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Christian sente-se Eriksen: estamos quase a vê-lo outra vez em campo e isto é das melhores notícias do ano

Christian sente-se Eriksen: estamos quase a vê-lo outra vez em campo e isto é das melhores notícias do ano

Depois de disputar um particular esta semana, com direito a uma assistência, o futebolista dinamarquês poderá estrear-se pelo Brentford este sábado, no campo do Arsenal. A última aparição do refinado médio foi naquele Dinamarca-Finlândia, no Euro 2020, um “filme de terror” e “conto de fadas” ao mesmo tempo, segundo Kasper Hjulmand, selecionador do país nórdico

Quando o corpo de Christian Eriksen caiu no relvado do Parken, com o coração já olvidado de fazer o que é suposto fazer, os olhos que agonizavam por ele esmoreciam a cada segundo que passava, temiam o pior. E se o coração não bater outra vez? E se ele não voltar a ser quem é? E se o futebolista deixar de jogar futebol?

Mas o coração voltou a dar-lhe pancadas no peito, Eriksen voltou a ser quem era e o homem que também era futebolista ainda é futebolista. Na segunda-feira, exatamente no seu 30.º aniversário, o novo n.º 21 do Brentford voltou a tocar na bola num jogo de futebol particular contra o Southend United. O dinarmaquês até fez uma assistência e pouco importa se os adversários eram ou não amadores de uma divisão distante da sua. Ele não jogava desde aquele Dinamarca-Finlândia, disputado a 12 de junho, um sábado, a meio da tarde, a contar para o Campeonato da Europa. 

“Depois de ver o que aconteceu no verão, só vê-lo de volta a um relvado foi brilhante”, desabafou Kevin Maher, o treinador do Southend United. A expectativa que agora suspira entre as nuvens é se jogará no sábado, no Emirates, contra o Arsenal (15h). O suspense vai reinando.

Kasper Hjulmand, o selecionador dinamarquês que é chamado de “líder da nação” desde aquele episódio no Estádio Parken, disse recentemente numa entrevista que tem sido um ano tremendo, “emotivo”, mas também um “filme de terror” que é um “conto de fadas” ao mesmo tempo.

“Encontras a tua verdadeira identidade, o que importa na vida”, revelou o treinador ao jornal holandês “Volkskrant”, citado pelo “The Guardian”, onde garantiu que foi um erro a sua equipa voltar ao campo para terminar o jogo. “Descobres porque fazes as coisas e os verdadeiros valores do futebol: amizade, apoio, tolerância, trabalho árduo e compaixão. Tudo o que as crianças aprendem quando jogam futebol, na verdade”, refletiu, admitindo que esses traços se vão perdendo e que por isso, ao voltar a cheirá-los naquela tarde, “foi um momento de verdade”.

E de medo, claro.

É inevitável lembrar o comportamento dos colegas, a forma como esconderam o amigo do voyeurismo lamentável e feroz, como sofreram por ele, como ampararam a sua mulher, Sabrina Kvist Jensen, angustiada e assombrada pelo medo, já dentro do relvado. “Temos grandes capitães”, admitiu na mesma entrevista Hjulmand, sinalizando Simon Kjær e Kasper Schmeichel. Eriksen é outro tipo de capitão, é o “capitão do ritmo do jogo”, que lê tudo e sente como lateja a atmosfera entre os tufos de relva. “Os olhos dele veem tudo. É o coração e o ritmo da equipa”, sentenciou.

(FRIEDEMANN VOGEL/POOL/AFP via Getty Images)

Hjulmand foi ainda questionado sobre o que aprendeu nesse dia. Era um “cliché”, avisou. “Viver no agora. Faz o que sentes agora. Não percas muito tempo no passado e no futuro. Isso é uma inacreditável e valiosa lição. Fez-nos melhores de muitas maneiras.”

“Para mim, foi azar num lugar de sorte”

Depois de rescindir com o Inter de Milão em meados de dezembro, pois não é permitido jogar na Serie A com um desfibrilador interno, o médio assinou pelo Brentford no último dia do mercado de inverno, com um contrato de seis meses. 

