As pistas da magnitude do momento não é ele que as dá, aparentemente indiferente como está, de garrafa de água na mão, à beira do campo e com a caminhar em direção à linha do meio-campo, onde se vê o primeiro sinal deste não ser bem um momento qualquer: ao chegar perto do quarto árbitro, este deixa o quadro eletrónico dos números preso por uma só tenaz e estende-lhe a outra, para um passou-bem. O gesto é banal, mas raramente se dá entre um jogador que se junta a uma partida ao intervalo e um oficial que tem deveres protocolares nessas substituições.
Autorizado a correr relvado dentro, as pistas avolumam-se e ele com a mesma cara serena, a mesma aparente indiferença, ao correr os primeiros metros. É dinamarquês e o selecionador adversários, dos Países Baixos, levanta-se para o aplaudir; a Louis Van Gaal juntam-se as palmas dos neerlandeses que enchem a Johan Cruijff Arena, em Amesterdão, destinadas a um futebolista adversário que em tempos até jogou pelo Ajax, mas não é desse recruzar de caminhos que vem o reconhecimento unânime.
Segundos depois, ele está parado no campo de braços erguidos, a responder a aplausos com palmas suas, agradecendo o gesto consensual. Porque ele é Christian Eriksen e, há 288 dias, todas as pessoas que ali estão tê-lo-ao visto a tombar sem vida no Parken, estádio em Copenhaga, porque quando um coração pára a vida vira escapulida para algures, ninguém entre nós saberá para onde, nem Eriksen, que já dissera não esperar ter recebido “tantas flores por ter estado morto durante cinco minutos”.
Isto já o disseram há uns meses, no interlúdio entre o horripilante e o incrível - no verão, ele caiu inanimado no relvado do Dinamarca-Finlândia no Euro 2020, os companheiros de seleção protegeram-no das câmaras enquanto médicos devolviam batimento ao coração que tem no peito e por momentos esteve nas mãos de quem assistia a tudo aquilo, depois recuperaria e seria implantado com um desfibrilador interno lhe dar estabilidade saudável na vida. O futebol, logo se veria
Viu-se Christian Eriksen a retornar aos poucos, dando entrevistas aqui e ali, entrecortadas com notícias esperançosas e em passos de bebé. Foi dizer um olá aos companheiros do Inter de Milão, clube com o qual tinha contrato que rescindiu, por em Itália ser proibido alguém com mecânica no coração ser futebolista profissional; depois, soube-se que se estava a treinar no Odense, o seu primeiro clube na Dinamarca, a que se seguiu o Ajax, o primeiro onde jogou no estrangeiro. A boa-nova do Brendtford o querer contratar não demorou.
Oito meses contados desde que um atleta de alta competição sofreu uma paragem cardiorrespiratória e ser um humano cair sem vida, durante uns minutos, para mundo ver em direto, Eriksen voltou a jogar futebol profissional na Premier League, numa das ou mesma na melhor liga do mundo. Foram exatos 259 dias depois e só essa façanha serviria de pasmo, ver o dinamarquês já com três jogos feitos pelo novo clube desde fevereiro e outros zunzuns se começarem a ouvir — também poderia regressar à seleção com quem estava quando a vida o rasteirou com uma partida sem graça.
E 288 dias volvidos daquele dia de horrores não concretizados em Copenhaga, ei-lo a entrar ao intervalo do Países Baixos-Dinamarca, a sua seleção estava a perder, mas quem se importa?, nem ele porventura teria o resultado em consideração enquanto devolvia os aplausos, mas já o terá tido quando logo aos 46 minutos e muitos segundos entrou pela área de braço esticado, a pedir o passe rasteiro que lhe chegaria para, ao primeiro toque na bola, rematá-la com o estilo do grande futebolista que sempre foi e a vida o recompensar em menos tempo do que aquele em que esteve fugida do seu corpo.
Christian Eriksen marcou no regresso à seleção, os companheiros rodearam-no no festejo e a magnitude dos aplausos no estádio denunciou que não terão sido apenas dinamarqueses a aplaudi-lo. Terminado o jogo com vitória (4-2) dos Países Baixos, os olhos dele embargaram-se com lágrimas, encharcado em emoção por ter regressado e por o ter feito desta forma. “Fiquei contente por mostrar que ainda posso jogar. Parece que nunca estive fora da equipa e foi um pouco emocionante”, resumiria, no final.
Pelas internets e redes sociais se assinalariam outras contagens, pelos vistos foram 487 dias cumpridos desde que o dinamarquês marcara pela seleção, ou 3.248 dias acumulados da última vez que fizera um golo na Johan Cruijff Arena, contabilizações para puxar o lustro ao simbolismo que é ver um homem, de 30 anos, voltar a ser a sua versão futebolística que o celebrizou, como se nada fosse. Mas o que aconteceu este sábado, em Amesterdão, foi muita coisa: Christian Eriksen domou todo e qualquer demónio daquele dia e voltou a ser feliz com a camisola a que lhe faltava regressar.