“Éramos como cadáveres em nossas casas”: como a seleção feminina do Afeganistão escapou aos talibãs
Jogadoras afegãs fotografas em Odivelas, depois de chegarem a Portugal fugidas do Afeganistão.
PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty
As jogadoras e a equipa técnica da equipa nacional afegã enfrentavam bombas, armas e, acima de tudo, o preconceito das regras sexistas impostas pelo regime que lhes governa o país. A família e os amigos ficaram para trás, com as atletas a deixarem o Afeganistão em nome do futebol e da honra, numa operação preparada à distância
Carlos Luís Ramalhão
As jogadoras e a equipa técnica da seleção feminina do Afeganistão poderão ter escapado às bombas, às armas e às leis dos talibãs, deixando para trás o país, onde permaneceram família e amigos, mas o futuro é ainda uma incerteza. A "BBC" falou com a guarda-redes internacional Fati, que aprendeu inglês a ver séries de televisão e filmes num solo pátrio então mais progressista.
Em agosto de 2021, com o regresso dos talibãs ao poder, Fati e as companheiras de seleção, que jogavam juntas há anos, perceberam que o risco de ficar no país era grande. Da memória, nalguns casos transmitida pela geração anterior, emergiram imagens de execuções públicas e ausência de liberdade para as mulheres, no anterior “reinado” talibã, entre 1996 e 2001.
“Eu aceitei que o Afeganistão tinha acabado”, diz Fati. “Pensei que não haveria hipótese de viver, de eu ir lá para fora novamente e lutar pelos meus direitos. Sem escola, sem média, sem atletas, nada. Éramos como cadáveres em nossas casas”, acrescenta a atleta.
As futebolistas afegãs acabaram por ser assistidas por uma organização “invisível”, que ajuda mulheres a fugir de situações difíceis e as coloca em segurança. A 12.700 quilómetros de Cabul, no Texas, uma antiga fuzileira dos EUA planeou a operação. Haley Carter, ela própria ex-guarda-redes, foi também treinadora-adjunta da seleção afegã, entre 2016 e 2018. A norte-americana diz com sentido de humor: “Era um pequeno centro de operações a partir do WhatsApp. Nunca subestimes o poder de uma mulher com um smartphone”.
Haley fora contactada por Khalida Popal, antiga capitã da equipa do Afeganistão. Enquanto adolescente, sob a liderança firme dos talibãs, Popal e as suas amigas jogavam futebol num silêncio tumular, para que as autoridades não as ouvissem. Foi obrigada a deixar o país, depois de ser ameaçada de morte por causa do seu envolvimento no desporto. Hoje, vive na Dinamarca.
De acordo com Popal, os soldados andavam de porta em porta, em busca de mulheres que praticavam desporto, numa imagem estranhamente bíblica. Muitas atletas estavam escondidas. Khalida disse a Fati e às companheiras que apagassem todas as contas nas redes sociais, queimassem os equipamentos e enterrassem os troféus.
Até que Fati recebeu uma mensagem: “Khalida enviou-nos um SMS a dizer ‘meninas, estejam prontas para partir para o aeroporto juntas, com uma mochila cada’. Ela disse que não podia assegurar-nos a entrada no aeroporto, sequer, mas que, se lutássemos, sobreviveríamos”.
Enquanto as roupas, o carregador de telemóvel e a água seguiam na mochila de Fati, o elemento proibido ia mais escondido: “Tinha vestido uns calções da seleção nacional, como roupa interior, e estava com medo”.
Entretanto, o Melbourne Victory criou uma equipa para que mulheres afegãs possam jogar e competir na Austrália.
Kelly Defina/Getty
Na confusão do aeroporto, as atletas tremiam, como se a praia estivesse à vista, mas ainda se pudessem afogar. As instruções iam chegando via SMS, como lembra a guarda-redes: “Estejam lá à hora exata e anotem uma palavra-passe que eu vos vou dizer. Ele vai perceber e não haverá perguntas”. Só que, no terminal norte, Fati e o resto do grupo foram enviadas para trás. A mensagem não tinha passado, só estavam a aceitar cidadãos americanos.
No Texas, Carter tentava reverter a situação. As jogadoras estiveram 48 horas à porta do aeroporto. “Estava muito calor, faltava-nos o ar. As crianças à nossa volta choravam e gritavam, principalmente quando ouviam tiros”, conta Fati, pouco antes de decidir tentar novamente, agora no terminal sul. Para lá chegarem, teriam de passar por dois postos de controlo dos talibãs: no primeiro, o irmão de Fati foi separado dela e espancado; no segundo, foi a própria a ser pontapeada por homens com espingardas.
Aproveitando uma distração dos talibãs com a multidão, as atletas correram para um grupo de soldados australianos, gritando “jogadoras da seleção nacional”, “Austrália” ou “futebol”. “Eles viram os nossos documentos e deixaram-nos passar”, conta Fati. E, de repente, o grupo estava num C-130, com alguns atletas paralímpicos, em direção à Austrália. “À nossa volta, só havia rostos com medo”, diz a guarda-redes.
Na Oceânia, as atletas treinaram juntas pela primeira vez em fevereiro. “A sensação foi fantástica. (…) Havia uma nova esperança para todas as minhas companheiras”, relata Fati, sorridente. No entanto, o futuro do Afeganistão permanece incerto. A FIFA suspendeu as seleções femininas daquele país por precaução. O órgão máximo do futebol mundial afirma que permanece em contacto com a Federação Afegã.
“Se a federação disser que não há equipa nacional, não interessa, porque eu tenho as minhas companheiras. Temo-nos umas às outras. (…) Somos afegãs na mesma e, de alguma forma, seremos representantes da nossa nacionalidade”, diz Fati, com confiança.
Já Carter, a estratega, encontrou-se com Fati na Austrália, em abril. “Ela é uma jovem incrível”, disse a americana, que fez questão de acrescentar: “Aquelas mulheres são as minhas heroínas”.