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Mircea Lucescu, o treinador que já fugiu de duas guerras na Ucrânia: “O meu sonho é ver o país novamente a sorrir”

Mircea Lucescu, o treinador que já fugiu de duas guerras na Ucrânia: “O meu sonho é ver o país novamente a sorrir”
GENYA SAVILOV/Getty

O veterano técnico romeno estava ao leme do Dínamo Kiev quando a guerra rebentou. Já em 2014, quando treinava o Shakhtar Donetsk, foi obrigado a deixar a cidade depois se iniciarem os conflitos no Donbas. Em entrevista ao “The Guardian”, Lucescu descreve a primeira manhã de bombardeamentos e a ajuda à fuga dos jogadores para a Roménia

Mircea Lucescu, experiente treinador romeno do Dínamo de Kiev, foi obrigado – como quase todos – a deixar a Ucrânia e a suspender a atividade desportiva, abraçando outras, como o auxílio aos jogadores que deixaram o país através da fronteira com a sua Roménia natal. O antigo treinador do Inter, da seleção romena e de outros dos gigantes do futebol ucraniano, o Shakhtar Donetsk, entre muitos outros, deu uma entrevista ao jornal inglês “The Guardian” onde falou do que viveu nos primeiros dias de guerra.

O início da invasão russa apanhou Lucescu, como muitos outros habitantes de Kiev, a dormir. “Acordei a meio da noite e pensei: ‘O que se passa com o tempo? Trovoada em fevereiro?’. De manhã, o alarme acordou-me novamente. Só então percebi o que tinha acontecido. Havia pânico por todo o lado”, descreve o treinador romeno, de 76 anos.

Alguns dias depois dos ataques russos terem início, Mircea Lucescu decidiu, também ele, regressar à Roménia, mas o seu pensamento manteve-se no instável solo ucraniano, com os que ficaram para trás. “Eu não queria partir. Fi-lo apenas porque percebi que podia ajudar mais a partir de Bucareste do que com os meus jogadores, em Kiev”, confessa.

Em parceria com a UEFA e as federações da Roménia e da Moldávia, Lucescu ajudou os jogadores estrangeiros dos rivais Dínamo e Shakhtar a chegarem a casa através da capital romena. “A embaixada romena e o próprio clube insistiram para que eu saísse. Mas eu quis primeiro saber o que ia acontecer aos meus rapazes”, diz o técnico ao “The Guardian”, confessando: “O meu sonho é ver a Ucrânia novamente a sorrir”.

“Pensámos que os jogadores estariam mais seguros no campo de treino do Dínamo, a alguns quilómetros de Kiev”, disse Lucescu, explicando que, mal chegou a Bucareste, começou a planear formas de colocar as famílias dos jogadores em sítios seguros. Oitenta pessoas no total, entre mulheres, pais e filhos dos jogadores, foram levadas para fora da Ucrânia em dois autocarros.

“Ajudei como pude, dei o meu melhor para prestar assistência. As famílias estão seguras e isso encoraja os jogadores”, conta o romeno. Dois futebolistas do Shakhtar Donetsk e o capitão do Dínamo, Sergiy Sydorchuk, estavam autorizados a deixar a Ucrânia por terem três filhos. Foi Lucescu quem lhes arranjou casas perto da sua. “Já em Bucareste, Sydorchuk foi pai pela quarta vez”, conta ao jornal inglês um momentaneamente sorridente Lucescu.

Sobre a estranha relação entre o futebol e a guerra, Mircea Lucescu partilhou a sua visão: “Sei que muitos vão dizer que é moralmente errado que algumas pessoas lutem numa guerra, enquanto outras jogam futebol. Mas cada pessoa luta à sua maneira, podem fazer o melhor para ajudar os que estão no país. A atuação no relvado pode encorajar e inspirar muitas pessoas”.

O experiente treinador orientou os dois grandes rivais do futebol ucraniano, primeiro o Shakhtar, depois o Dínamo. Neste momento delicado, Lucescu diz que “não há lugar para rivalidades, somos um”. O romeno estava em Donetsk quando, em 2014, ocorreu o primeiro ataque russo à região de Donbass. A equipa viu-se obrigada a mudar-se para Kiev, passando a partilhar a cidade com os rivais. “Quando parti, nunca imaginei que não iria regressar”, confessa Lucescu.

O romeno, vencedor de 36 troféus, é o segundo treinador mais premiado de sempre. O primeiro é Sir Alex Ferguson, com 49 taças. Guardiola está em terceiro, a cinco do técnico do Dínamo de Kiev.

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