tudo é relativo. Como ser humano, quero ajudar o máximo de pessoas possível. Esta é a minha abordagem. Para onde quer que vá, quero levar-lhes um raio de sol.”

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