Há dias, o dinarmaquês deu uma entrevista à “BBC” na qual começou por dizer que, antes de qualquer coisa, havia que “demonstrar gratidão”. Muita gente transformou aquela história horrível num final feliz. “Às pessoas à minha volta, aos meus colegas, aos médicos que estavam no relvado, aos médicos da equipa e aos paramédicos e depois no hospital, por terem feito tudo e por terem analisado tudo”, ia distribuindo agradecimentos como distribui passes, sem esquecer as mensagens de apoio que recebeu de muitas pessoas e, claro, o que a família viveu e superou.

“Sou muito sortudo e disse-lhes na cara: estou muito feliz por terem feito o que fizeram, caso contrário eu não estaria aqui”, admitiu, soltando depois uma frase interessante. “Para mim, foi azar num lugar de sorte.” Ou seja, a miséria que lhe tocou foi corrigida por quem estava a poucos metros. E ele faz questão de que se saiba que ele percebe isso. Esteve ‘noutro mundo’ durante cinco minutos, só não se lembra de cinco minutos naquele episódio no Parken; depois, sim, recorda-se de acordar e sentir uma enorme pressão no peito, enquanto tentava resgatar o fôlego. Estava perdido sem saber o que tinha acontecido. 

(JONATHAN NACKSTRAND/POOL/AFP via Getty Images)

Nessa entrevista, Eriksen avisou ainda que não vai mudar o seu estilo de jogo, muito menos recear os bullies que calcam os relvados ingleses. E isso é uma boa notícia para a Premier League, onde atuou entre 2013 e 2020 com a camisola do Tottenham. “Eu tive tempo para ser disciplinado nos últimos seis meses, para fazer trabalho extra, por isso se calhar estou em melhores condições do que antes, falta apenas o futebol”, disse. “Sinto-me eu, por isso não vejo uma razão para não voltar ao mesmo nível.”

Thomas Frank, o treinador do Brentford, referiu mesmo que o clube pode ter garantido a sua “melhor contratação de sempre”. As vendas de camisolas dispararam. Kasper Hjulmand admitiu, na tal entrevista ao jornal holandês, que está “muito feliz” com este desfecho.

“Encontrou qualquer coisa ali que acredita que é o certo para ele. O Eriksen jogou mais de 200 jogos na Premier League, por isso é uma liga que conhece, com estádios que conhece. Ele encontrou um lugar onde se sente confiante para dar o próximo passo na luta pelo regresso aos relvados. Estou super feliz por o Christian estar em segurança, feliz e ansioso para jogar futebol”, desabafou o selecionador dinamarquês que alcançou as semifinal do Euro 2020. 

O novo 21 do Brentford Community Stadium, em Londres (Steven Paston/PA Images via Getty Images)

Sobre o regresso, que até pode ser já este sábado com o Arsenal, Eriksen disse que será “muito especial” e “incrível”. Mikel Arteta, treinador dos gunners, usou a mesma palavra — “incrível” — para descrever o eventual retorno à atividade do médio refinado.

“São grandes notícias, graças aos médicos antes de tudo e à equipa médica, que lhe salvaram a vida naquele dia e não posso imaginar o que significa para a família, mas estou certo que estarão ansiosos. Para a indústria do futebol penso que são grandes notícias”, começou por dizer o treinador espanhol na conferência de imprensa de antevisão ao jogo.

“[O Christian] é alguém que esteve muito bem neste país, deixou uma grande marca quando saiu e agora tem a oportunidade de voltar e jogar”, acrescentou Arteta, que espera uma receção simpática para o dinamarquês — “gostaria de ver isso”. Apesar da rivalidade londrina entre o clube e Eriksen, um ex-Tottenham, é provável que isso aconteça mesmo. Afinal, muitos de nós passámos a ter um bocadinho da Dinamarca debaixo da pele depois daquela tarde no Parken.

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