Nos anos 70, Glenn Burke atuava nos LA Dodgers, da Major League Baseball (MLB), a liga profissional de uma das modalidades mais populares dos Estados Unidos. Em 1982, Burke foi o primeiro jogador a assumir publicamente a sua homossexualidade na história da MLB, mas antes disso já companheiros de equipa e dirigentes o sabiam. Burke achava que "ninguém se iria importar". Mas isso não era verdade.
Na auto-biografia que lançou, intitulada "Out at Home", Burke acusou o diretor-geral dos Dodgers, Al Campanis, de oferecer-lhe uma "lua de mel generosa" se o jogador aceitasse casar com uma mulher. Pouco depois, a equipa de Los Angeles enviou Burke para os Oakland Athletics, trocando-o com Billy North, num movimento que gerou muita polémica e acusações de homofobia. Os jogadores dos Dodgers foram contra o cambio, dizendo Davey Lopes, um dos companheiros de Burke em LA, que este era "a vida da equipa no autocarro, no balneário, em todo o lado".
Em Oakland também havia quem se importasse com a homossexualidade de Burke. Havia relatos de que alguns colegas evitavam tomar duche ao mesmo tempo que Burke. No documentário "Out: The Glenn Burke Story", Claudell Washington, outro ex-jogador, contou uma história sobre Billy Martin, treinador que, quando chegou aos Athletics, apresentou Burke aos atletas recém-chegados da seguinte forma: "Já agora, este é o Glenn Burke e é um faggot [termo depreciativo para homossexual]".
Aos 27 anos, Burke terminou a sua carreira profissional. Ao "New York Times", confessou que o "preconceito" o levou a "abandonar o basebol mais cedo" do que deveria. Na auto-biografia escreveu que "o preconceito ganhou".
Várias décadas depois, os LA Dodgers tentaram, na medida do possível, honrar a memória de Glenn Burke. A 3 de junho, a formação da Califórnia prestou homenagem ao seu ex-jogador, numa "noite do orgulho" em que foram utilizados chapéus arco-íris. Nove dias depois, a iniciativa foi mais longe: no embate contra os San Francisco Giants, ambas as equipas utilizaram símbolos pride em apoio à comunidade LGBTQ+, num gesto partilhado pelos árbitros da partida. Foi a primeira vez na história da MLB que ambos os conjuntos e os juízes o fizeram.
Erik Braverman, um dos principais dirigentes dos Dodgers, tem estado por detrás de diversas iniciativas contra a homofobia. Braverman assumiu a sua homossexualidade em 2015 e acredita que pode ser um "exemplo" para que "ninguém que queira trabalhar na MLB ache que não o poderá fazer devido à sua sexualidade".
"Eu não tive nenhum modelo enquanto crescia e acho que isso me levou a sofrer", disse Braverman, que defende um trabalho "365 dias por ano" em conjunto com a comunidade LGBTQ+. Nenhum jogador em ativo da MLB assumiu a sua homossexualidade.
O presidente dos Giants, Larry Baer sublinhou que, "apesar da longa rivalidade" com os Dodgers, é possível "utilizar uma plataforma coletiva para quebrar estereótipos". Billie Jean King, lenda do ténis que há várias décadas luta pela igualdade de género, foi uma das personalidades que felicitou a iniciativa.
Um dos convidados de honra do jogo foi Dale Scott, antigo árbitro que assumiu a sua homossexualidade em 2014. Scott lançou recentemente um livro intitulado "The Umpire Is Out" e, ao "Outsports", disse que foi "incrível" ver "toda a gente a usar chapéus do orgulho", o que o levou a pensar "no quão longe" se chegou. "Eu fiz tudo o que podia para ocultar quem eu era, portanto estar no campo com aqueles chapéus foi um orgulho enorme".
A MLB tem-se associado ao mês do orgulho. Quase todas as equipas da liga têm, neste momento, pelo menos uma noite anual de pride, em apoio à comunidade LGBTQ+. A exceção são os Texas Rangers, que nunca fizeram qualquer evento deste tipo.
A recusa dos jogadores dos Tampa Bay Rays
Os Tampa Bay Rays realizaram a sua "noite do orgulho" a 4 de junho, frente aos Chicago White Sox. Segundo o "Tampa Bay Times", a equipa da Flórida deu opção de escolha aos seus jogadores, que poderiam ou não utilizar chapéus e uniformes para celebrar a ocasião.
Ora, pelo menos cinco jogadores decidiram não vestir a indumentária especial, usando a roupa normal da equipa. Jason Adam, Jalen Beeks, Brooks Raley, Jeffrey Springs e Ryan Thompson não se associaram à 16.ª noite anual do pride dos Rays.
O jogador escolhido para falar à imprensa em nome daqueles que não quiseram vestir as cores do arco-íris foi Jason Adam, que justificou a decisão como "baseada na fé": "É uma decisão difícil. Todos dissemos que queremos que eles se sintam bem-vindos e amados aqui. Quando os vestimos [os símbolos do orgulho], muitos dos rapazes decidiram que, se calhar, não queremos encorajá-lo se acreditamos em Jesus, que nos encorajou a que todos tivéssemos um estilo de vida que nos abstivesse daquele comportamento, tal como me incentiva a mim, como heterossexual, a abster-me de ter sexo fora dos limites do casamento. Não é diferente", considerou Jason Adam.
Kevin Kiermaier, outro jogador dos Rays, utilizou os símbolos, sublinhando que "criar um ambiente de inclusão" é uma "prioridade" para si. Kiermaier vincou que os seus pais o "ensinaram a amar toda a gente" tal "como é", "independentemente das preferências". Kevin Cash, treinador da equipa, revelou que o tema levou a "muitas conversas" no balneário, mas sem "discussões".
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